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resista como uma mulher cega! Sobre nós

Resista como uma mulher cega!

Apresentação:

Resista Como uma Mulher Cega é um projeto sem fins lucrativos iniciado em janeiro de 2019 com o objetivo de defender direitos sociais individuais e coletivos, através da disponibilização de informações e pesquisas de modo gratuito e acessível a partir do “olhar reflexivo” de uma mulher cega que trabalha como pesquisadora, arte-educadora, atriz, palestrante escritora e ativista dos direitos humanos.

Ficou interessado em conhecer as ações e atividades do resista como uma mulher cega? Entre em contato conosco e agende uma palestra, uma formação, ou uma oficina pelo E-mail: resistacomoumamulhercega@gmail.com ou acesse nossa página no Twitter, no facebook, no Tumblr ou no Instagram.

Seja um apoiador (a) do resista como uma mulher cega divulgando nosso trabalho nas suas redes sociais e em seus sites! Deixe seu comentário nos post! Dê sugestões, elogios e críticas!

Nosso trabalho:

Realizamos palestras, oficinas, formações continuadas de modo continuo (durante todo o ano, incluindo finais de semanas e feriados) para educadores, gestores, estudantes, em empresas, associações, movimentos sociais e políticos, igrejas, centros culturais e artisticos sobre acessibilidade, direitos humanos, arte e inclusão, direitos das pessoas com deficiência, democracia e cidadania, educação inclusiva, artes plásticas e pessoas com deficiência e teatro inclusivo.

Justificativa:

O projeto Resista Com o uma Mulher Cega, surgiu a partir da reflexão sobre a história de vida de Zeneide Cordeiro, mulher cega, que nasceu num ambiente familiar de grande vulnerabilidade social e econômica. Desde sua infância sofreu inúmeras situações de violência e discriminação, muitas destas, em decorrência da sua deficiência visual, mas, em todas essas situações, “resistiu” e buscou apoio através da educação para que pudesse fugir e combater a violência social, econômica e de gênero que sofreu. Atualmente, esta mulher, atua em diferentes espaços sociais: universidade, movimentos sociais, arte, cultura, familiar, etc. É mestra em Políticas Públicas, pesquisadora, arte-educadora, atriz, professora, pesquisadora, escritora, artista plástica e ativista dos direitos humanos.

Objetivo geral:

Defender direitos sociais, individuais e coletivos.

Objetivos específicos:

Contribuir para redução da exclusão social por meio de informação e conhecimento.

Trabalhar no combate e a todo tipo de discriminação e violência.

Público alvo:

Pessoas de diferentes identidades étnica e de gênero, com deficiência e sem deficiência, sem restrição de faixa etária de idade, que residam no Maranhão e no restante do Brasil e que estejam em situação de vulnerabilidade social e violência.

Ideologia:

O Resista Como uma Mulher Cega acredita que informação e conhecimento são elementos indispensáveis para romper diversos tipos de violências, discriminação, homofobia, racismo, desigualdade de gênero e exclusão social. Em razão disso, trabalha com palestras, oficinas, formações e debates, em comunidades, associações de bairro, movimentos sociais, universidades, escolas, empresas públicas e privadas. Participa de eventos, mobilizações e intervenções acadêmicas, artísticas e sociais em âmbito nacional.

Curiosidades sobre Zeneide Cordeiro a idealizadora do projeto

Atualmente, é a primeira pessoa com deficiência a concluir um curso de mestrado na Universidade Federal do Maranhão, foi a primeira mulher com deficiência a concluir o curso de graduação em Artes Visuais, nesta mesma universidade, é também, a única pesquisadora cega indigenista do Maranhão é a única atriz e arte-educadora cega do Maranhão. Trabalha como professora na rede de ensino estadual do Maranhão. Divulga suas pesquisas atuais, textos, palestras e oficinas no site e nas redes sociais do projeto, nas suas redes sociais porque, acredita na democratização da informação e do conhecimento. Além disso, publica anualmente diversos artigos em revistas cientificas.

