Pessoas como eu, que são chamadas de minorias sociais, por estarem em
condições de desigualdade com uma parcela da sociedade, é provável, que nunca
conseguissem concluir um curso de graduação e pós-graduação se não existisse
universidade públicas e os programas de permanência na universidade criados
pelo governo federal.
Nasci, num povoado de Maranhãozinho, um lugar de difícil acesso, não
havia posto médico e existia apenas uma escola multiseriada, onde estudavam
crianças, jovens e adultos, todos na mesma sala, meus pais eram lavradores, em
razão da minha deficiência, eu quase nunca saía de casa, e, para passar o tempo,
meus pais e meus familiares me davam livros, muitos, já estavam envelhecidos e
frágeis, na minha casa não tinha
televisão e nem uma radiola, a única diversão que eu tinha era ler esses livros
com uma lupa, que também, já estava muito gasta devido ao tempo de uso. Outras
vezes, meus familiares faziam leituras para mim, com o tempo aprendi a
escrever, mesmo sem poder enxergar bem, aprendi a desenhar e a recitar poesias.
O sonho do meu pai era um dia me ver na universidade, apesar, de saber
que minhas chances seriam poucas, afinal, além da nossa situação econômica ruim
e da distância do lugar que nós morávamos eu não enxergava.
O sonho dos meus pais, minha esperança e fé de viver dias melhores e
muito, mais muito estudo, consegui ingressar na Universidade Federal do
Maranhão, devido minha situação econômica, só pude concluir o curso de
graduação que escolhi, porque recebi bolsas.
Na graduação morei na casa de estudante da UFMA, não paguei aluguel, água,
luz e gás de cozinha. Ganhei bolsa alimentação (refeições gratuitas no RU). Fui
bolsista estagiária no Campus. Fui bolsista em grupo de pesquisa. Quando
terminei a graduação, ingressei na Pós-Graduação, fui bolsista da Capes.
Desenvolvi pesquisas, participei de eventos e como parte do meu compromisso
social, engajei-me em lutas sociais.
Na universidade aprendi a pensar e agir como um ser humano crítico e consciente, pautado no respeito a diversidade e pluralidade de ideias, condições e princípios. Conheci e assume, meu lugar no mundo com uma responsabilidade social e humana.
Em meus trinta e uns anos de
idade, já vivenciei e ouvi inúmeros relatos de violência. Mas, nunca ouvi falar
num evento realizado no Brasil que abordasse essa temática e que tivesse como
objetivo criar políticas públicas, programas e campanhas de prevenção e combate
à violência sexual contra crianças com deficiência.
Violência sexual contra
crianças com deficiência são crimes corriqueiros no Brasil e acontecem
predominantemente no âmbito familiar e doméstico. Esses crimes estão
associados a fatores de risco decorrentes do aumento da desigualdade social, da
pobreza extrema, desigualdade de gênero, doenças, etc.
Raramente os agressores são
punidos e em todos os casos, as vítimas se tornam pessoas adultas sem
compreender o que é sexualidade, relações sexuais, sem conhecer seu próprio
corpo e com uma série de problemas psicológicos.
O combate à violência contra crianças com
deficiência exige do Estado a obrigação de criar políticas públicas que
amenizem as desigualdades econômicas, sociais, e de gênero e que ofereça educação
de qualidade, específica, diferenciada e inclusiva, que ofereça assistência à
saúde e reabilitação, arte e cultura, etc., para que as crianças com deficiência
possam ter uma vida sem violência.
É sempre bom lembrar que é indispensável a
participação de todos os brasileiros no trabalho de prevenção e combate à
violência contra a criança com deficiência. Afinal, a Constituição de 1988, o
ECA e o Estatuto da Pessoa com Deficiência dizem que a obrigação de cuidar e
proteger das pessoas com deficiência é da família, do Estado e da sociedade
civil.
Portanto, arregace a manga da sua camisa e
levante a bandeira do combate à violência contra criança com deficiência!
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Um estudo realizado pelo Fórum Africano de Políticas para Crianças sobre violência contra crianças com
deficiência mostra que crianças com deficiência têm quatro vezes mais possibilidade
de sofrerem violência sexual e as meninas são as mais vulneráveis.
Infelizmente, não encontrei dados oficiais e confiáveis sobre violência sexual contra
crianças com deficiência no Brasil.
Penso que, violência sexual
contra crianças com deficiência, é um tema ignorado por pesquisadores, gestores
e pela sociedade civil. Decidi fazer uma pequena pesquisa de campo, nessa
semana, somente para ter uma ideia do quanto a violência sexual contra crianças
com deficiência é corriqueira e o agressor é impune.
Perguntei para sete pessoas
com deficiência se já haviam sofrido violência sexual na infância. Todas me
responderam que sim. Todas me afirmaram que não denunciaram. Todas me afirmaram
que ainda tem contato com o agressor. Dessas sete pessoas, cinco são mulheres, relataram-me
que familiares ou sabiam ou suspeitavam dos abusos, mas, preferiram ficar em
silêncio.
Muitos casos de violência sexual contra crianças
com deficiência não são denunciados, porque, o agressor é um familiar ou educadores,
colegas, vizinhos, familiares, prestadores de serviços, membros de igrejas, etc.
Essas violências assumem muitas formas, bullying, castigo físico, tratamentos
violentos, como por exemplo, amarrar a criança numa cadeira ou na cama, trancar
a criança num ambiente escuro, isolamento social, má alimentação, etc. No caso
das meninas, a principal violência é o estupro, assédio e esterilização
forçada.
As crianças com deficiência vítimas de
violência, em específico, de violência sexual, raramente são percebidas socialmente.
Mudanças no comportamento de crianças com
deficiência tendem a serem vistas por familiares e pela sociedade em geral,
como decorrentes da deficiência. Por exemplo, quando crianças surdas, não participam
de brincadeiras, trabalhos, jogos, etc., na escola, professores e educadores
julgam que tal comportamento é decorrente da dificuldade de comunicação da
criança surda com as crianças ouvintes. Situação semelhante, acontece com crianças
cegas, que muitas vezes, são vistas como dependentes, sempre precisando de
ajuda. Situação mais grave, são as crianças com deficiência mental, a sociedade
tende a julgar todo seu comportamento em razão da sua deficiência.
Crianças com deficiência são antes de tudo, crianças,
e, como toda criança gostam de brincar, sorrir e viver em sociedade. O
isolamento social, crises de choro, medo, comportamento agressivos, timidez excessiva,
são sinais de que a criança com deficiência pode estar sofrendo violência
sexual.
Lembre-se a obrigação de cuidar e proteger
das crianças com deficiência é sua também! Afinal, a Constituição de 1988, o
ECA e o Estatuto da Pessoa com Deficiência dizem que a obrigação de cuidar e
proteger as pessoas com deficiência, a criança e o adolescente é da família, do
Estado e da sociedade civil.
Fique atento! Arregace a manga da camisa e
levante a bandeira do combate à violência sexual contra criança com
deficiência!
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Descrição da imagem: Simbolo da infância, consiste numa imagem com fundo branco e o desenho estilizado de uma menina e um menino na frente de sol amarelo.
Inúmeros estudos
apontam que as pessoas com deficiência em específico, as mulheres são mais
vulneráveis a sofrerem violências, seja por meio do isolamento social, agressões
físicas e psicológicas.
Segundo o Atlas da violência
(2018), dos 22.918 casos de estupro denunciados em 2016, 10,3% das vítimas
tinham alguma deficiência. 31,1% tinham deficiência mental e 29,6%
possuíam transtorno mental e entre os casos de estupro coletivo, 12,2% das
vítimas têm algum tipo de deficiência.
O Atlas toma como referência dados
disponibilizados pelos órgãos de saúde. Assim, os números de casos de estupro
contra mulher com deficiência são maiores, dos que estão registrados, na
maioria dos casos, o agressor não é denunciado, além disso, os abusos e
violências ocorrem mais de uma vez.
O estupro de mulher
com deficiência, ocorre, predominante no âmbito doméstico e familiar em que o
agressor mora com a vítima, outras vezes, o agressor é um vizinho, colega,
cuidador, educadores e lideranças religiosas. Há casos de estupro, em que a
vítima, em razão do grau da sua deficiência não consegue denunciar, como ocorre,
especialmente, com mulheres com deficiência mental, em que o abuso só é
descoberto na gravidez. O Atlas mostra que dos 649, pessoas com deficiência
mental estupradas, 275 foram violentadas mais de uma vez.
As reincidências de estupro de mulheres com
deficiência ocorrem pelo fato do agressor acreditar veementemente que não será
punido, que ninguém irá acreditar na palavra da vítima ou que ela, não terá capacidade
de denunciá-lo. Os agressores julgam que a mulher surda, não conseguirá se comunicar
para fazer a denúncia e relatar o que aconteceu, que a mulher cega não poderá
identificar e descrever o agressor, que a que tem deficiência física não
conseguirá chegar a um local para fazer a denúncia, que a mulher com
deficiência mental ao relatar um abuso, não vai passar de uma crise.
Em meio a tabus, preconceitos e exclusão mulheres com deficiência continuam sendo estupradas e vítima de todo tipo de violência, principalmente, no âmbito doméstico e familiar. Por estarem numa situação de grande invisibilidade, gestores públicos e a sociedade civil não demonstram interesse em defender essa causa.
Palestra realizada no dia 02.05.2019 no Conselho Municipal de Saúde – São Luís, sobre violência sexual contra mulher com deficiência no Maranhão e no Brasil.
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O ciclo de assédio e violência
contra mulheres cegas e com outros tipos de deficiência se inicia na infância.
Agressores se aproximam da vítima de modo gentil, oferecem ajuda… isso ocorre
em lugares públicos, supermercados, shows, igrejas, escola, etc. Mas, ocorrem
principalmente, no seio da família. Com pessoas conhecidas, amigáveis. Muitos
agressores são extremamente religiosos, pregam a valorização da família, são
sociáveis. Alguns são autoridades, professores, oficiais, pessoas
escolarizadas, intelectuais… e sempre se identificam como heterossexuais…
Você não tem como provar porque você não viu! Essa é a frase que dá segurança e a certeza de impunidade para agressores sexuais e morais de mulheres cegas. Hoje faz 11 dias da última vez que ouvi esta frase. Até agora nada foi apurado, não fui ouvida de modo oficial, nenhuma providência foi tomada. Talvez eu tenha já ficado próximo do meu agressor, tenha andado lado a lado com ele e quem sabe sorrido Afinal não consigo enxergar!
Já vivenciei inúmeras
situações de violência e assédio executados por homens, brancos, negros, alto,
baixo, ricos, pobres, idosos, parentes, conhecidos, vizinhos, estudantes,
escolarizados, politizados, intelectuais, com deficiência e sem deficiência…
Acreditem. Homens com
deficiências constantemente são mais violentos com mulheres com deficiência do
que muitos homens sem deficiência. Quando eles cometem a violência
corriqueiramente e por inúmeras razões saem impunes.
O ciclo de assédio e
violência contra mulheres cegas e com outros tipos de deficiência se iniciam na
infância. Aconteceu comigo. Em muitos momentos meus agressores chegaram até
mim, me oferecendo ajuda e sendo simpático. Depois, vem as frases… toque…
isto já ocorreu em supermercados, shows, igrejas, escola, etc., etc. Em todos
os casos eu gritei, chorei e denunciei. Fiz queixas em delegacias e em
defensorias. Fui obrigada a ficar diante de meu agressor e ouvir ele dizer que
eu tinha entendido tudo errado, tudo não passou de um mal entendido, que eu
preciso de tratamento psicológico por pensar mal das pessoas.
Por diversas razões, os lugares em que fiz denuncia me senti mais violentada. Precisei narrar a mesma história várias vezes, já ouvi, de funcionários de delegacias e defensorias, que se a pessoa não me agrediu, se eu não tenho marcas e nem testemunha, como vou provar o que estou dizendo? Assim, nunca conheci a justiça. Nunca foi feito nada e meus agressores continuam agredindo e violentando outras mulheres.
Um dia me disseram que fui assediada porque tenho riso fácil e falo muito, na minha adolescência me disseram que os meninos tomaram gosto comigo porque minhas pernas eram muito grossas e eu usava vestidos curtos. Teve uma época que fiquei tão triste e depressiva com isso, que cheguei até pensar que meus agressores estavam corretos. A culpada era Eu.
Hoje sei que não sou culpada. Assédio a culpa nunca é da vítima. É isso o que todos os agressores tentam fazer quando são denunciados. Culpam a vítima, isto aconteceu comigo.
Decidi pesquisar sobre violência contra mulher cega, infelizmente, não existem dados confiáveis, primeiro porque, muitas mulheres não denunciam, segundo porque, muitas fazem como eu fiz, para de denunciar, terceiro porque, ninguém quer pesquisar. Tenho falado na mídia, em escolas, universidades, hospitais, igreja, movimentos sociais, partido político e em blocos de carnaval, que mulheres cegas são estupradas, assediadas e violentadas diariamente e que isto este ciclo de violência se inicia na infância. Sei disso, com convicção, porque vivenciei e vivencio, porque ouço diariamente de pessoas com deficiência e de mães de crianças com deficiência e porque pesquiso.
Com isso, pretendo contribuir para que mulheres cegas e com deficiência tenham um mínimo de segurança na sociedade, que possam entrar numa sala de estudo da sua universidade para estudar e dentro não tenha um homem assistindo filme pornô com um volume alto, e ele, lhe dizer que aquilo não é assédio, ele andar na sua direção e dizer você não pode provar nada, você não enxerga.
Descrição da imagem representação do feminino, imagem com fundo azul, no centro tem uma mancha na cor amarela um círculo com uma cruz embaixo e é o símbolo astrológico do planeta Vênus. Fonte azmina, 2020.
Tem gente que
acredita que no Brasil não existe racismo, homofobia e nenhum tipo de
preconceito. Essa semana, uma pessoa que pensa assim, me falou que cotas
raciais e para pessoas com deficiência é um privilégio, porque tanto o negro,
quanto o índio e os deficientes podem conseguir o que quiser é só se esforçar.
Eu acredito nessa
gente. Claro que acredito! Essas pessoas nunca entraram numa escola pública,
nunca foram atendidos num hospital público, não sabem o significado da fome, o
que é andar descalço quando não tem um chinelo, mesmo que seja emendado com
prego, nunca andaram léguas em busca de água e para ir estudar numa escola
multiseriada…
Pessoas assim, tem
pele branca e geralmente, são muito religiosas… Pensam que drogas e violência
existem por causa de pessoas pobres, pretas e nordestinas, que quiseram deixaram
o trabalho na roça para cidade e como se não bastassem queriam que os filhos
estudassem e fossem doutores.
Pessoas que não acreditam
que existe preconceito no Brasil, ocupam cargos importantes no governo e muitas
pregam isto até nas instituições de ensino superior pública. Desconhecem, que
seus descedentes mataram, escravizaram e expropriaram, inúmeras nações no
Brasil… Destruíram terras e territórios, culturas e crenças…
Elas tem frases de
efeito, iguais às que escuto constantemente, “se esforce que você consegue”… Essas pessoas não compreendem porque simplesmente
se negam compreender que no Brasil as oportunidades são para poucos e que a criação
de políticas públicas de ações afirmativas só servem para amenizar a situação
de desigualdade de condições entre pessoas que historicamente estiveram em
situações desiguais, não é um privilégio, mas, sim, a garantia de um direito
humano, a garantia do direito à vida e a participação social.
Agora, estou em
dúvida, se vale a pena falar algo para esses crentes. Afinal já estão
convertidos na crença da inexistência de preconceito há muito tempo.
Aderaldo Ferreira de Araújo, Cego Aderaldo, nasceu em 24 de junho de 1878, na cidade de Crato no Ceará, logo após seu nascimento mudou-se para Quixadá no mesmo estado, sozinho aos cinco anos Aderaldo começou a trabalhar e tomou conta de seus pais doentes.
No ano de 1896 seu pai faleceu e 15 dias depois em 25 de março de 1896, quando tinha 18 anos e trabalhava como maquinista na estrada de ferro de Baturité, depois de uma forte dor nos olhos Aderaldo ficou cego.
Estrada de ferro de Baturité. Fonte: Claudio Portela, 2013.
Certa vez, Aderaldo teve um sonho em verso, ocasião em que descobriu seu dom para cantar e improvisar. Cego Aderaldo ganhou uma viola na qual aprendeu a tocar depois aprendeu a tocar rebeca, quando tudo parecia estar ficando bem, a mãe de Aderaldo morre.
Cego Aderaldo sozinho começo a andar pelo sertão, cantando e recebendo por isso, percorreu todo o estado do Ceará, parte do Piauí e Pernambuco, além de outras regiões do Nordeste como o Maranhão.
Cego Aderaldo durante uma cantoria. Fonte: Claudio Portela, 2013.
Em 1914, Cego Aderaldo travou a famosa peleja com Zé Pretinho, maior cantador do Piauí. Depois, retornou a Quixadá, mas com a seca de 1915, decidiu aventura a sorte no Pará, mas, retornou em 1920 para Quixadá e saiu de lá em 1923, para ir conhecer o padre Cicero em Juazeiro. Padre Cicero foi pessoalmente conhecer o trovador que já era famoso na região.
Cego Aderaldo e Zé Pretinho. Fonte: Claudio Portela, 2013
Depois de conhecer
padre Cícero Cego Aderaldo cantou para Lampião e fez um pedido em verso, que
era ganhar um revolver de Lampião.
Em 1931, comprou um gramofone e alguns discos e começou a fazer festas no sertão, divertia o povo apresentado o que era novidade mesmo na capital. Em 1933, começou apresentar vídeos.
Em 1942, Cego Aderaldo resolveu morar em Fortaleza e abriu uma bodega na rua da Bomba no número 02, não foi muito bem, nesse negócio e a bodega acabou fechando com prejuízo.
Em 1945, depois de já ter rodado todo o sertão inúmeras vezes, de ter pelejado com inúmeros cantadores, de ter participando da inauguração da primeira TV do Brasil, parou de aceitar desafios de cantoria.
Cego Aderaldo na inauguração da primeira TV do Brasil. Fonte Claudio Portela, 2013.
Cego Aderaldo nunca se casou, mas, se definia como um chefe de família, porque adotou mais de 20 crianças. Aos 89 anos no dia 29 de junho de 1967 em Fortaleza morre Cego Aderaldo. Um cego que tinha uma visão extraordinária dos problemas sociais no Brasil e no Nordeste.
Quantos personagens
cegos você já viu na TV, no cinema, no teatro, em propagandas, outdoors,
jornais, revistas e animações?
Talvez você não lembre de nenhum agora… Também, isso não é uma coisa importante para alguém prestar atenção né? A maioria dos personagens cegos são interpretados por artistas videntes, mas, há, personagens cegos interpretados por artistas cegos. Veja meus personagens cegos favoritos!
Dorinha é uma personagem que foi criada em 2004, para integrar a Turma da Mônica, uma revista infanto-juvenil brasileira, seu nome é uma homenagem a Dorina Nowil, uma mulher que perdeu a visão quando era criança e fundou uma instituição com seu nome para atender pessoas cegas. Dorinha é uma menina cega, inteligente, meiga e esperta. Adora moda e estar junto de seus amigos, usa óculos escuros e anda de modo charmoso com sua bengala e com o Radar, seu cão guia. Dorinha é a primeira personagem de revista infanto-juvenil cega do Brasil. Me identifico muito com esta personagem, por isso, a escolhi para colocar na logo do projeto Resista como uma mulher cega!
Logo do projeto. #para todos verem: imagem com fundo amarelo, com a frase: RESISTA COMO UMA MULHER CEGA!, escrita com letras pretas, do lado direito tem a imagem da Dorinha, com óculos escuros e bengala em preto e branco.
Anita
personagem da novela Caras e Bocas da rede globo em 2009, interpretado por Danieli
Haloten, a primeira atriz cega a ter um papel em novela brasileira.
Maester Aemon,
um sábio que integra a patrulha da noite, grupo que protege a muralha e vive
afastado da sociedade é integrante do clã dos Targarven, é interpretado por
Peter Vaughan em Game of Thrones. O ator quando começou a gravação da série
tinha baixa visão é provável que tenha ficado cego total na segunda temporada.
Jim Dunbar,
personagem que perde a visão e que continua trabalhando na polícia como
detetive na série Blind Justice.
Mathew Murdock,
um dos mais icônicos personagens dos quadrinhos da Marvel Comics, fica cego
ainda criança ao ser atingido por um caminhão com uma carga radioativa, mas
isso, caba melhorando seus outros sentidos, originando o super-herói Demolidor,
atualmente Charlie Cox interpreta o personagem na série de mesmo nome da
Netiflix.
Leonardo, personagem
interpretado por Guilherme Lobo é um adolescente com deficiência visual, que
busca independência e viver um amor no filme Hoje eu quero voltar sozinho.
Ventura, um
jovem racista e preconceituoso que ficou
cego quando criança. Se apaixonou por Bertoleza. Mas, no final da série se
mostrou uma pessoa melhor. Interpretado por Vitor Thiré, na minissérie
liberdade, liberdade da rede globo o
Frank,
interpretado por AL Pacino no filme perfume de mulher. Frank resolve fazer uma
última viagem antes de morrer na companhia de seu acompanhante Charlie papel de
Chris O’Donnel.
Val Kilmer interpreta
um cego que vive um grande amor, por insistência da amada acaba fazendo uma
operação para recuperar a visão, mudando toda a sua vida e rotina. No filme primeira
vista lançado em 1999. Esse filme mostra o quanto é dolorido viver com pessoas
que não respeitam nossa deficiência.
Quando criança eu
costumava contar histórias com personagens cegos, na verdade eles não eram
cegos, mas, eu os tornava cegos… Me contaram que ela tinha a pele da cor da
minha, cabelos longos e lisos iguais ao meu, vivia no fundo dos rios.
Às vezes a mãe d’ água brincava na beira dos igarapés e se por acaso alguma criança que ainda não fosse batizada ficasse sozinha na boquinha da noite perto de algum igarapé a mãe d’ água levava para morar no fundo do rio. A criança se tornava um encantado que apareceria apenas nas festas de tambor quando fosse chamado. A mãe d’água precisava ser cega para me representar, por morar nas águas, ser poderosa e transformar uma pessoa comum num ser mágico.
Tem pessoas que querem
mostrar que pensam que são superiores a outras pessoas…. As vezes por razões
bestas… A outra pessoa prefere não se importar e deixa essa outra pessoa
pensar que pode se mostrar… Isso acontece entre aquelas duas pessoas alí.
Veja!
A primeira pessoa
acredita que é um gênio, afinal, nasceu e foi educada para ser um gênio! Nasceu
em berço de ouro, perfeitinho! No seio de uma família tradicional. Estudou nas
melhores escolas da capital. Aprendeu história, matemática, gramática. Hoje é doutora
em economia, história, matemática e agronomia. Me contou que tem um QI maior
que 100% e sabe explicar em segundos as principais características sociais, econômicas
políticas e geográficas de todos os país do mundo.
A segunda pessoa,
nasceu numa esteira de fibra de buriti, numa casinha de taipa no meio da roça. Aprendeu
a lutar desde pequenina por terra para plantar e escola para estudar. Estudou história,
política, religião, arte, direitos humanos e lutas sociais com poetas popular…
Matemática nunca aprendeu… afinal pra quê contar? Quando se nasce com o dom para
falar! Não nasceu perfeitinha… Tinha aparência de gente fraquinha… Nunca
soube o quer dizer berço de ouro, não conhece vinhos importados e nem quitutes
sofisticados… Hoje é artista e faz espetáculos diariamente no palco da vida,
mas, também, faz pesquisa, tem uns cinco diploma da universidade, só não sei se
é de doutorado…
A primeira pessoa contou-me
quais eram seus doces favoritos. Fiquei entediada em ouvir tantos nomes
estranhos que não lembro o nome para escrevê-los aqui. Desabafou dizendo que
era infeliz, que já foi obesa e violenta.
A segunda pessoa contou-me
que seu doce favorito é de abobora e mamão verde. Relatou-me que um dia ficou
presa num arame farpado quando fugia depois de roubar manga do quintal da
vizinha.
Um dia desses, a
primeira e a segunda pessoa se encontraram numa aula sobre história do Brasil.
A primeira pessoa falou
sobre colonização do Maranhão… E veio
os projetos de colonização… pessoas da floresta, das águas, da roça… Falou
que estudou grandes pesquisas e que já publicou muitos trabalhos, artigos, resenhas…
A segunda pessoa
disse que viveu histórias de colonos, pessoas da floresta, das águas, da
roça…Viajou em lombo de jegue, de carroça e pau de arara em muitas estradas
do Maranhão e do Nordeste. Ouviu, sentiu, viu, e viveu muitas histórias…
A primeira pessoa é ateia.
A segunda pessoa
acredita em Deus, Deuses e Seres Celestes.
A primeira pessoa até
fala de democracia mas desconhece os principais princípios democráticos,
considera o Estado e povo a mesma coisa e odeia o que é público
A segunda pessoa diz
que o Estado não deveria existir e odeia o que é privado.
Não sei por qual
motivo… Mas, um dia a primeira e a segunda pessoa se encontraram.
A segunda pessoa discordou
da primeira pessoa, citou até Celso Furtado, Florestan Fernandes e Caio Prado Jr
para justificar sua opinião teoricamente.
A primeira pessoa decidiu
impedir a primeira pessoa de falar ou seja de discordar…
No meio da fala da
primeira pessoa a segunda pessoa citou um trecho da cantoria de Cego Aderaldo e
o índio Azuplim… como de esperado, não houve debate algum… Afinal, o
quem tem haver Celso Furtado, Florestan Fernandes e Caio Prado Jr com Cego
Aderaldo e o índio Azuplim?
A primeira pessoa falou que é uma intelectual e a segunda pessoa consciente de sua sabedoria e generosa com a arrogância da primeira pessoa escolheu ficar em silêncio.
Hoje uma pessoa me perguntou se eu não
tenho vergonha de ser tão ridícula ao ponto de fazer piada com minha própria
cegueira. O correto seria eu viver triste e sempre em oração para que Deus
tivesse misericórdia de mim e me curasse.
Tentando manter a calma, comecei a explicar
que não é apenas com os olhos que podemos enxergar. Minha explicação fracassou
e fez com que a pessoa pensasse que eu podia estar com algum espírito ruim nos “couro”.
Aí ela me disse: “ quero te ajudar a entender que a pior coisa do mundo é ser
cega, se eu ficasse cega morreria. Como você pode ser cega e ainda fazer piada
da sua própria cegueira”.
Muitas pessoas já me falaram que não
suportariam viver no escuro e se por acaso ficassem cegas se matariam. Mas,
dessa vez, foi diferente, porque esta pessoa queria me fazer entender que é um
castigo ser cega.
Sorrindo, falei que a cegueira não é um
problema para mim, e que não tenho vergonha de ser ridícula e de tão ridícula
que sou já até esqueci as ofensas que ela acabou de me fazer.
Sou ridícula ao ponto de gostar de cinema,
desenho animado, pinturas e fotografias, mesmo sem enxergar e desconhecendo
formas. Ah! Gosto de assistir televisão deitada no chão de pernas para cima,
tentando acertar pipoca na boca e me divirto tentando encontrar as pipocas que
caem no chão.