Minha foto usando uma camiseta amarela com a frase resista como uma mulher cega em letras pretas. Uso óculos escuros. Tenho cabelos curtos, em cima do ombro, pretos e lisos. Seguro minha bengala de alumínio com a mão esquerda

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Curiosidades e entretenimento

Quem compreende os sons percebe a vida?

Lembro que uma das coisas que mais gostava na minha infância era ficar debaixo de uma árvore sozinha e em silêncio para ouvir diversos tipos de sons (vozes, ruídos, canto de pássaros, animais rastejando, o som das folhas das árvores, o som das verduras dos canteiros, dos animais no curral, de objetos, de pessoas e principalmente de me ouvir. Sim, isso mesmo, me ouvir. Ouvir meus batimentos cardíacos, minha pulsação, ouvir os movimentos do meu corpo, ouvir minha voz…

Inicialmente, pode parecer uma tarefa fácil, mas, garanto que não é. Em todo o mundo pouquíssimas pessoas conseguem se ouvir, são incapazes de reconhecer a própria voz e não conseguem ter nenhuma consciência dos movimentos do próprio corpo. Essas pessoas desconhecem completamente que seu corpo fala e que fala a verdade mais pura que pode existir dentro de um ser humano, ou seja, aquela verdade que não é possível falar através das palavras.

Desde criança necessitei ouvir infinidades de sons para aprender andar, falar, comer, conhecer pessoas, coisas, a natureza e principalmente, para me localizar nos espaços. No meu caso, aprender a ouvir sons, foi essencialmente, uma estratégia de sobrevivência, embora, não fosse realizada de modo consciente como faço hoje. Atualmente, tenho a maturidade para poder escolher tipos de sons que quero ouvir e entender, isso acontece quando acredito que tal som pode ampliar meu repertório sonoro e facilitar minha sobrevivência num mundo vidente. Existem outros sons ouço apenas, por um instante, isso se dá somente, quando julgo esse som dispensável no meu dia a dia, sem muita importância.

Meu corpo sempre foi um ponto de referência para meu conhecimento e mobilidade no mundo. Geralmente, a aproximação de uma pessoa falando é o suficiente para eu saber sua altura, peso, características físicas e de personalidade, batimentos cardíacos e pulsações. Irei perceber seus gestos com rapidez para poder me comunicar e me relacionar com esta pessoa num mesmo espaço.

Ah! Não pense, que pelo fato de eu perceber características físicas das pessoas com facilidade significa que as reconhecerei sempre. Digamos que fui dá uma palestra no seu local de trabalho ou de estudo e conheci você alguns minutos antes do início da palestra, conversamos sobre diversos assuntos e até trocamos contatos. Depois de uma ou duas semanas nos encontramos e iniciamos uma conversa, mas, você não se identifica, afinal, você acredita que eu lembro de você, porque, conversamos alguns dias atrás. Sendo assim, não existe motivo para uma nova apresentação, não é? Bom, seu pensamento tem sentido lógico, só que apenas para quem é vidente. Sua obrigação é independentemente do que aconteça quando você chegar próximo de uma pessoa cega diga quem você é. Isso é sobretudo, um recurso de acessibilidade comunicacional, social e atitudinal e ajuda a prevenir diversos contratempos.

No caso do exemplo que acabei de citar, provavelmente e por mais prazeroso que tenha sido nosso primeiro encontro não irei reconhecer você. A explicação para esta situação está relacionada com o ambiente/espaço em que nos conhecemos.

Quando vou ministrar palestra, oficinas, participar de eventos ou viajar, sempre estou atenta para tudo o que acontece ao meu redor. O tempo em que ficarei neste ambiente, irei perceber e conhece inúmeros objetos, características do espaço e uma infinidade de pessoas através da voz e dos movimentos do corpo, só que esta minha percepção é momentânea, acontece apenas quando estou nestes locais, faço isso, simplesmente para ter uma maior autonomia e mobilidade e raramente, irei adquiri conhecimento duradouro.

Portanto, caso eu conheça alguém nesse ambiente, raramente irei reconhecer depois, mas, isso não quer dizer que esquecerei por completo, pois, acredito que cada som é único, e diz respeito a algo específico no mundo.