De tão ridícula que sou, transformo meus
fracassos e tropeços em choro e gargalhadas, tudo ao mesmo tempo. Acredito em
papai Noel, coelhinho da páscoa, em alienígenas, em heróis e heroínas, em mágicos
e celestes, inclusive suspeito que sou um que está vivendo nesse mundo
disfarçada de mulher cega! Acredito
também na mãe d ‘água, no saci e em alma penada.
Sou tão ridícula que acredito no poder
de simpatias e pequenas mandigas: para visita desagradável coloco a vassoura detrás
da porta, para espantar olho gordo, coloco vaso de pimenta malagueta em cima da
mesa. Para garantir paz e prosperidade no lar, salpico aroma de hortelã e chá
de capim santo em toda a casa.
Sou tão, mais tão ridícula que faço
declarações de amor, algumas sedutoras, outras, meigas, outras amigas e
carentes e outras com tudo isso junto.
Então, pessoa, não se acanhe, aproveite
que hoje é o dia decretado para ser ridícula ou ridículo sempre que quiser e
viva intensamente sem medo de ser feliz.
Nasci numa data que expressava a esperança de muitos trabalhadores rurais de que seus direitos sociais seriam respeitados e a reforma agrária efetivada. Um ano marcado pelo fim da ditadura e pela efervescência cultural e política que exigia o início de um Estado democrático de direito, com participação popular plena e liberdade de expressão, tais, reivindicações foram garantidas com a promulgação da Constituição de 988, a chamada Constituição Cidadã pelo deputado Ulysses Guimarães, expressa um marco aos direitos dos brasileiros, porque, lhes garante liberdade civis e deveres do Estado.
Mobilização Diretas Já em Brasília. Fonte: Agência Brasil.
A participação popular é um dos principais elementos de todo
governo democrático, no qual o povo participa do processo de tomada de decisões
e sobre quais políticas públicas devem ser adotadas para melhorar a vida das
pessoas.
O atual presidente do Brasil tem se mostrado cada vez mais avesso a democracia e o estopim contra a participação popular ocorreu no dia 11 de abril, quando assinou o Decreto 9.759/19, que coloca fim em 35 conselhos sociais do governo federal, que integram a Política Nacional de Participação Social – PNPS, foram extintos. Entre eles estão o Conselho Nacional de Política Indigenista – CNPI e a Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena – CNEEI, que acompanhava a execução de políticas públicas para quase 3 mil escolas indígenas no país. Em relação a violência, negação de direitos e repreensão aos povos indígenas, a meu ver, não é novidade na gestão de Bolsonaro, porque, desde o início da sua campanha política demonstrou total desconhecimento e desrespeito sobre os povos indígenas do Brasil.
Mensagem das lideranças reunidas na aldeia Panorama, na Terra Indígena Karipuna. Foto Fernanda Ligabue Greenpeace
O que me causou espanto, foi a extinção do conselho dos direitos da
pessoa com deficiência, após quatro meses a primeira dama fazer seu discurso no
dia da posse do seu marido na língua de sinais e a menos de três meses de el ter
dado uma entrevista num canal de televisão dizendo que carrega e defende a
bandeira de luta das pessoas com deficiência. Enquanto, seu esposo, o
presidente Bolsonaro, gravou vídeos que circulam nas redes sociais, recebendo
pessoas com deficiência e falou que seu governo será um governo INCLUSIVO.
A gestão do atual presidente, mal começou, mas, é notória que suas
medidas visam extinguir os instrumentos democráticos de participação social,
responsáveis pela criação de políticas públicas e controle social. Outro
exemplo antidemocrático é a nomeação do torturador João Freitas como presidente
da anistia é um crime contra os direitos humanos e uma ameaça a vida de todas
as pessoas que vivem no Brasil, é estimular o ódio e a violência contra mulheres,
a população, LGBTTQI, aos povos indígenas, pessoas com deficiência e contra
toda pessoa que pense de forma democrática.
Não podemos nos CALAR, o governo tem que respeitar uma política de Estado, conquistada e garantida a partir de luta e militância popular. Os conselhos são políticas de Estado e o atual governo não pode negar direitos constitucionais e dos tratados internacionais de direitos humanos.
Quando casei não prometi ao meu companheiro que o faria feliz todos os dias, que viveríamos juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, ou até que a morte nos separe e mais aqueles turbilhões de promessas que as pessoas fazem e falam antes de casar e que nunca cumprem. LHE PROMETI , apenas, UMA VIDA SEM TÉDIO. Hoje descobri que na verdade não faço com que seus dias não sejam um tédio, mas, acredito que meus dias não são entediantes .
Penso que pelo simples fato de eu não enxergar as coisas na minha vida ganham maior dinamismo, emoção e tudo se torna uma aventura, até mesmo, quando vou contar um sonho que tive, se torna uma narrativa extraordinária. As vezes sonho que estou enxergando, aí, levanto da cama em disparada, mas, logo percebo que não enxergo. Essa narrativa, é sempre motivo de risos, piadas e histórias na minha casa.
Não sei por qual motivo, mas, diariamente esqueço que sou cega ou esqueço que a maioria das pessoas enxergam, inclusive que meu esposo enxerga. Por isso, tenho o hábito de falar tudo por meio de descrição. Tal situação, gera uma dinâmica específica no nosso lar, as vezes alegres e outras nem tanto.
Todos os dias aprendo alguma coisa. Você acredita que num mesmo dia aprendi a fazer peixe assado e acessar a Netiflix. Bom, para você pode não ser muita coisa, mas, para uma pessoa cega acessar Netiflix sem leitor de tela é um grande feito! E esse grande feito precisar ser narrado para alguém e adivinha quem é a primeira pessoa da lista?
Nem tudo na vida é só alegria né?
Tem dias que vivo inúmeras situações de violência, preconceito e exclusão, as vezes, finjo que não percebi, outras, brigo, outras sou educada e converso, outras choro e grito. Advinha quem sempre vai me ouvir em casa?
Meus dias, assim como os seus, nunca são iguais, mas, pelo fato de eu ser cega, tudo o que acontece no meu dia é extremamente diferente do seu. Ir ao supermercado, por exemplo, é uma tarefa simples no dia a dia da maioria das pessoas, mas, para mim não é. Fazer compras ao supermercado é uma ventura que exige a criação de inúmeras táticas de sobrevivência… Em São Luís não existe nenhum supermercado com piso tátil, nenhuma sinalização que ajude pessoas cegas a fazerem suas compras com autonomia, as pessoas não respeitam a fila preferencial, etc. Além disso, já vivi diversas situações em supermercados de desrespeito e assédio.
Por falar em tática de sobrevivência eu e meu esposo criamos centenas que estão em uso contínuo e em fase de aprimoramento para todos os dias do ano. Temos táticas específicas para cada situação cotidiana, todas acompanhadas de um sistema secreto de códigos que apenas nós dois sabemos. Temos também, algumas especiais que são aquelas de datas específicas, como o carnaval, natal, páscoa, para festas de rock, para estádio de futebol, para barzinhos e etc.
Aprendi executar essas táticas e a ler seus códigos com cabeça erguida e barriga para dentro. Quero que você fique sabendo que isso também é um grande feito! Não é fácil uma pessoa cega andar de cabeça erguida, barriga para dentro, segurando na mão do seu companheiro e sem usar bengala.
Talvez nunca tenha vivido em tédio, ou talvez sempre vivi em tédio a ponto de não perceber a diferença e pensar que o tédio não existe. Talvez minha vida não seja tão dinâmica como a sua, mas, é que eu vivo tudo tão intensamente e apaixonante que tudo parece mais leve e menos entediante.
Descrição da imagem: estou do lado esquerdo, vestida com uma blusa branca e um short verde, do lado direito meu esposo está vestido com uma camiseta branca, um calção azul e um boné preto. Estamos nos beijando em cima de uma pedra na beira do mar em Parnaíba – Piauí.
Todos os povos indígenas do Brasil possuem um modo específico de se relacionarem socialmente e territorialmente , de modo que não é pautado em divisão de forças de produção, coerção e destruição, tal, como ocorre no modo de vida dos povos que estão inseridos no sistema capitalista ocidental. O problema atual que cerca os povos indígenas no Brasil e em específico, os povos isolados, resulta do contato intercultural forçado que retirou inúmeros povos indígenas de seu território original para inseri-los num novo modo de vida, baseado em padrões ocidentais, pautados essencialmente, em interesse econômico de âmbito nacional e global e que entende, o modo de vida dos povos indígenas como atrasados e enfadonhos. Foi por meio de contatos forçados, entre “índios e brancos” que as fronteiras do Brasil se delinearam e colocaram as diversas nações indígenas numa situação de estrangeiros na sua própria terra. Esta situação é oficializada, no artigo 231 da Constituição brasileira de 1988, quando garante aos povos indígenas somente a posse e o usufruto das terras que ocupam, enquanto, a União é dona do território. Há mais de 500 anos os povos indígenas lutam diariamente e incansavelmente pela posse, garantia e proteção de seu território. Essa luta, nunca parou, pelo contrário, hoje mais do que nunca, os povos indígenas têm se organizado para lutarem por um direito essencial que é a terra, porque, é a partir da conquista deste direito, que os povos indígenas lutam pela garantia de outros direitos básicos como saúde e educação. Afinal, como um povo indígena pode lutar pela implantação de uma escola em seu território se, esse povo não tem território demarcado?
Povo Guarani em protesto na Ponte Ayrton Senna, no último dia 25 de março. Crédito da foto. Paulina Martines. Fonte: CIMI – MA
Em apenas, quatro meses de governo, o atual presidente do Brasil fez com que os direitos dos povos indígenas retrocedessem mais de trinta anos. Incluindo, uma política de repressão e autoritarismo contra as mobilizações indígenas. Um exemplo disso, foi o que ocorreu no dia 25 de março deste ano com o povo Guarani que vivem no Paraná. Os Guarani foram impedidos de realizar uma manifestação em vias públicas no oeste do estado do Paraná. A interdição previa o recolhimento de crianças e jovens, mais, o pagamento de uma multa no valor de cinco mil reais por hora, além disso, poderiam ser presos em flagrante por crime de desobediência. Ora, esta ação não só é autoritária, como fere os direitos constitucionais de organização, mobilização, participação e livre expressão, etc., conquistados e garantidos aos povos indígenas na Constituição brasileira em vigor. Além do aumento da repressão contra os povos indígenas, o governo atual, tem criado uma série de medidas, excludentes, racistas, discriminatórias, que visam a negação e o desconhecimento e a expropriação dos direitos indígenas de seu território para serem ocupados por não indígenas e implantados projetos econômicos que não irão favorecer e nem melhorar a vida de nenhum povo.
Eu e o povo indígena Awá no anfiteatro do Centro de Criatividade Odylo Costa Filho em São Luís – MA no dia 19. 04. 2018. Fonte: arquivo pessoal.
No final do mês de março de 2019, a Fundação Nacional do Índio – Funai organizou a maior expedição dos últimos 20 anos para contatar um grupo indígena “isolado” na Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas. De acordo com informações da Funai e, de organizações indigenistas como ISA e de matérias veiculadas na imprensa nacional e internacional, o principal objetivo desta expedição da Funai foi evitar conflitos entre os Korubo do Coari e os Matis.
Os Matis foram contatados na década de 1970. Desde os primeiros contatos esse povo foi acometido por diversas epidemias que dizimou grupos inteiros e os sobreviventes se dispersaram na floresta. Devido inúmeras ameaças, violências e doenças que estavam sofrendo, deixaram-se contatar novamente pelos funcionários do posto da Funai localizado às margens do rio Ituí.
Os Matis foram contatados na década de 1970. Desde os primeiros contatos esse povo foi acometido por diversas epidemias que dizimou grupos inteiros e os sobreviventes se dispersaram na floresta. Devido inúmeras ameaças, violências e doenças que estavam sofrendo, deixaram-se contatar novamente pelos funcionários do posto da Funai localizado às margens do rio Ituí.
Os Korubo foram contatados pela Funai na década de 1990 e atualmente, há mais de 200 pessoas vivendo de modo isolado movimentando-se entre os rios Ituí, Coari e Branco.
Um grupo Korubo na Terra Indígena Vale do Javari. Fonte: ISA, 2019
Segundo a Funai a causa para o conflito entre os Korubo e os Matis diz respeito ao território. Os Korubo que vivem de modo isolado entendem que os Matis que vivem em torno do posto indígena da Funai são invasores de seu território.
Todo brasileiro que frequentou uma escola já deve ter ouvido falar, que guerras interétnicas sempre existiram no Brasil e em diversos países do mundo. Elas ocorrem por inúmeros fatores: cultura, crença, território, etc. No Brasil, essas guerras nunca causaram genocídio, e etnocídio de grupos inteiros.
Historicamente, povos indígenas isolados foram contatados quando o governos, empresários, ruralistas, banqueiros, etc., tinham interesse em ocupar o território desses povos. No caso do território habitado pelo povo Korubo, pelo povo Matis, mais os Kanamari, Tsohom Marubo, Matsés, Djapá, está localizado numa região em que governo atual, desde, o período de campanha tem incentivado, empresários e ruralistas a implantarem projetos econômicos e explorarem recursos naturais.
Nos primeiros meses de governo, o atual presidente, líder, de uma elite que desconhece a história do Brasil e da diversidade de povos com cultura, língua, modos de se organizarem e se relacionarem com a terra e entre si de modo específico e diferenciado. Entregou a proteção ao meio ambiente e o direito à terra dos povos indígenas e as organizações ambientais nas mãos de ruralistas e empresários. Tem enfraquecido as agências governamentais que supervisionam a proteção da Amazônia e dos povos indígenas. Em razão disso, as ameaças a vida dos povos indígenas tem se intensificado.
Quero lembrar que no Brasil nenhum povo indígena é dono de nenhuma terra que ocupa, são lhes assegurado apenas o direito a posse e usufruto. O dono de todas as Terras Indígenas no Brasil é o Estado brasileiro.
Assim, os Korubo, os Matis e outros povos indígenas que estão vivendo de modo isolado, estão diretamente ameaçados pela política etnocida do atual governo brasileiro. Que afirma descaradamente na mídia que no Brasil não existem povos indígenas. Insiste em executar uma política de unificação de mais de 300 nações indígenas que falam cerca de 274 línguas, numa única cultura. Isto é sem dúvida, um retrocesso para história do Brasil e dos direitos conquistados com muita luta dos povos indígenas desde a época a época da colônia.
Se você fizer uma pesquisa rápida no google sobre Terras Indígenas no Brasil irá descobrir que são as únicas regiões do Estado brasileiro menos desmatada e exploradas. As pesquisas afirmam que os povos indígenas são guardiões da terra e de tudo que nela habita. Para os povos indígenas e principalmente, para grupos indígenas que vivem de modo isolado a terra é o principal elemento que garanti sua sobrevivência física e cultural.
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Descrição da imagem: Primeiro contato dos Korubo com a Funai. A foto mostra Sidney Possuelo ex-sertanista da Funai e um guia matis que serviu de intérprete no primeiro contato pacífico com os Korubo. Fonte: ISA, 2020.Descrição da imagem: Um homem Matiscom zarabatana. Terra Indígena Vale do Javari. Amazonas, 1985. Fonte ISA, 2020.
Ain´t I a woman? Este
foi o refrão do discurso pronunciado por Sojourner Truth na convenção de
mulheres em Akron, Ohio. Foi o mais frequente slogan do movimento de mulheres
do século XIX. Truth denunciava que as mulheres brancas sofrem com o
patriarcado, mas, podem ser racistas e isso estava presente no discurso e nas
ações sufragistas. Enquanto as mulheres brancas lutavam pelo direito ao voto, a
condições dignas de trabalho, mulheres negras lutavam para serem consideradas
pessoas.
Quando decidi seguir
o conselho de uma amiga, feminista negra, para fazer uma leitura sobre o
pensamento e discurso de Sojourner Truth identifiquei-me plenamente, em
inúmeros aspectos. Descobri que inúmeras situações de violências e
discriminação que sofri ao longo dos anos não foram todas em razão da minha
deficiência, como pensei até hoje. Semelhante a Truth, eu luto nos dias de
hoje, para ser reconhecida enquanto mulher, com direitos e necessidades
específicas. A maioria das discriminações que sofri foi em razão disso. Compreendi
que, não sou parte de um grupo distinto de pessoas, mas, sim de grupos
sobrepostos. Minha deficiência, é um dos fatores pelos quais já vivenciei
inúmeras situações de discriminação e violência. Portanto, a deficiência não é
um elemento definidor da condição de vida de uma pessoa.
Angela Davis no livro
“Mulher raça e Classe” coloca o discurso de Sojourner Truth como uma
autentificação do pensamento interseccional. “Todas as pessoas sabem que têm tanto uma raça quanto um gênero, todas
sabem que têm experiências de intersecionalidade. (CRENSHAW, 2002, p. 09)”.
Sojourner Truth. Era
filha de “escravos”. Casou-se com o “escravo” Thomas aos 18 anos tendo com ele
5 filhos. Foi escravizada e fugiu em 1826, com sua filha recém-nascida. Deixando
os outros filhos. Um ano depois da sua fuga, foi aprovada Lei de emancipação do
Estado de Nova Iorque. Mas, a abolição só chegou 35 anos depois em todos os
estados do País. Sojoumer descobriu que seu filho do meio com 5 anos, fora
vendido ilegalmente como escravo e em 1828. Ela brigou na justiça para
recuperar seu filho e se tornou a primeira mulher negra a ganhar um caso contra
um homem branco nos Estados Unidos. Trabalhou como doméstica. Aprendeu a ler e
escrever, tornando-se uma grande estudiosa. Viajou como pregadora itinerante
contra injustiças e a favor da abolição da escravatura.
Tomei como referência
inicialmente o pensamento de Truth, e decidi, estudar para compreender como a
discriminação de gênero, classe, raça e deficiência operam juntas, com o
objetivo de intensificar as desigualdades de condições para mulheres cegas no
Brasil. Para isso, relatarei minhas experiências de vida, em diversos âmbitos
sociais. Essa pesquisa completa será publicada em breve na minha autobiografia.
Mas, antes disso, publicarei recortes dessa pesquisa aqui no blog.
Descrição da imagem: Símbolo do feminismo negro. Imagem com fundo azul e amarelo no centro da imagem tem um punho no meio do círculo. O punho erguido representa diversas lutas de esquerda e movimentos pelos direitos dos trabalhadores, mas ficou mundialmente conhecido como gesto do movimento negro. Do lado direito da imagem tem a frase Feminismo negro, escrita com letras amarelas e tem três linhas laranjas em cima e três linhas embaixo da frase.
Desde muito criança,
perguntava aos meus pais e ao meu avô qual era minha cor. Para meu pai eu era
preta da cor do pai dele. Para minha mãe eu era morena cor de canela igual a
mãe dela que era uma índia. Para meu avô eu não era nem uma coisa nem outra, eu
era morena jambo.
Assim, nunca assumi
uma identidade étnica e nem muito menos afirmei ter uma cor, porque, na
realidade não sei, aliás nunca soube. Quem começou com toda essa
“multi-identidade” na minha família foi meu avô materno. Ele nasceu em Juazeiro
munícipio do estado do Ceará, chegou ao Maranhão no final da década de 1940,
motivado por projetos de colonização dirigida da COLONE, em busca de terras
para plantar e criar pequenos animais. Foi um dos primeiros moradores do
município de Bom Jardim e um dos fundadores das Vinte, uma espécie de vila
localizada a 20 quilômetros da beira da BR 316. Segundo seus relatos, um dia
quando trabalhava na mata próximo do rio Maracaçumé, encontrou uma menina indígena,
supostamente uma Awá. O povo Awá, receberam a denominação de Awá-Guajá dos não indígenas
com quem estabeleceram os primeiros contatos. São o povo de contato mais recente
no Maranhão e, existem registros oficiais de que há cerca de sete grupos Awá
vivendo de modo isolado nas Terras Indígenas Awá, Alto Turiaçu, Caru e
Araribóia, todas no Maranhão.
Após, encontrar essa criança,
levou-a para sua casa e alguns anos depois os dois se casaram. Essa é a história
do casamento dos meus avós maternos. Por outro lado, meu pai, também cearense,
falava que eu tinha os cabelos e a pele quase tão escura quanto a do pai dele.
Por isso, não era índia não, minha cor mesmo é preta.
Quando realizei a
pesquisa os Awá e o mundo dos Karaiw, sobre os processos de contato entre os Awá e brasileiros, entrei numa intensa crise de
identidade étnica. Me sentia como uma indígena igual a minha avó, em outros
momentos, me definia como negra, mulher preta, principalmente, depois que
conheci e fiz amizades com mulheres negras feministas no curso de mestrado. Ao ouvir
o discurso delas sobre cor, etnia, raça, gênero e classe ficava encantada e
muitas vezes me senti tão negra quanto elas. Mas, é claro que nunca falei sobre
isso com elas.
Assim, sou indígena, porque tenho herança sanguínea e espiritual, sou também, preta, porque tenho herança sanguínea e espiritual. Agora, não me sinto na obrigação de me definir com uma identidade étnica, penso, que tal definição será construída a partir das minhas pesquisas e relações sociais.
Recentemente,
publiquei um artigo aqui no blog, com o título Deficiência tem gênero, classe e
raça? Nesse texto falo que descobri que pessoas com deficiência no Brasil tem
gênero, classe social, raça e região.
Durante muitos anos,
pensei que era apenas minha deficiência que definia todas as relações da minha
vida. Ainda na infância, ouvi que deficiência não era coisa boa, era uma
doença, herdada de muitas gerações, uma espécie de maldição de família. Quando
passei a discordar dessas afirmações, deram-me como louca, burra e abestalhada.
Castigaram-me com palavras e agressões para que eu fosse obediente e buscasse a
Deus para merecer sua misericórdia e ser curada de tal mal.
Até recentemente,
acreditei nessas histórias. Pensei que de fato existia algo errado comigo.
Acreditei que, todas as situações que sofri de violência e preconceito na minha
vida foram em razão da minha deficiência. Hoje tenho convicção que não foram.
Depois que escrevi os primeiros artigos para o projeto Resista como uma Mulher
Cega, intensifiquei uma pesquisa que havia iniciado em 2017, sobre violência
contra mulher cega no Brasil. Nessas pesquisas deparei-me com teorias e textos
escritos por mulheres feministas negras, nas quais mostram que a discriminação
vivenciada por mulheres negras não se refere apenas a raça, mas, ao gênero/raça
e ainda, gênero/raça/classe e a gênero/raça/classe/deficiência/idade.
Lembrei-me da minha
história para poder entender como estas categorias estão presentes na minha
vida. Afinal, a causa de todas discriminações e violências que sofri não resultaram
da minha deficiência?
Lembrei-me ainda, que
foi na idade adulta que descobri a causa da minha deficiência: glaucoma e mais
uma sequência de inflamações nos meus olhos que não foram tratadas quando eu
era criança. Na minha infância não fiz nenhuma consulta oftalmológica, no
povoado que eu morava não tinha médicos. Nossos tratamentos medicinais eram
todos feitos com ervas, banhos, benzimentos, alimentos naturais e preces. Minha mãe era trabalhadora rural e
não fez pré-natal, como as mulheres da cidade fazem quando estão grávidas.
Houve um tempo em que
a situação econômica na minha família piorou tanto que meu pai me ofereceu para
uma parente distante cuidar de mim. Foi assim, que assim, que saí da roça e fui
para a cidade grande, onde ao médico pela primeira vez. Não diagnosticou a
causa da minha baixa visão, mas, me receitou um óculo, que ganhei da dona da
casa que eu morava. Era um óculo de plástico cor de rosa e enorme, que não a
ver nada melhor. Mas, eu usava porque achava bonito. Por causa desse óculo,
todos da casa riam e faziam piadas
diariamente comigo, dizendo que o óculo ficava feio em mim porque não
combinava com a cor da minha pele. Uma pessoa dessa casa me dizia você até que
é bonitinha, tem o cabelo liso, parece índia, mas mesmo assim não use vermelho,
nem, lilás, nem rosa, essas cores não combinam com a cor da sua pele. Eu não
sabia o que era racismo. Nem muito menos que sofria. Na verdade, não sabia nem
qual era minha cor!
Outra situação que
vivenciava diariamente, era que os meninos da casa me xingavam e davam chutes
no meu bumbum. Eu nunca compreendi isso como violência de gênero. Afinal, nem
sabia o que significava gênero!
Todos os dias, ouvia
a dona da casa dizer, ninguém vai te aceitar, você é quase cega. Teu pai é
pobre demais e ainda tem teus irmãos pequenos. Você tem sorte de eu te aceitar aqui. Tem que comer
esse feijão… não reclame porque seu pai não tem nem isso para te oferecer.
Nunca compreendi que
essas falas expressavam a minha condição de classe naquela casa. A humilhação e
a discriminação sofrida por mim e meus pais pelo fato de não terem condições
econômicas de cuidarem dos próprios filhos.
Nessa época, não
entendi que as violências que sofria decorriam de uma sobreposição de grupos
que me definem enquanto pessoa, mulher, cega, preta, indígena e da roça.
ffffffffff
Durante muitos anos
minha deficiência foi um elemento definidor da minha identidade enquanto ser
humano, foi o principal fator que determinava todas as minhas ações e relações
na vida. Com esse pensamento iniciei uma pesquisa relacionada ao projeto
Resista como uma mulher cega, intensifiquei meus estudos relacionados a gênero
e deficiência no Brasil.
Diante de tantas
dificuldades em encontrar material bibliográfico acessível e de boa qualidade,
busquei ajuda de amigas feministas. Lembrei-me do discurso de uma amiga e
companheira de mestrado sobre o feminismo que envolvia gênero, raça e classe.
Como não tinha certeza, se devia ir por esse lado, para entender a situação da
mulher cega. Pesquisei dados oficiais. Descobri nos dados do IBGE 2010, que 23,
9% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. 18% da população tem
deficiência visual e 16% de pessoas com deficiência visual no Brasil são
mulheres de cor preta. A região brasileira que tem mais pessoas com deficiência
visual é a região Nordeste. Essas pessoas habitam predominantemente a zona
rural e periferias de capitais. São as
que possuem um baixo nível escolaridade.
Segundo dados da
Organização Mundial de Saúde 2018, a maior causa de cegueira é a catarata e o
glaucoma. Essas doenças podem ser evitadas e tratadas para não comprometer a
visão. Então, porque são essas as principais doenças que causam cegueira no
Brasil?
Segundo a ONU, são as
mulheres cegas e com deficiência intelectual que mais sofrem violência sexual
no mundo.
Diante desses dados,
concluí que, a população com deficiência no Brasil tem gênero, cor, região e
classe social. E claro, eu, estou inserida nesses números.
Mulheres com
deficiência visual, preta, pobre, nordestina, da roça, da periferia e
analfabetas ou semi-analfabetas, são as que menos tem acesso a saúde e a
políticas públicas. Por consequência disso, são as mais vulneráveis a
violências físicas e psicológicas e a exclusão social.