Para mim, o som mostra a identidade e a essência de tudo é a verdade pura de tudo o que existe no universo. Acredito, que quem percebe os sons, percebe a vida. Perceber os sons, não significa ouvir com a audição, significa sentir a vibração das coisas num determinado espaço para se situar e compreender o mundo.

Os sons são antes de qualquer coisa conhecimento individual puro, adquirido por meio de exercícios de autopercepção sonora realizada sempre no momento presente, exige esforço, rapidez e malicia, isso, porque, os sons nunca se repetem. Duvida disso? Então faça o seguinte: escolha um som para você ouvir hoje, pode ser da chuva, das folhas, de uma rua, etc. Se preferir use um gravador para registrar seu som.

Ouça o mesmo som amanhã, se preferir grave. Depois compare os dois sons. Percebeu a diferença? Digamos que você ouviu o som de uma rua, dois dias seguidos no mesmo horário, mesmo assim, eles são totalmente diferentes, além disso, a sensação que você sentiu ao estar diante desses sons foram diferentes e o modo como você se relacionou com eles também.

O som é como o tempo, nunca se repete, além disso, é único e efêmero.

Descrição da imagem: Minha foto interpretando a personagem Fada Chefe, no espetáculo Deu a louca nos contos de fadas, direção: Tatá Pacheco, produção do Palco Centro de Arte. Estou no centro do palco do teatro Alcione Nazaré em São Luís – MA. Tenho cabelos curtos, pretos e lisos. Uso um vestido verde, asas de fada verde, brincos laranja e seguro na mão direita uma varinha de fada verde com uma estrela amarela na ponta

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Curiosidades e entretenimento

Quem vê e quem anda na direção contrária no mundo vidente?

Vivi durante toda minha infância na roça, diariamente eu e meus irmãos tínhamos uma série de trabalhos para fazer que se iniciavam mais ou menos umas cinco horas, primeiro íamos tirar leite da teta da vaca no curral, depois pegávamos frutas caídas no quintal ou colhíamos diretamente no pé, depois tínhamos que puxar água no poço para tomar banho e finalmente tomávamos café para irmos para a escola. Aliais, foi na escola que descobri que era uma pessoa com deficiência visual, mas, não fazia ideia do que isso significava, pois, nem meus familiares e nem os moradores do povoado que eu morava comentavam nada sobre minha deficiência, até uns sete anos de idade pensei que o mundo era da forma que eu olhava.

Ouvi apenas uma única vez uma vizinha me chamando de doentinha, foi num dia quando meu irmão e um amigo estava apostando uma corrida, cujas regras eram, pegar um porco no chiqueiro, subir no lombo dele e depois puxar o rabo para que ele saísse correndo em direção a cerca, o que chegasse primeiro ganharia a corrida. Quando percebi a brincadeira dos meninos, imediatamente, quis participar, enquanto os meninos me explicavam as regras do jogo ouvi a voz de uma vizinha dizendo “menina sai daí tu não pode brincar disso não, tu não sabe que tu é doentinha”.

Respondi zangada que eu não estava doente e que tinha até tomado remédio de verme naquela semana. Ouvi ela reclamar muito, mas, fingi que não ouvi e continue tentando tirar meu porco de corrida do chiqueiro, até que a vizinha foi onde eu estava, me puxou pelo braço com muita força e me levou para casa, onde contou para meu pai o que eu estava prestes a fazer, convicta de que eu ganharia uma surra de lascar. Meu pai ao ouvir as queixas da vizinha sobre mim, disse: “tô muito ocupado agora para ir assistir corrida de porco, mas, se você não ganhar a corrida dos meninos vai se ver comigo”. A vizinha saiu da porta da minha casa xingando e excomungando eu e meu pai. Fui para minha corrida sossegada.