Como vocês podem
supor, não estou inserida nesses números oficiais como um todo. Saí da roça,
venci o analfabetismo, denunciei os que me violentaram, mas, como ninguém nunca
foi punido, continuo denunciando. Hoje não sofro mais com fome com a falta de
alimentos e nem de remédios. Tenho informação e poder de fala em alguns âmbitos
sociais. Então, porque você acha que estou falando sobre violência,
discriminação e exclusão contra mulher cega? Uma dica, é que eu tenho um
compromisso social e uma responsabilidade que é auxiliar outras pessoas a
saírem de situações de violência e contribuir para que meninas e mulheres com
deficiência visual, nunca sofram situações de violência e discriminação iguais
às que sofri.
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Domingo foi dia de ENXERGAR as coisas todas do mundo PELOS OLHOS DELA! Amo ser atriz, sou quem quiser ser, inclusive EU mesma. Em PELOS OLHOS DELA! Minha personagem SOU EU e EU SOU ELA.
Convite para o espetáculo PELOS OLHOS DELA!
Nesse domingo, a apresentação foi diferente, porque não fiquei nervosa no final. É sempre depois das apresentações que fico nervosa, imaginando o que irei ouvir do público. Um dos comentários que mais escuto é: sua vida deve ser muito difícil sendo cega. Meu Deus não posso imaginar como é a vida sem ver, se acontecesse comigo eu morreria. Tenho muito medo de um dia ficar cega!
Ao ouvir tais falas, meu coração doi e fica bem geladinho, fico em silêncio e sinto compaixão por quem fala tais asneiras. Outras vezes, sorrindo respondo: “a cegueira não mata não, apenas te faz diferente”. Minha vida é tão difícil quanto a sua e como a de qualquer pessoa, viver não é fácil para ninguém.
Mas, nada disso aconteceu domingo, porque eu esqueci que era CEGA, ouvi diversas falas e para todas minha primeira resposta foi: desculpem, esqueci de falar que sou CEGA! Claro que eu e o público sorrimos disso. Depois falei, amo ser Cega, porque a cegueira me faz mais inteligente do que vocês. Ser cega é uma prisão a menos na vida social de um ser humano. Vocês já repararam o quanto a visão escraviza? Tudo que passa diante da visão de vocês, vocês querem ler, querem ver e querem entender… vocês querem descobrir e racionalizar tudo pela visão. Se por acaso, vocês não conseguem entender as imagens nitidamente usam recursos ópticos, pedem ajudam e se desesperam. Vocês já pararam para pensar o quanto isso é triste? Tudo em nós fala… mesmo assim, vocês dependem tanto da visão. Enquanto, EU, utilizo todo meu corpo e o espirito para ver, entender, sentir e amar que esqueço que a visão existe. Como não vejo formas. Eu sinto, toco, ouço, converso com ela. Sinto sua energia e a respeito como algo que tem vida. Aliás, tudo que existe tem energia e tudo que tem energia tem vida! Quando quero, dou formas, cores, gostos e sentidos as coisas da vida. Vejo o mundo de forma alegre, zangada, triste, amarga, bela, salgada, de cor rosa e verde, leve e mágico!
Em 2012, tornei-me a
primeira mulher com deficiência visual a concluir um curso de Artes Plásticas na
Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Esse curso mudou de nomenclatura e
atualmente é Artes Visuais. Quando ingressei tinha baixa visão, não conseguia
controlar a pressão dos olhos e sofria com crises constantes de inflamação e catarata.
Estava perdendo visão gradativamente.
Imaginem uma pessoa
com deficiência visual numa aula de “desenho com modelo vivo”. Podem imaginar?…
No início das aulas professores e colegas de turma me falavam porque você não foi
fazer outro curso, talvez letras, história… talvez, você tenha dom para
escrever… etc. Às vezes, eu fingia que não ouvia, para não ter que responder
e ser chamada de ignorante. Ter inimigos na turma, sem dúvida, pioraria minha situação,
que já não era muito boa, naquele momento.
Em nenhum momento no
curso tive acessibilidade, fui reprovada numa disciplina de escultura, por não
conseguir trabalhar com réguas e compassos, quase reprovei numa disciplina de
pintura, por não conseguir diferenciar cores e não colocar o ponto de fuga de
modo perfeito durante uma prova. Com tudo isso, nunca consegui compreender
porque na universidade havia tantos obstáculos quando uma pessoa com
deficiência visual só queria estudar artes visuais. Viver, sentir e produzir arte,
sempre foi algo simples, prazeroso e natural para mim.
Fui alfabetizada através da Arte, por meio da
xilogravura foi que eu conheci as letras do alfabeto, aprendi a ler declamando
poesias e fazendo encenações, aprendi escrever desenhando na terra, aprendi a
contar através de música e versus, conheci o mundo por meio de desenhos,
pinturas e descrições de lugares e coisas em livros de poesias e histórias,
aprendi notas musicais através de uma sanfona e triângulo, nas vésperas do meu
avô fazer apresentações em barracões de forró, lá na roça que nós morávamos.
Para vencer situações
de exclusão que vivenciava, decidi “FALAR” que não enxergava e precisava de
ajuda, para todos os professores e professoras e colegas de turma e par quem se
aproximasse de mim. Foi nesse período,
que DESCOBRI QUE FALAR É UM ATO LIBERTADOR. Com isso, consegui algum@s apoiadores
(professores e colegas de turma) que me auxiliavam em momentos esporádicos.
Procurei fazer amizades com pessoas que trabalhavam na limpeza no prédio que eu
estudava, passei a pedir ajuda para elas, no caminho até a sala de aula e para
andar na universidade.
Dediquei-me a produzir desenhos expressivos, coloridos e contrastantes. No quinto período fiz minha primeira exposição no hall do Centro de Ciências Humanas – CCH na UFMA. O CCH, é um lugar que respira arte e cultura e onde se reúnem os maiores intelectuais da universidade. No CCH e no Centro histórico de São Luís, vendi pinturas, fiz performances, ministrei oficinas de desenho, pintura e xilogravura. Posso afirmar para vocês, que o vivi a energia desses espaços intensivamente!
Quando fiquei cega
total, continuei pintando e dediquei-me ao teatro. Atualmente sou a primeira
atriz cega do Maranhão, estou com espetáculo em cartaz, no qual sou a
protagonista na peça “PELOS OLHOS DELA!”.
Além da minha vida
nas Artes, tenho muitas outras vidas…. mas, isso, será assunto para o próximo
post!
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EU vestida com a beca da minha formatura em Artes Visuais ao lado do meu esposo – Wagner
EU ao lado de Dani- amiga e companheira de moradia na Casa feminina de Estudante na UFMAEu e Talitinha amiga e companheira de moradia na casa de estudante feminina da UFMAFamília, marido, primo, tia e primas no dia da minha colação de grau na UFMA
Em 25.02.2019 defendi minha pesquisa que realizei no curso de mestrado em Políticas Públicas no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Maranhão. Esse feito, tornou-me a primeira pessoa com deficiência a concluir uma pós-graduação nessa universidade.
Convite da minha defesa de dissertação
No entanto, o meu
percurso no curso não foi fácil, enfrentei diversas situações que não foram
boas, as quais me obrigaram estar em
constante situações de “prova”, a primeira delas foi que, precisava provar que
dava conta de concluir as disciplinas, que era eu mesma que fazia meus artigos,
que era eu mesma, que preparava meus slides para a apresentação de seminários.
Desde o início da minha
escolarização, soube que estar em sala de aula era participar de um jogo injusto e desigual, no
qual pessoas como eu, que precisam de condições específicas e diferenciadas
para disputar esse jogo em condição de “igualdade”, geralmente, são expulsas ou
simplesmente não vencem. Quando ingressei no curso de Políticas Públicas, tinha
plena convicção de que precisava criar meios para que pudesse concluir o curso
da mesma forma que ingressei com alegria e competência.
No decorrer das
aulas precisei estar em constante vigilância do meu comportamento no curso,
quando falava e me posicionava, contrária a perspectivas e ideologias
predominantes na sala de aula. Em relação a isso, sempre mostrei o porquê das
minhas opiniões, a primeira e mais importante se refere ao fato de eu não estar
em condições de produção igual a todos os demais. Meu processo de trabalho
intelectual é outro e sempre estar em processo de construção e reconstrução, de
experimentações e de criação. Pelo fato, de eu ser cega, por mais que eu não
queira, é sempre minha cegueira que define minha posição em determinado espaço
social. Em muitos momentos da minha vida escolar, tive a convicção de que por
ser mulher e com deficiência visual, precisava ser melhor dez vezes, apenas,
para ser aceita como mais uma agente participando do jogo acadêmico.
Determinada a
continuar e vencer o jogo, que no meu caso, seria defesa da dissertação e o título
de mestrado, criei minhas próprias estratégias, se os outros integrantes do
jogo, faziam anotações em sala de aula para facilitar sua compreensão, eu
gravava áudios no meu celular, explicando o que eu tinha entendido, se estava
muito barulho na sala, eu colocava um protetor de ouvido e direcionava minha
atenção apenas para um ponto.
Durante o processo
de escrita da dissertação não encontrei nas teorias metodológicas nenhuma técnica
e modo para fazer uma pesquisa que facilitasse meu processo. Nem tinha mesmo
como encontrar… não existe metodologia criada para o trabalho intelectual de
pessoas cegas!
Depois de muita
leitura e de ouvir sugestões da minha orientadora e do professor e da
professora que participaram da minha banca de qualificação de dissertação para
eu escrever na metodologia a maneira que eu estudava, comecei a criar e a fazer
minha própria metodologia de estudo e utilizar recursos e técnicas que
facilitassem minha leitura e escrita. Nesse processo, utilizei muitos
aplicativos de ledores de tela como o TalkBack, o @voice o NVDA, o Dos Vox e o
Narrador do Windows 10. Utilizei
gravadores e recursos da audiodescrição da Smar tTV. Fiz entrevistas por meio de
redes sociais. Criei mapas, categorias e histórias mentais sobre meu objeto de
estudo. Estabeleci uma relação de amor e cumplicidade com meu objeto de estudo
de modo que a escrita foi apenas a materialização de uma produção que estava na
minha mente, nas minhas lembranças e na minha alma.
Estou extremamente feliz e realizada por ter
conseguido defender minha dissertação de mestrado antes do prazo final, por ser
mulher cega e “mestra”, por não ser e ao mesmo tempo ser mais uma pessoa que
constitui o grande grupo das “minorias sociais” desse país a vencer um jogo de “maiorias”.
Estou feliz, porque em todos os momentos desse percurso houveram pessoas que me
apoiaram choraram e riram comigo.
O dia da minha defesa foi um grande dia! Um dia alegre e de agradecimento! Para mim, quando uma mulher cega ganha um título uma multidão ganha com ela. O meu título é meu… mas, é também dos Awá, do Wagner, de Beta, da tia Ana, da Barbara, de Rodrigo, de Mônica, de Bere a Berezinha, de Ângela, de Ivana, do Verck, de Priscilinha, e de muitas e muitas pessoas… Parabéns a tod@s nós! Finalmente, ganhamos o jogo!!! A pesquisa os Awá e o mundo dos karaiw é nossa.
Apresentação da dissertação com a ajuda de Bere – meu anjo da guarda durante o mestrado Da esquerda para direita, amigo de curso, professor Rodrigo (participou da minha banca de qualificação e defesa) Eu e Wagner, meu esposo.Alguns dos amig@ que foram para minha defesa
Existem algumas pessoas no mundo que são cegas, mas, que tem uma espécie de segunda visão, porque seu cérebro é capaz de perceber as coisas ao seu redor. Esse é um fenômeno raro e é considerado um mistério para a neurociência cognitiva.
A escocesa Milina Cunning é uma mulher cega que possui a segunda visão, isto faz com que ela, ande facilmente e sem bengala em lugares cheio de obstáculos. Fui investigar a vida de Milina para entender como é sua mobilidade no dia a dia, incrivelmente, encontrei inúmeras semelhanças entre EU e Ela no que se refere a percepção e compreensão do mundo. Tal como Milina, me movo sem problemas na minha casa, mesmo, quando ela está desorganizada, consigo me desviar de obstáculos inconscientemente, não os vejo, mas, sei que quando eles estão num determinado local. Se por acaso, você jogar um objeto na minha direção, rapidamente eu agarro, se por acaso esse objeto, for me machucar, eu agarro e jogo em você!
Em lugares que tenho familiaridade, caminho sem bengala e percebo a maneira em que estão dispostos a mobília, as pessoas, objetos, etc. Tenho uma excelente memória que faz eu criar sequências de mapas mentais quando recebo muitos tipos de informações diferentes. Converso com muitas pessoas ao mesmo tempo e as identifico pelo nome e pela voz, muitas vezes estando diante delas pela primeira vez. Além disso, pessoas que convivem comigo, diariamente, eu, posso reconhece-las até mesmo de uma certa distância, se por acaso estivermos num local público, com muito barulho e vozes diferentes, basta apenas, ela se aproximar de mim, que eu a identifico, isso acontece, porque eu “gravo” informações corporais dessas pessoas, como: o modo que andam, os movimentos corporais que fazem com mais frequência. Os movimentos corporais que fazemos, a meu ver, expressam nossa identidade enquanto pessoa e nenhum movimento corporal de uma pessoa é igual a de outra. O mesmo vale para o som que o nosso corpo produz, cada pessoa produz seu próprio som. São essas características que eu guardo das pessoas que amo e convivo diariamente. São elas que fazem eu reconhece-las quando estão no meio de uma “multidão”. Ao contrário do que uma amiga amada minha diz, eu não sou bruxa! Apenas, a sinto e conheço com todos os meus sentidos.
Milina durante uma entrevista à BBC, afirmou que enxerga alguns objetos, não pelos olhos, mas pelo cérebro. Isso, sim é um terceiro olho! É o que os pesquisadores chamam de visão cega. E o que eu apenas afirmo, meu cérebro não é cego! Claro que não!
No meu dia a dia, até mesmo quando estou dormindo, estimulo meu cérebro a criar e compreender diversas informações que recebo, através de pessoas videntes ou não, de redes sociais, meios de comunicação, livros, etc. Nesse processo, crio minhas próprias referências visuais, desenvolvo meios que facilitem minha compreensão de absolutamente tudo no mundo, minha convivência com as pessoas, meu comportamento social, minhas produções intelectuais: pesquisas, arte, etc.
Costumeiramente pessoas videntes (que enxergam) me perguntam se eu vejo tudo escuro ou se vejo tudo branco. Geralmente, são elas mesmas que respondem sua própria pergunta, dizendo você vê tudo preto né? Sei disso porque quando fecho meus olhos vejo tudo escuro. Bom, respiro… e respondo, não eu não vejo nada preto, mas, também, não vejo nada branco, branco e preto são cores e eu não vejo cores.
Minha cegueira não está relacionada a escuridão. Significa apenas, ausência de visão. Mesmo não vendo nada, percebo quando um espaço, objetos, etc., são claros ou escuro. Atualmente, descobri que a única cor que identifico como sendo clara é a cor amarela e a única cor que identifico como sendo escura é a cor preta. Isso quer dizer que eu não enxergo a cor amarela e nem a cor preta, mas, as sinto como claro e escuro.
Estou aprendendo identificar as cores a partir da sensação que elas me transmitem, isso acontece da seguinte maneira: quando vou comprar uma roupa, eu passo a mão várias vezes em cima dela na direção da minha visão, para que eu possa sentir a “energia” da cor e perceber algum foco de luz, já fiz esse processo algumas vezes, e descobri que as cores que identifico são a amarela e a preta. A cor amarela me transmite uma forte energia, através dela percebo pequenas nuances de luz , que me faz sentir bem, alegre e positiva. Quando estou diante da cor preta, não percebo nenhuma claridade. Essa cor me causa um certo desconforto e as vezes um sentimento de solidão.
Utilizo essas duas cores no blog, em razão do contraste de significado que elas suscitam em mim e por serem as únicas cores que identifico facilmente.
Atualmente, estou experimentando possibilidades com as quais eu possa identificar e utilizar mais cores no meu dia a dia, quando conseguir irei contar aqui!
Entrada do Público para assistir e participar do espetáculo: PELOS OLHOS DELA! O público está com os olhos vendados sendo guiados um dos integrantes do elenco. Entrada do Público para assistir e participar do espetáculo: PELOS OLHOS DELA! O público está com os olhos vendados sendo guiados um dos integrantes do elenco. O público entrando para o início do espetáculo: PELOS OLHOS DELA! Entrada do Público para assistir e participar do espetáculo: PELOS OLHOS DELA! O público está com os olhos vendados sendo guiados um dos integrantes do elenco. Entrada do Público para assistir e participar do espetáculo: PELOS OLHOS DELA! O público está com os olhos vendados sendo guiados um dos integrantes do elenco. Entrada do Público para assistir e participar do espetáculo: PELOS OLHOS DELA! O público está com os olhos vendados sendo guiados um dos integrantes do elenco. Entrada do Público para assistir e participar do espetáculo: PELOS OLHOS DELA! O público está com os olhos vendados sendo guiados um dos integrantes do elenco. Entrada do Público para assistir e participar do espetáculo: PELOS OLHOS DELA! O público está com os olhos vendados sendo guiados um dos integrantes do elenco. Entrada do Público para assistir e participar do espetáculo: PELOS OLHOS DELA! O público está com os olhos vendados sendo guiados um dos integrantes do elenco. Início do espetáculo: PELOS OLHOS DELA!
SINTAM… TOQUEM E VEJA O MUNDO DE DIVERSAS FORMAS….
Desde muito criança, incomodava-me ao ouvir mulheres falarem, é isso mesmo. Todo homem é assim. É o gênio deles. Etc. Aí, eu respondia, se todos são assim, então nunca irei me casar. Por causa, das minhas respostas sempre apanhei muito de mulheres, minha mãe, minhas tias, minha avó, as vizinhas, as senhorinhas da igreja, todas me davam cascudo na cabeça, para que eu tomasse juízo e aprendesse a ser uma moça comportada. Um dia, ganhei uma taca tão grande, mas, tão grande que pensei pela primeira vez sobre qual motivo eu apanhava tanto. Descobri que na relação entre eu e ela, era ela a maior vítima . Não tinha como ela agir diferente, ela se sentia na obrigação de me guiar para o caminho certo e se não aprendesse devia ser castigada para se tornar mulher com bons modos, carinhosa e obediente. Então, eu apanhava muito porque meu comportamento era “torto”. Falava em ser livre, namorar, viajar, talvez filhos, quem sabe trabalhar com arte… ou viver num navio…. Ela me falava, continua lavando a louça que daí você não passa… talvez se você tiver sorte case com um soldado da PM ou quem sabe um vendedor. Esse é o melhor futuro que uma moça pobre como você e ainda por cima sem enxergar direito pode ter. Será? Nesse momento entendi, porque muitas mulheres são violentas e machistas com outras mulheres. Desde sempre, mulheres que falam o pensam, dão gargalhadas, sonham e fazem todas suas escolhas na vida são ameaçadas, criticadas e julgadas por outras mulheres que por algum motivo não são “livres” de pensamentos e de escolhas. Hoje descobri que não me tornei feminista, mas, nasci feminista, porque sempre tive o pensamento, o coração livre e uma alma leve. EU SOU FEMINISTA! Porque o SER não é o TORNAR. Se eu casei… viajei o mundo… tive filhos… virei dona de casa… morei num navio…em breve direi aqui.
Descrição da imagem: símbolo do feminismo contemporâneo, consiste numa imagem com fundo azul e uma mancha de tinta amarela no centro com as frases Lute como uma Garota (Fight Like a Girl, em inglês) e “Não É Não” em letras vermelhas, Entre uma frase e outra exista o desenho de uma folha azul com o contorno vermelho. Fonte: azmina, 2020.
Palestra no Ministério Público sobre violência doméstica contra a mulher com deficiência, São Luís – MA Palestra com o tema: violência doméstica contra a mulher com deficiência Zeneide Cordeiro apresentando a camiseta branca do projeto RESISTA COMO UMA MULHER CEGA! As primeiras camisetas foram doações e vieram com um erro gramatical, ao invés de escrever a palavra uma, escreveram um. Mas, isso não tira o verdadeiro objetivo do projeto.
A palavra que define a pré-estreia de PELOS OLHOS DELA é INCRÍVELLLL! Senti um furacão se emoções… não pensei em nada, apenas senti. De tão mergulhada que estava no personagem, dormi em êxtase. Agradeço a Deus e ao universo pela oportunidade de ser atriz, por ser feliz e por VER as coisas de diversas formas! Por entender o sol, a chuva, o vento, os animais, as plantas, as coisas e as pessoas da maneira que eu escolher, por pinta-los da cor que eu quiser e sobretudo, por senti-los por completo! Vejo tudo o que seus olhos não podem ver, sei que é por isso que te assusto.
Pré-estreia de Pelos Olhos Dela. O público com os olhos vendados com uma faixa preta, entrando no espetáculo . Pré-estreia de Pelos Olhos Dela. O público com os olhos vendados com uma faixa preta, entrando no espetáculo Da esquerda para direita Tatá Pacheco (direção), Zeneide Cordeiro (Atriz) Leda Lima (produção))Elenco da peça PELOS PLHOS DELA! Pré-estreia de Pelos Olhos Dela. O público com os olhos vendados com uma faixa preta, entrando no espetáculoEntrevista de Zeneide Cordeiro sobre a peça PELOS OLHOS DELA!Na esquerda Tatá Pacheco (direção), no centro Zeneide Cordeiro (protagonista) na direita Carlos C, P. Santos (dramaturgia)Amigas e esposo no dia da pré-estreia de PELOS OLHOS DELA!Cartaz com fundo preto e letras brancas com o nome da peça PELOS OLHOS DELA! No centro tem a atriz Zeneide Cordeiro com os olhos vendados com uma faixa preta
Olá convido tod@s para assistir a peça teatral PELOS OLHOS DELA Esta peça tem um discurso filosófico, social e político sobre a cegueira. Trata-se de um Espetáculo Teatral sem cenário, sem iluminação cênica, sem figurino específico, sem maquiagem. Sem nenhum visagismo. Um espetáculo cênico-sensorial, Teatro Inclusivo. Escrita pelo poeta, ator, cantor, Diretor, psicopedagogo, escritor e dramaturgo Carlos Correia Santos, a peça “Pelos Olhos Dela” é um convite ao público para mergulhar no universo da cegueira. A montagem teve sua primeira temporada em Belém em junho de 2015 e comoveu o público, gerando muitos elogios e grande repercussão. A grande razão para o impacto da montagem junto aos espectadores está no fato de que o desafio dramatúrgico da peça não fica apenas nas mãos do elenco. É compartilhado de forma inclusiva, com o público. Quem decide assistir a experimentação precisa concordar em ficar os quarenta minutos da encenação completamente vendado e descalço. O espectador tem os olhos cobertos na ante-sala do espaço de apresentação e a partir deste momento, é literalmente conduzido para o universo do espetáculo. A atriz e diretora Tatá Pacheco, da Oficina de Interpretação SLZ que na época participou do projeto Cena-Especial, um projeto coordenado pelo dramaturgo, está remontando esse espetáculo em São Luís através da Oficina de Interpretação SLZ, como resultado da turma de teatro da escola. Nesta remontagem, eles convidaram a atriz com deficiência visual, Zeneide Cordeiro, que será a protagonista do espetáculo. Falamos da deficiência visual, sobre o universo da cegueira e não podemos falar por eles. Porque se é sobre eles, não pode ser sem eles. O Projeto “Mãos à Obra do SESC é um projeto de Acessibilidade Cultural promovendo momentos de diálogos e reflexões sobre o tema. O espetáculo será o encerramento da Oficina Criação Poética Sensorial, ministrada pelo Carlos Correia Santos.
A imagem do convite é minha foto com olhos vendados.
#paratodosverem : Sobre o fundo preto, uma atriz de olhos vendados. Ao lado esquerdo, logotipo da Oficina de Interpretação SLZ em cores branca, preta e vermelho. Logo abaixo, o nome do espetáculo: Pelos Olhos Dela em letras tamanho grande, na cor branca. Embaixo o convite ao público para assistir o espetáculo de olhos vendados na cor branca também. Do lado direito, informações sobre dia, horário e local. 21 de março, às 18h00 no SESC em cores brancas. Finalizando com a logotipo do projeto Mãos à Obra com desenho da palma de uma mão com um olho no centro. Mais ao lado da mão, título do Projeto Mãos à Obra em fonte rústica.
Criei este site em janeiro de 2019 para ser um dos meus lugares de fala enquanto mulher cega, artista, professora, palestrante e ativista dos direitos humanos. Aqui publico diversos textos, principalmente, relatos de experiência, monólogos teatrais, crônicas, palestras, produções científicas e comentários.
Descrição: imagem com fundo amarelo e a frase “resista como uma mulher cega! com letras pretas
Descrição: mulher negra com cabelos lisos e pretos em cima do ombro. Veste uma camiseta preta e usa óculos escuros. Sua bengala está apoiada numa parede branca no seu lado esquerdo
Nunca ouvi tanto a palavra superação como ouvi esta semana, isto porque, recentemente, defendi minha dissertação de mestrado na Universidade Federal do Maranhão e decidi publicar umas fotos no Instagram, além disso, criei este blog, para publicar meus textos. Resolvi usar as redes sociais para divulgar minhas palestras, minhas pesquisas e a inauguração da minha nova peça de teatro, que ainda, irei escrever aqui sobre ela. Hoje, recebi um E-mail, de uma pessoa que estudou comigo na graduação, nós não éramos amigas, mas também, não éramos inimigas. A mensagem dizia, “parabéns pela sua conquista no mestrado e feliz aniversário, você é um exemplo de superação!”. Aparentemente, é apenas uma mensagem de felicitação. Nada demais nisso não é?
No entanto, para eu não foi, essa mensagem me deixou triste e revoltada, o problema era ainda maior, porque eu não sabia o motivo. Fiz a leitura da mesma mensagem muitas vezes com a intenção de descobrir o que me incomodava tanto, não foi a pessoa que me enviou, nem o objetivo da mensagem… Descobri que não gostava era da palavra superação, na verdade, lembrei que nunca gostei dessa palavra, desde criança quando o significado dessa palavra mudou de sentido, primeiro ouvia meus familiares dizer: “essa menina é um exemplo de superação, nasceu tão pequenina e fraquinha e agora tá aí forte, ela é uma menina porreta”! Meu pai enchia o peito e dizia: minha filha tem só um probleminha nos olhos, mas é sabida como que só ela! Meu pai falava isso porque tinha orgulho de mim, e eu sentia felicidade em ouvir essas palavras.
No entanto, deixei de gostar desse tipo de frase quando frequentei a escola. Logo, no primeiro dia de aula da minha vida, fui apresentada como uma criança doentinha com problemas nos olhos, daí em diante, passei a ouvir das professores e professores, dos colegas de turma, dos vizinhos, familiares, etc., o quanto eu tinha que me esforçar, precisa superar… Foi assim, que descobri que a palavra superação significava que eu tinha um problema. Era diferente…
Depois que fiquei cega total, o que eu mais ouvia era, você precisa aprender a superar sua doença, tem que superar os problemas, etc, etc… etc…! Essa palavra em muitos momentos negou minhas bandeiras de luta e militância, me bestializou, me excluiu, prejudicou meu empoderamento feminino, me endeusou, disse que sou especial, criou e cria adjetivos e mais que possam me definir.