Logo que subi no lombo do meu porco o danado correu disparado em zig e zag, passando por cima de ripas e galhos e batendo em tronco de árvores, uma verdadeira aventura! Cai e levantei umas dezenas de vezes rapidamente, nesse tempo, ainda não havia conhecido o medo e a insegurança. Nesse dia ganhei três corridas e o prêmio foi os meninos puxarem um balde d’água para meu banho nos finais de tarde durante três dias seguidos.

Aprendi a viver no escuro sem medo, fazendo e brincando de tudo o igual a toda criança da roça, subi em árvores, armei arapucas para pegar lambu, roubei ninhos de periquitos e manga da vizinha, tomei muito banho de igarapé, corri, gritei, chorei, briguei e aos domingos de manhã vestia minha saia branca de pregas, calçava meias de renda para ir à igreja tocar flauta e antes mesmo do culto começar eu já queria que ele terminasse para comer bolinhos de arroz com suco de murici.

Acredito que devido a infância que tive nos dias de hoje costumo esquecer que sou cega, as vezes, só percebo que estou andando sem bengala quando topo em alguém, num objeto ou o pior quando ouço buzinas e barulhos de carros e motos, até ontem, pensei que minha mobilidade estava ruim, porque, não estava percebendo buracos, desníveis no chão e nem aproximação de pessoas e animais, mas, hoje descobri que não é a minha mobilidade que está ruim, é o mundo que está barulhento demais, o chão tem desníveis demais, as ruas e os espaços têm pessoas, coisas, animais, demais.

Por isso, hoje, não aposto mais corridas de porco, não pulo mais cercas para roubar manga, não corro pelas ruas e não ando de bicicleta, primeiro porque, não tenho mais porcos, ruas seguras, cercas e mangueiras, só me restou uma bicicleta de cestinha enferrujada que está mais de dez anos guardada no bicicletário do condomínio que moro. Sem dúvidas o mundo atualmente se tornou mais vidente e, portanto, mais perigoso para pessoas como eu.

O mundo está lotado, entulhado e acelerado que parece que todas as pessoas que vivem nele andam na mesma direção, no mesmo compasso a ponto de não perceberem que a qualquer momento pode vir alguém na direção contrária percebendo as coisas diferente, ouvindo para poder sentir, ver e encontrar sua própria direção no mundo ou melhor para construir um mundo novo. Ah! Não pense que sou uma pessoa que vive no passado. Tenho apenas lembranças e conhecimentos acumulados que contribuíram e contribuem para minha sobrevivência num mundo vidente.

Algum dia você imaginou como uma criança com deficiência visual da roça brinca?  Consegues imaginar uma criança com deficiência apostando corrida de porco, andando de jumento, subindo em mangueira, pescando, jogando bola, tirando leite de vaca, alimentando cabras e porcos, plantando legumes, colecionando álbuns de figurinha, pilando arroz, jogando videogame e assistindo televisão? Consegues?

Se você é uma daquelas pessoas que dizem que se ficassem cega morreria, que não consegue viver sem a sua visão, que se faltar energia elétrica na sua casa você não consegue comer e se duvidar nem consegue usar o papel higiênico no local certo, você vive num mundo extremamente limitado, moldado e estereotipado. Você é incapaz de pensar que existe inúmeras formas de ver e de viver, que para algumas pessoas existem diversos mundos infinitos, instáveis e não visíveis e provavelmente, você seja uma das pessoas que topam sem querer, naquelas pessoas que andam em direção contrária.

Ah! Tudo bem! Você topou em alguém mas pediu desculpas não foi? A tua pressa te deixou perceber que mudaste a noção de espaço daquela que anda na direção contrária? Percebestes que um dos olhos dela está na mão e que pode ter sido quebrado? E agora quem realmente está na direção contrária? Afinal, quem é a cega?

Por favor não pense que estou fazendo julgamentos contra os videntes, não tenho a capacidade de julgar algo distante e que não conheço. Mas, me diga o que você ver?

Descrição da imagem: essa foto foi tirada durante a apresentação do espetáculo Deu a louca nos contos de fadas no dia 31 de janeiro de 2020, no teatro Alcione Nazaré, com a direção da Tatá Pacheco e produção do Palco Centro de Arte. Minha personagem é uma fada chefe que é vidente. O figurino é um vestido verde e asas de fada verde, bota marrom e na mão direita seguro uma varinha de cristal.
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Metodologia cega

CONSTRUIR E RECONSTRUIR MINHAS TRILHAS

Este é o quinto post da série “Metodologia cega”, meu objetivo nesta série foi relatar experiências que vivenciei e mostrar algumas “estratégias de resistência que criei para permanecer e concluir meu  curso de mestrado em Políticas Públicas, após ter perdido a visão total.

Penso que estes relatos podem estimular pessoas que estão passando por situações que precisam readaptar seu estilo de vida para continuarem vivendo de forma “plena” na sociedade, com pelo menos um mínimo de autonomia e segurança.

Enfatizo aqui que todo meu processo metodológico de estudo e pesquisa ocorreram a partir da compreensão de pontos de vista diversos, incluindo, minhas experiências e compreensões empírica, enquanto pessoa com deficiência visual, as quais, construí socialmente e historicamente e são constituídas por elementos repletos de fantasia, crenças e misticismo, que conduziram e conduzem minha vida nos dias de hoje.

Minha cegueira possibilitou meu ingresso em um mundo novo que para viver é preciso eu estar em constante processo de construção e reconstrução de formas, técnicas, recursos, crenças, rompimento de barreiras, estereótipos, medos, angústias, dor, alegrias, espaços, pessoas e seres humanos e não humanos.

Hoje tenho um sonho e um só desejo, que é que todas as pessoas cegas possam construir e reconstruir suas trilhas de conhecimento nos meandros da “escuridão”, que deixem o mundo “vidente” assombrado diante da perspectiva de um novo mundo, um mundo inclusivo e sem julgamentos de aparência.

Quando você quiser e puder leia os post 1 – 2 – 3 e 4 da série metodologia cega!

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Metodologia cega

METODOLOGIA CEGA

Este é o quarto post sobre “metodologia cega”, onde irei relatar o processo de construção de uma metodologia inclusiva.

Como afirmei no post anterior, quando fiquei cega direcionei meu foco para coisas simples como aprender tarefas manuais cotidianas (cozinhar, cuidar de uma horta, etc.), a segunda foi elaborar minha dissertação.

Dediquei-me em pesquisar formas que facilitassem a escrita da minha pesquisa, mas não encontrei nenhuma referência que indicasse técnicas ou metodologias de pesquisa específicas para serem utilizadas por pesquisadores cegos. Enfrentei um dilema, sobre como fazer minha dissertação sem perder o rigor científico e ao mesmo tempo sem ter condições práticas totalmente acessíveis de leitura e escrita.

Os leitores de tela não reconhecem imagens, alguns formatos de documentos, gráficos, palavras e, além disso, tinha muitas dificuldades para formatar um documento, inserir citações, notas, referências, tabelas, corrigir palavras e localizar algum conteúdo no texto. Com isso, percebi que necessitava encontrar minha própria forma de leitura e escrita.

Lembrei-me que fui alfabetizada de forma oral através de meus familiares. Foi somente, depois de alguns anos que ingressei numa escola multiseriada em Maranhãozinho. Nessa época, em razão da minha pouca visão, não conseguia relacionar os sons das palavras com sua forma escrita, por isso, demorei aprender a escrever.

Foram essas lembranças e experiências que acumulei ao longo da minha vida, que facilitaram meu processo de alfabetização e conhecimento do mundo, que tomei como a principal referência para desenvolver uma metodologia que facilitasse a realização da minha pesquisa.

Utilizei formas que desenvolvi para me localizar nos espaços, mobilidade, memorização de inúmeros sons, formas, espaços, gostos, cheiros e sensações, etc. Busquei experimentar inúmeros recursos de acessibilidade para pessoas cegas: aplicativos leitores de tela e gravadores de som.