Hoje, concluí que odeio tanto esta palavra, porque ela sempre me foi direcionada como um adjetivo, que acentua a minha condição de desigualdade em qualquer meio que eu me encontre. Esta palavra sempre caracterizou minha deficiência como um problema ou uma doença. Em muitos momentos, ela fez eu pensar que não tinha gênero, identidade étnica, identidade sexual, opinião política, gostos…
Odeio tanto esta palavra, porque quando eu chego num lugar para ministrar uma palestra, as pessoas se assustam quando percebem que eu sou cega. Assustadas me falam em tom de caridade e raramente de admiração, que exemplo de superação você é!
Odeio e odeio esta palavra, porque todos os meus dias de estudo, pesquisa, trabalho e dedicação são vistos como realizados por uma espécie de ser, sabe se lá qual. Só sei que não é igual a um ser humano capaz de desenvolver-se intelectual, social e politicamente como qualquer outro.
Odeio tanta, mas, tanto essa palavra, porque só existem dois tipos de pessoa que a pronuncia as que são por algum motivo são desinformadas e aquelas que carregam interiormente o sentimento de preconceito e que as vezes, mesmo quando não querem, expressam seu preconceito.
Resumindo, odeio essa palavra, porque ela mudou de significado, deixou de expressar amor, orgulho e cuidado, para significar discriminação, intolerância, medo, dor, tristeza e violência.
15 de março de 1985, bem de manhãzinha, nasceu uma menina,
tão pequenina, mas, tão pequenina, que cabia na palma da mão do seu pai. A vila
em que nasceu tinha em torno de onze casas de taipa, afastadas cerca de três a
quatro quilômetros uma da outra, numa estrada estreita, que no mês de março era
úmida e rodeada de mato. Após o parto, o pai foi na casa de cada um dos
vizinhos avisar que sua filha tinha nascido, mas, era tão fraquinha que tinha
medo que não se criasse. Por isso, toda a vizinhança, se organizou para fazer
correntes de orações, rezas, preces, banhos de ervas e para visitar a nova
moradora da região, uns levaram farinha, arroz torrado, jerimum, macaxeira, melão,
outros levaram carnes e capão para que fosse feito pirão para a parida. Havia
uma crença de que o pirão era o alimento mais forte e saudável que uma mulher
parida podia comer, além disso, era ele que fazia a mulher produzir muito leite
forte. Foi assim que eu nasci, cercada por muitas pessoas que me agraciaram com
presente, mimos e muitas rezas e orações.
O INÍCIO DE TUDO
Com alguns meses depois do meu nascimento, meus pais
perceberam que havia algo de diferente em mim. Eu não respondia os estímulos visuais
que eles faziam, por isso, chamaram um curandeiro para que pudesse me benzer,
talvez eu pudesse estar vendo alguma alma penada. Mesmo após o benzimentos, meu
comportamento era o mesmo e permaneceu assim, até que outro curandeiro dissesse
que eu não enxergava. Depois disso, minha família procurou uma série de
tratamentos alternativos, isso, porque no interior que eu morava não existia hospital,
posto de saúde e muito menos médico. Minha família e a vizinhança tinham
certeza que eu não chegaria nem aos cinco anos, de tão pequenina e fraca que
era. Ainda com poucos meses de nascida, meus pais me levavam para a roça,
quando cheguei na idade de ir para a escola, não fui, porque a escola era em
outra vila e tinha alunos de todas as idades, para os meus pais isso seria
muito perigoso para mim e mesmo assim eu não teria como acompanhar as aulas.
Então, meu pai e meu avó decidiram estudar, para aprender a ler, escrever e
contar para em seguida me alfabetizar em casa. Com oito anos de idade eu já
sabia ler, escrever, sabia toda a cartilha do ABC e a tabuada decorada. Além
disso, decorava em poucos minutos um cordel. Devido ao meu desempenho, fui
matriculada na escola, no início a professora reclamou para meus pais que eu
era desobediente e que queria saber do conteúdo das aulas mais do que ela. Por
causa dessa reclamação fui repreendida em casa, peguei a minha primeira taca de
cipó de goiaba que a meu ver é o que mais dói. Não fui criada para ser uma
mulher que falasse por se mesma. Talvez por ironia do destino ou por eu ter
conhecido pessoas certas e na hora certa, eu contrariei todas as expectativas
sobre o futuro que eu podia ter, sendo uma menina, pobre, cega e maranhense.
UMA COMO MUITAS DE OUTRAS MENINAS POBRES DO INTERIOR DO MARANHÃO SE NÃO FOSSE UMA MENINA CEGA!
Perdi meus pais ainda na infância, logo em seguida perdi
meus avós. Com a morte dos meus pais fui morar na cidade grande na casa de uma
conhecida da família que dizia que ia me colocar para estudar e me criar como
filha, chegando lá, ela me colocou num canto e apontando o dedo indicador no
meu rosto, disse irei lhe falar as regras da casa e como você deve se
comportar, primeiro, nunca me responda, segundo faça o que eu mandar, pois quem
manda nessa casa sou eu, nada de trazer colegas suas para dentro da minha casa,
coma apenas o que eu disser que é para comer, nunca pegue em nada sem pedir,
faça o que os meninos pedir, seja o lanche ou passar uma roupa e etc, etc,
foram mais de uma hora de recomendações e obrigações que eu deveria fazer.
Enfim, eu tinha obrigação de tanta coisa que nunca entendi, o porque, afinal,
eu seria criada como filha, não é? Então, porque eu seria a babá dos “meninos”
e a escrava doméstica da casa. Na mesma semana, compreendi que eu não era como
membro da família e decidi não viver naquela vida para sempre. Mas, também, não
tinha como ir embora, os parentes que eu tinha eram tão pobres, que o fato de
eu estar num lugar que me oferecesse comida e uma rede, mesmo que furada para
dormir já era muita coisa.
COMO ENCONTRAR UMA
SAÍDA?
Enquanto a estudar? Eu estudava a noite, numa turma só de
adultos. Pelo fato de eu ser a aluna mais nova, os colegas de turma, as
professoras e professores tinham muito carinho por mim, alguns me davam até
lanche. Depois de um tempo comecei a falar da situação de violência e opressão
que eu vivia. Foi nesse período, que eu percebi que havia três saídas para a
situação que eu vivia, a primeira era ser prostituta, então, comecei a
investigar como era a vida das prostitutas, descobri que elas, viviam numa
situação de vulnerabilidade e violência tão quanto eu, se eu fosse por esse
caminho continuaria sendo explorada e violentada. A segunda ser traficante,
mas, logo percebi que essa também não dava, porque poderia me tornar uma viciada,
presa ou morta e eu não queria isso para meu futuro, afinal eu queria ser livre,
educada, feliz e quem sabe eu seria rica, dona de um apartamento de frente para
o mar. A terceira seria estudar, mas, isso parecia ser tão difícil e demorado
que eu chegava até me arrepiar, mas pelo menos, era mais seguro. Nesta opção eu
não corria o risco de ser mostra, violentada diariamente e ainda poderia ser
livre e rica! Então, decidi estudar! Por mais que estivesse cansada e
desesperada eu estudava, quando as donas da casa saiam, eu pegava os livros de
seus filhos e estudava. Chegou uma época, que eu sabia o conteúdo do livro de
cada um. Quando terminei o ensino médio, fiz a prova do vestibular da UFMA, na
casa em que eu morava, todos acharam que seria jogar dinheiro fora, porque uma
pessoa como eu jamais entraria na universidade, afinal eu era quase cega, burra,
retardada e alienada. No entanto, fiz a prova e o resultado foi a minha
aprovação em sétimo lugar. A dona da casa me disse o que iria mudar, já que
agora eu ia fazer universidade, primeiro antes de ir para a aula eu devia
deixar o café pronto, lavar as louças e varrer a porta da rua, quando eu
chegasse fazia as outras coisas. Estas seriam as condições para eu continuar
morando na casa dela e para ela me dar a passagem para ir para a universidade.
Nesse momento, não aguentei, então eu disse, não irei precisar morar aqui, irei
embora em breve. Procurei uma amiga da escola e contei o que estava
acontecendo, ela me ofereceu sua casa para que eu morasse por um tempo. No dia
seguinte, saí da casa em que vivi por quase vinte anos e onde sofri todo tipo
de violência e discriminação. Naquele momento senti, um alívio e a sensação de
um novo nascimento.
CONTRARIANDO O
DESTINO
Na universidade, me destaquei logo no primeiro semestre,
devido a facilidade de compreender informações rápidas, conheci militantes,
lideranças de movimentos sociais e consegui uma vaga para morar na casa feminina
de estudante e ainda adquiri uma bolsa auxílio. Ainda no primeiro semestre,
entrei para um projeto de pesquisa e extensão. Quando concluí a graduação, consegui
logo um trabalho na área, depois fui aprovada em dois concursos público um
seguido do outro, fiz cursos de especialização e ingressei num dos programas de
pós-graduação mais concorridos e cobiçados do Brasil.
Eu, participando de uma mesa redonda na Universidade Federal do Maranhão sobre a acessibilidade. Falei sobre acessibilidade e direitos humanos.
Hoje, sou uma mulher cega, pós-graduada, pesquisadora,
escritora, atriz de teatro, palestrante e ativista dos direitos humanos. Ainda
não sou rica, mas quem sabe daqui a alguns anos né?
Hoje, assim como no dia que eu nasci, continuo rodeada de pessoas que eu amo e que tornam meus dias mais alegres, produtivo e com a certeza que sempre há uma saída para toda e qualquer situação de violência e que todos nós nascemos para vencer!
Descrição da imagem: minha foto em preto e branco. Estou usando um óculos escuro, tenho cabelos curtos, em cima do ombro, preto e liso, visto uma camiseta com a frase “resista como uma mulher cega”. Estou segurando minha bengala com a mão esquerda.
Um assunto que está em pauta em todos os meios de comunicação atualmente é a reforma da previdência. De tanto, ouvir comecei a me questionar sobre o meu próprio futuro, será se um dia irei me aposentar? Vou ter que trabalhar até morrer? Vou viver de doações pelo resto da vida? Etc, etc. Busquei informações para entender um pouco sobre a reforma da previdência para as pessoas com deficiência e em específico para as mulheres com deficiência.
Eu na mobilização do dia das Mulheres em Salvador – BA, contra a reforma da previdência e a favor da garantia dos direitos da mulheres a seguridade social, equidade de gênero, a saúde, ao trabalho, a educação a liberdade de expressão e sobretudo pelo direito a VIDA!
De acordo com dados do IBGE 45,6
milhões de pessoas no Brasil declararam ter pelo menos um tipo de deficiência,
menos de um terço dessas pessoas ingressam no mercado de trabalho.
A previdência só oferece uma série de
benefícios para aquelas pessoas que
pagam mensalmente ou trimestralmente para o INSS. No meu caso, e no caso de
pessoas como eu, isso é uma tarefa muito difícil de ser cumprida, devido,
inúmeras dificuldades para o ingresso no mercado de trabalho por diversas
razões como baixa escolaridade, discriminação, assedio, e principalmente, por
falta de acessibilidade.
Como
fica a situação de pessoas com deficiência (como eu) que não estão inseridas no
mercado de trabalho e não contribuem para o INSS?
Para as mulheres com deficiência esta
situação ainda é mais grave, no Brasil segundo dados do IBGE existem 25,8 de
mulheres com deficiência.
As mulheres com deficiência têm maior
dificuldade de ingressar no mercado de trabalho do que os homens com
deficiência. Segundo o IBGE, a proporção é de 56,4% para os homens e 43,1% para
as mulheres. São as mulheres também, quem tem maior dificuldade de concluir um
curso de graduação e pós-graduação. Mesmo em casos, em que as mulheres com
deficiência têm boa formação escolar, continuam tendo dificuldades de ingressar
no mercado de trabalho e ter uma carreira profissional.
Eu tenho muita dificuldade de encontrar
trabalho pelo fato de eu ter um grau de deficiência considerada grave pela
lista do INSS, sou cega, mas, tenho um alto grau de escolaridade (graduação e
pós-graduação), além de conhecimentos avançados de informática e tecnologia e
noções básicas de línguas estrangeiras. Geralmente, as vagas reservadas para as
pessoas com deficiência são em cargos de subemprego e com baixa escolaridade e
baixos salários. Outro motivo também, são as preferências dos empresários em
contratar pessoas com grau de deficiência leve. No caso da deficiência visual,
preferem contratar uma pessoa com visão monocular ou com baixa visão do que uma
pessoa cega.
Como é a aposentadoria para pessoas com
deficiência?
A atual proposta da reforma da
previdência modifica as regras na aposentadoria e de outros benefícios da
seguridade social para as pessoas com deficiência. Atualmente está em vigor a
Lei complementar nº. 142/2013, que regulamenta a aposentadoria dos segurados
com deficiência do Regime Geral de Previdência Social – RGPS,
em consonância com o artigo 201 da Constituição Federal de 1988.
Segundo a Constituição de 88 é vetada a
adoção de critérios diferenciados para a concessão de aposentadorias aos
beneficiários do RGPS, com exceção dos segurados que exercem atividades que são
prejudiciais à saúde ou integridade física, e das pessoas com deficiência. Pelas regras atuais, são previstas
4 situações diferenciadas para a solicitação da aposentadoria especial aos
segurados com deficiência:
1.para deficiência grave, após 25 anos de tempo de
contribuição para homens e 20 anos para mulheres, com 100% do valor do
benefício.
2. para deficiência moderada, após 29 anos de tempo
de contribuição para homens e 24 anos para mulheres, com 100% do valor do
benefício.