No decorrer da minha pesquisa, e desde o processo de construção do objeto, estive em constante processo de “construção e reconstrução” (BOURDIEU, CHAMBOREDON, 1999, p. 25) de técnicas e utilização de recursos. Tomei como perspectiva teórica-metodológica a noção de “objetivação participante”, desenvolvida por Bourdieu. Utilizei diversos recursos tecnológicos simultaneamente (gravadores, computadores, celulares, aplicativos, etc).

Por diversas razões (tempo escasso, limitações da deficiência visual e financeiras) não fiz pesquisa de campo diretamente com os Awá e nem com moradores que participaram de levas migratórias para o território desse povo.

Entretanto, fiz diversas entrevistas por meio de telefone, E-mails e redes sociais. Os relatos que ouvi através de recursos tecnológicos e redes sociais foram extremamente importante, sendo fontes de informação e conhecimento a partir de experiências pessoais de vida individual e coletiva, nas quais eu estava inserida em diversos momentos.

Com isso revivi emoções, sensações, medos, histórias e curiosidades da minha infância, que provocavam lembranças de informações sobre meu objeto de estudo. Em alguns momentos, sentia-me em baixo das mangueiras ouvindo o som das folhas balançadas pelo vento, ouvia as gaitadas demoradas, minhas e dos meus irmãos, enquanto corríamos nos caminhos estreitos e lameados das Vinte, o revoar das curicas, o canto dos periquitos no beiral do nosso alpendre, o cheiro das ervas usadas pela minha avó durante a preparação de banhos. Sentia a energia de muitos e muitos benzimentos que recebi, o cheiro da minha rede, do arroz pilado, do cuscuz feito no prato, dos sucos de murici…

O momento da escrita da dissertação foi como se eu estivesse conectada com o mundo espiritual, no qual minhas mãos passaram a ser guiadas por seres celestes e, minha ausência de visão não teve mais importância.

Meu passado e o meu presente se encontraram e os conhecimentos que adquiri a partir de crenças, misticismo, relações sociais e com a natureza desde minha infância, foram o ponto de partida para compreender conhecimentos científicos pautados em teorias e técnicas metodológicas.

Quando estava realizando a pesquisa os Awá e o mundo dos Karaiw compreendi minha deficiência visual como um elemento definidor da minha identidade. Essa compreensão foi essencial para meus posicionamentos políticos, sociais e intelectuais na universidade. Definiu e traçou o percurso da minha investigação científica e do meu “lugar de fala” no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas- PPGPP

Recentemente percebi que minha vida foi e é direcionada por uma série de elementos e a minha deficiência é apenas um deles. Além, disso, entendo que  minha deficiência não é a única responsável por definir minha vida e, portanto, minha identidade, embora, socialmente, seja minha deficiência um elemento de destaque, pelo qual me identifico, individualmente.

Assim, a elaboração da minha dissertação se deu a partir de uma metodologia construída a partir de fundamentos teóricos metodológicos, mas, sobretudo, a partir de experiências e conhecimentos que adquiri enquanto pessoa cega.

Considero este processo como uma metodologia cega, por ter sido criada e executada por uma pesquisadora cega e por ser possível utilizá-la com o uso de recursos e estratégias desenvolvidas e utilizadas por pessoas cegas no seu cotidiano.

Neste processo, o visível não tem lugar, os pensamentos, ideias, crenças, conceitos, práticas e estereótipos pré-construídos e historicamente definidos são postos em questão continuadamente. É necessário constante experimentação e uma invenção permanente que se adeque a condição do agente que pesquisa para só assim, realizar a pesquisa.

A elaboração de toda minha pesquisa ocorreu simultaneamente, isto é, não fiz por partes ou capítulos. Depois que todo o conteúdo foi escrito, organizei com o auxílio da minha orientadora as partes, elementos pré-textuais, pós-textuais. Na minha cegueira, pude tornar visíveis fragmentos dos contatos dos Awá com os brasileiros.

Descrição da imagem: Convite para a defesa pública da dissertação “Os Awá e o mundo dos Karaí”, com fundo amarelo e letras pretas, no centro do convite tem quatro quadros com imagens do povo Awá. Em baixo tem informações sobre a data 25. 02. 2019, hora 14:30, Local: Programa de pós-graduação em Políticas Públicas – UFMA, Banca examinadora: Drª. Elizabeth Maria Beserra Coelho (orientadora), Drª. Mônica Ribeiro Moraes de Almeida, Drº. Rodrigo Theophilo Folhes.

Referências bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989.

BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo. Brasiliense, 2004.

BOURDIEU, Pierre.Meditações Pascalianas. Rio de Janeiro. Bertand, 2007.

BOURDIEU, Pierre. PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Covilhã, Lusofia, 2009.

CORDEIRO, Zeneide Pereira. Os awá e o mundo dos karaiw. (Dissertação de mestrado). Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas – UFMA, São Luís, 2019.

CUNHA, Olívia Maria Gomes da. Tempo imperfeito: uma etnografia do arquivo. MANA 10(2):287-322, 2004.

GOMES, Mércio Pereira. Os índios e o Brasil: passado, presente e futuro. São Paulo: Contexto, 2012.

HERNANDO, Almudena et al. História recente e situação atual dos Awá-Guajá. In. HERNANDO, Almudena; COELHO, M. E. B. (Org.). Estudos sobre os Awá caçadores-coletores em transição. EDUFMA. São Luís, 2013.

MONSERRAT, Ruth Maria Fonini. Línguas indígenas no Brasil contemporâneo. In: GRUPIONE, Luís Donisete Benzi (org.). Índios no Brasil. Brasília, ministério da Educação e Desporto, 1994.

MORENO, Alejandro. Superar a exclusão, conquistar a equidade: reformas, políticas e capacidades no âmbito social. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales. Buenos Aires, 2005.

OLIVEIRA, João Pacheco de. Uma etnologia dos “índios misturados”? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. MANA 4(1):47-77, 1998.

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Metodologia cega

Meu segundo nome é…

Este é o terceiro post da série “metodologia cega”, no qual irei falar sobre o início de como desenvolvi uma forma própria de estudo e pesquisa durante meu curso de mestrado e também, como surgiu a ideia do “resista como uma mulher cega”.

Nas vésperas do dia do índio do ano de 2018, perdi meu resquício visual e fiquei cega total. Com isso, precisei criar novas formas de reorganização em âmbito familiar, social e acadêmico, de modo que eu pudesse continuar executando minhas atividades no mestrado.

A cegueira me obrigou a aprender, a ver e a viver no mundo de uma forma diferente. Tudo o que havia aprendido antes desse momento, passou a não ter valor algum. No meu novo mundo não havia vida, formas, cores e movimento. Existia apenas um som estridente que me fazia pensar que estava no vácuo, perdida. Em razão disso, necessitei fazer reabilitação para reaprender coisas simples do dia a dia como: andar, comer, falar, vestir e ser alfabetizada novamente. Passei a frequentar a escola de cegos do Maranhão e, na minha convivência com pessoas cegas e com outros tipos de deficiência, aprendi rapidamente andar com bengala, a falar localizando pessoas pela voz, a ter noção espacial e andar com acompanhante. Mas, o que “revolucionou” minha vida foi quando conheci uma infinidade de aplicativos que pessoas cegas podem utilizar para ler, escrever, pesquisar, utilizar redes sociais, auxiliar na mobilidade, reconhecer cores, formas e localizações.

Primeiramente, aprendi a usar o celular com o leitor de tela. Através desse recurso, pesquisei na internet técnicas de leitura e escrita de trabalhos acadêmicos para pessoas cegas e encontrei muitas informações que me facilitaram a utilizar leitores de telas no computador. Instalei diversos aplicativos no meu celular e no meu computador e, em poucas semanas havia aprendido a digitar e ler cerca de dez vezes mais rápido do que quando tinha baixa visão.

Paradoxalmente, quando fiquei cega total, em alguns momentos as inúmeras situações de exclusão que vivenciei se intensificaram, ao mesmo tempo em que consegui criar diversas estratégias de resistência para fugir da exclusão social na sala de aula e vencer o isolamento social. Nesse período, a palavra “resistir” para existir, para sobreviver, ser humana, ser mulher e ser feliz, tornou o meu segundo nome.