3. para deficiência leve, após 33 anos de
tempo de contribuição para homens e 28 anos para mulheres, com 100% do valor do
benefício.
4.aposentadoria por idade, aos 60 anos de idade
para os homens e 55 anos para as mulheres, independentemente do grau de
deficiência e tempo mínimo de 15 anos de contribuição com a deficiência
comprovada. O benefício corresponde a 70%, mais 1% para cada ano de
contribuição, até alcançar 100% do valor.
O
que é aposentadoria por invalidez?
A aposentadoria por invalidez é um
benefício concedido ao trabalhador que é acometido por doença grave ou acidente
que o incapacite para exercer um trabalho. O benefício é concedido após a
solicitação de auxílio doença e perícia médica do INSS. O valor é de 100% e não
há exigências de idade mínima para seu requerimento. É necessários apenas 12
meses de contribuição e em caso de acidentes ou de moléstias listadas pelo INSS.
O
que é o BPC?
O pagamento do Benefício de Prestação
Continuada – BPC, atualmente, recebem pessoas idosas e com deficiência a partir
de 65 anos de baia renda.
O
que vai mudar com a reforma?
A proposta do governo federal é de que a
reforma da previdência seja feita por meio de Emenda Constitucional, assim, a
lei complementar deixará de valer.
Um ponto muito importante que mudará é
o fim dos graus de deficiência.
O
que muda no BPC?
O BPC é o único benefício do governo
federal destinado as pessoas com deficiência que possibilita a garantia de
condições mínimas de sobrevivência e autonomia, apesar, de um rigoroso controle
e fiscalização de orçamento.
Pelas regras atuais, o trabalhador que fica
incapacitado de trabalhar por qualquer motivo tem direito a benefício
equivalente à 100% da média do salário de contribuição, limitado pelo teto. Com
a reforma, apenas os que tiverem sofrido acidente de trabalho terão direito a
benefício integral. Os demais, terão 51% do valor do benefício com mais 1% por
ano de contribuição.
Como fica o tempo mínimo para o direito ao benefício integral?
O benefício integral para o tempo mínimo de
contribuição, previsto na Lei Complementar nº 142 de 2013 para os casos de
deficiência grave, moderada ou leve, deixará de existir, porque, com as regras
atuais o valor será calculado pela regra comum do RGPS.
Instituição da idade mínima
Idade mínima de 65 anos tanto para
homens quanto para mulheres. No mínimo 25 anos de
contribuição. O valor é diferenciado conforme o tempo de contribuição.
Corresponderá a 51% da média dos salários de contribuição, acrescidos de 1
ponto percentual desta média para cada ano de contribuição do trabalhador, até
o limite de 100%. O trabalhador com 65 anos de idade e 25 anos de tempo de
contribuição terá a aposentadoria igual a 76% do seu salário de contribuição.
Mudanças no valor do benefício para aposentadoria por idade
A reforma da Previdência eleva de 15
para 20 anos o tempo de contribuição mínimo para a aposentadoria por idade das
pessoas com deficiência. Atualmente a média salarial de pessoas com deficiência
é de 85% do valor do salário. Com a reforma, a média do benefício passaria a 71%
com cinco anos a mais de contribuição.
Modificações nas regras para aposentadoria
por invalidez
A regra atual faz a média de salários
descartando 20% dos salários menores, elevando o valor do benefício. Já com a
reforma, o valor será obtido pela média de todas as contribuições, sem tirar os
20% menores salários.
E as mulheres com deficiência como ficam?
Eu na mobilização das mulheres no dia 08.03.2019 em Salvador – BA, contra a reforma da previdência e em defesa ao direito a vida, a autonomia, a diversidade e igualdade de direitos e deveres da mulher.
Com a reforma da previdência o
governo federal desempara um grupo de pessoas que historicamente são as mais
vulneráveis da sociedade brasileira. Caso esta reforma seja aprovada as
mulheres com deficiência terão maior de dificuldade em se aposentarem e de
conseguirem o BPC. Isto, irá provocar um aumento na desigualdade social, na
qual a mulher com deficiência ficará mais vulneral a violências e excluídas
socialmente.
De acordo com dados da ONU as
mulheres com deficiência sofrem mais violências físicas e psicológicas do que
os homens com deficiência, além disso, são as que têm maior taxa de
mortalidade, seja por doenças, acidentes ou violências. Para nós, mulheres com
deficiência a reforma da previdência proposta pelo governo Bolsonaro, significa
a instituição e oficialização de uma política de segregação, excludente e de massacre
aos direitos e a vida.
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Passei quase dois anos economizando
dinheiro para passar o Carnaval em Salvador – BA. Durante os preparativos para
a viagem, ocorreu algumas situações que me chatearam no momento da compra dos
ingressos para os camarotes e do bloco que eu queria sair, não foi vendida a
meia entrada para pessoas com deficiência, não consegui resolver essa situação
por telefone e como estava com medo de ficar sem ingresso resolvi comprar a
inteira.
No dia 26.02.2019, embarquei ansiosa rumo a festa mais famosa e democrática do Brasil. Primeiramente fui para uma cidadezinha na Bahia e depois, finalmente cheguei em Salvador. Logo, na minha chegada tive uma decepção, a falta de gentileza e de acessibilidade no Novo Hotel, um hotel que fica localizado no bairro Rio Vermelho e que eu iria ficar durante todo o período de carnaval.
Camarote Planeta Band – Primeiro dia de carnaval
Meu primeiro dia de carnaval foi tenso, logo na entrada eu perguntei para diversos seguranças do camarote e para bombeiros civis, onde ficava a área reservada para pessoas com deficiência e todos disseram que não sabiam. Depois a coordenação do camarote me falou que tinha uma área reservada e que eu perguntasse para os seguranças, novamente, saiu eu e meu esposo em busca da tal área reservada.
Encontramos uma área que tinha sinalização de área reservada PCD, mas, o segurança do camarote disse que as pessoas com deficiência não podiam entrar, porque, aquela era uma área reservada para convidados. Cerca de três horas depois, consegui ficar numa parte da área reservada. Na imagem abaixo eu estou encostada num canto da área reservada para pessoas com deficiência.
Depois de muito brigar por acessibilidade no camarote Planeta Band, os organizadores me colocaram neste local, sem nenhuma área delimitada e segurança
Bloco Eva – Segundo dia de carnaval
No bloco Eva, em determinados momentos os próprios seguranças do bloco e a polícia eram quem provocavam violências para os foliões. O pior de tudo é que ninguém conseguia falar com a coordenação e nem com ninguém da organização do Bloco.
Camarote Premier – Terceiro dia de carnaval
Sem dúvidas essa foi a pior e a mais
traumática situação de vulnerabilidade que eu já sofri numa festa, além disso,
meu acompanhante (companheiro e esposo) foi diretamente ameaçado, correndo o
risco de ser morto.
A primeira situação aconteceu quando eu
fui ao banheiro preferencial, como o banheiro estava ocupado, por uma pessoa
sem deficiência, fiquei na porta esperando. Esta pessoa não gostou muito da
minha presença ali e ao sair jogou cerveja no chão, mesmo assim, entrei no
banheiro. O vaso ficava na frente de uma ralo de esgoto aberto, eu ao procurar
um lugar para apoiar minha bengala, a ponta caiu no esgoto. Procurei a
coordenação do camarote e relatei o ocorrido, aproveitei também, para falar
sobre a área reservada para pessoas com deficiência, que estava lotada de
pessoas sem deficiência, relatei o fato de um segurança ir me derrubando, ao me
empurrar pensando que eu estava na frente de propósito e que a minha bengala
era uma fantasia de carnaval.
A segunda situação ocorreu quando a
coordenadora do camarote me levou com um segurança para a área reservada para
pessoas com deficiência. No tempo em que ela ficou comigo e o segurança, tudo
ficou bem, mas, depois que ela saiu, para chamar meu esposo que estava
esperando eu voltar do banheiro, um casal me empurrou e ficou no meu lugar e eu
disse, essa é a área de pessoas com deficiência. A mulher me falou que não ia
sair de forma alguma, eu que procurasse outra área. Quando meu esposo chegou a
situação piorou, o companheiro dessa senhora, queria realmente brigar com ele.
Ficou muito revoltado e acabou saindo, mas, sempre que podia, procurava se
aproximar do meu esposo para empurrá-lo.
Terceira situação: decidi sair da área
reservada e procurar outro lugar, porque estava vendo a hora do meu esposo
sofrer agressões físicas. Quando estava em pé em frente o camarote, uma mulher
me empurrou e me tirou do lugar que eu estava dizendo que ela precisava ver e
como eu não via, que deixasse ela ver. Eu reclamei, disse que aquele era meu
lugar. A situação piorou quando as pessoas com quem ela estava perceberam eu
reclamando e o meu esposo perto. Daí se aproximaram e começaram a me empurrar
sempre que podiam, topavam na minha bengala e situação de ameaça a agressão
física contra meu esposo aumentou. Chamei o segurança do camarote, mas, no
momento que ele saiu, as ameaças continuaram. Foi nesse momento que nós
decidimos deixar o camarote.
Todos são iguais perante a lei. Será?
O artigo 5º da Constituição Federal
brasileira afirma que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade […].
Tenho dúvidas se realmente todos são
iguais perante a LEI. Afinal, como posso me considerar igual a todas as
pessoas, se o próprio o Estado acentua situações de desigualdades no meu dia a
dia, quando simplesmente não oferece condições de acessibilidade que proporcione
a garantia de DIGNIDADE e de outros princípios fundamentais que prevê a Constituição, para que eu, enquanto MULHER CEGA, possa ter
direito a VIDA.
É responsabilidade do Estado criar
condições para que as pessoas com deficiência que enfrentam diariamente situações
desiguais consigam atingir os mesmos objetivos e participação na sociedade da
qual fazem parte.
O Carnaval é para MULHER CEGA SIM!
Apesar da Constituição afirmar que
todos são iguais, posso dizer que não sou. Minha identidade de mulher cega, me
coloca num grupo muito específico, constituído por pessoas que historicamente
tem direitos básicos negados e sofrem com todos tipos de discriminação e
violência.
Tenho deficiência visual desde a
infância e sempre gostei de festas e principalmente do carnaval, por acreditar
que é uma festa alegre e democrática, que se juntam pessoas de diferentes
condições, identidades, gêneros, religião, etc., para um único fim, brincar
muito, beber, celebrar a vida e etc, etc…
Minha deficiência nunca me impediu de
realizar meus sonhos, de participar ativamente da sociedade e de ser feliz.
As minhas experiências no circuito de
carnaval em Salvador não foram das melhores. Fui impedida em diversos momentos
de brincar o carnaval, por falta de segurança e acessibilidade. Por outro lado,
brinquei muito nos blocos de rua no Pelourinho, fiz amizades e ainda participei
da manifestação do dia das mulheres. Foi uma experiência incrível.
A negação de um direito
As pessoas com deficiência precisam
estar cientes de seus direitos e compreender que a acessibilidade é um direito
humano, indispensável para a continuidade da vida e participação social. O
Estado é o promotor dos direitos individuais e sociais e faz isso com a criação
de legislações e políticas públicas de inclusão.
Acessibilidade é essencialmente um
direito humano!
Porque falar de acessibilidade?
Desde a Constituição Federal de 1988 se
fala da acessibilidade como um direito básico para a vida em sociedade da
pessoa com deficiência. A falta de acessibilidade tira um direito básico, o de
ir e vir. Historicamente, esse é um direito que as pessoas com deficiência não
têm na prática. Pessoas cegas, como eu, sempre foram vistas com tabu e
discriminação pela sociedade. Muitas vezes, em situação de miséria, pedindo
esmolas, andando sujas e famintas, as mulheres eram violentadas de inúmeras
maneiras e não podiam fazer nada, porque nem mesmo podia identificar o
agressor, quando mulheres cegas buscavam a ter um mínimo de autonomia, eram
vistas como bruxas e feiticeiras, despertando o medo ou a misericórdia dos
ditos “normais”.
Falar de acessibilidade é importante
porque no Brasil existem 45 milhões de pessoas com deficiência, segundo o IBGE.
Esse número equivale a 24% da população brasileira. Não falar de
acessibilidade, significa contribuir para a continuidade da inclusão e da
discriminação dessas pessoas.
Lembre-se, garantir o direito das
pessoas com deficiência e a sua participação na sociedade é um dever de toda a
sociedade, da família e do Estado.
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Eu, assim como todas as mulheres com deficiência do Brasil, sou uma sobrevivente. A sociedade não está e nem nunca esteve preparada para nos receber, não temos acessibilidade para nos locomover com autonomia e segurança, sites, meios de comunicação, teatros, museus e eventos artísticos não são acessíveis para nós, nosso processo de escolarização é dolorido e excludente, tentam nos proibir de amar e ser amada, sempre tentaram nos isolar socialmente, nossa participação política sempre foi limitada, o nosso aceso a saúde, educação e ao lazer é um caminho estreito e cheio de obstáculos.
Desde minha infância, enquanto menina com deficiência visual, aprendi a RESISTIR, às vezes, quando tropeçava em algum obstáculo por falta de acessibilidade arquitetônica, atitudinal ou comunicacional ou simplesmente, quando era vítima de um estúpido preconceito o, eu, levantava a cabeça e sorria, é claro que algumas vezes eu gritava um palavrão, mas, no final, eu sempre sorria e seguia em frente, porque, sorrir e seguir em frente é resistir.
Primeiramente, resisti a inúmeros tipos de preconceitos e violência para me tornar mulher e poder relatar minhas experiências, minhas conquistas e mostrar que continuo resistindo. Ser mulher no Brasil não é fácil, mas, ser mulher cega, preta, indígena, da roça e nordestina é um ato de resistência!