Nesse período, numa disciplina foi decidido que o trabalho de conclusão seria um seminário, que deveria ser apresentado em equipe de pelo menos duas pessoas. No momento em que ocorreu a organização dos grupos, não me esforcei para integrar nenhum, devido a uma situação extremamente desagradável que havia vivenciado em outra disciplina, na qual, ouvi algumas estudantes falando que temiam ficar comigo na mesma equipe porque, minha participação poderia prejudicar a nota de todas.

Decidi então pesquisar as referências, para que eu tivesse tempo de pedir auxílio, caso não encontrasse em formato acessível. O objetivo principal era eu encontrar referência acessível para estudar e apresentar um seminário sozinha. Um dia, uma estudante do doutorado falou-me que estava sem equipe e respondi que também estava, mas que iria fazer meu trabalho sozinha. Imediatamente, ela falou: “pois, iremos fazer o seminário juntas”. Depois que apresentamos o seminário ela me convidou para tomar um café.

Na semana seguinte, passei a ser “percebida” por alguns colegas. Alguns deles, motivados por não ficarem na fila do restaurante universitário se estivessem em minha companhia, convidaram-me para almoçar. Outras pessoas, também visando agilizar o atendimento, pediam para eu pegar livros emprestados na biblioteca. Recebi outras demandas desse tipo e acatei-as, numa estratégia de estabelecer uma relação de trocas. Paguei contas e comprei ingressos, ações que me possibilitaram companhias para além da universidade.

Em razão dessas minhas “gentilezas”, em poucos meses acumulei um grupo considerável de pessoas ao meu lado, que por vezes me auxiliavam na mobilidade, nas leituras dos textos. Além disso, scaneavam textos para mim, faziam audiodescrição de imagens e vídeos e ajudavam-me a assinar meu nome nas cadernetas de frequência, conduzindo minha mão ao local exato onde deveria firmar minha assinatura. Com isso, meu esposo passou somente a me levar e buscar na universidade, deixando de me acompanhar diariamente, do início ao fim das aulas, como fazia anteriormente, quando ingressei no curso.

No terceiro semestre do curso já estava reabilitada, embora, tivesse dificuldades de locomoção. Nesse período, fiquei mais próxima do meu esposo e da minha orientadora. Essas relações me proporcionaram segurança emocional para que eu pudesse retornar para as aulas e dar continuidade a minha pesquisa. Tornou-se frequente no meu dia a dia responder inúmeras perguntas, que nem sempre eram gentis, de pessoas na universidade e na sociedade em geral sobre minha vida acadêmica e pessoal. Recebi diversos convites para participar de mesas redondas, palestras e ventos na universidade escolas, movimentos sociais, associações de bairro, partidos políticos, instituições públicas e privadas para falar sobre a minha história de vida e sobre minha pesquisa.

Nesse momento, concentrei-me, principalmente, nas atividades do curso e na elaboração da minha dissertação e, também, em questões relacionadas a minha “nova condição”. Em alguns momentos, pensei que deixar de ter baixa visão e ser cega total, foi como se eu estivesse ganhado “super-poderes”, porque passei a decorar informações como citações e referências muito rapidamente, passei ouvir e reconhecer sons a longas distâncias, o que facilitou minha mobilidade e compreensão de espaços, passei a ler e escrever mais rápido. Deixei de perceber situações de exclusão que ocorriam comigo porque meu foco era outro.


Nesse período criei uma espécie de campanha com o título: Resista como uma mulher cega! Com o objetivo de criar de divulgar questões relacionadas a invisibilidade da mulher cega no meio acadêmico, questões de gênero e direitos humanos. Atualmente, criei um site com o mesmo nome da campanha, nele público textos sobre diferentes temas: povos indígenas, democracia, política, gênero, etc.

Descrição da imagem: Fundo amarelo e letras pretas com a frase: Resista como uma mulher cega!
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Metodologia cega

Ver demais cega também!

Este é o segundo post da série sobre “uma proposta metodológica inclusiva” para estudo, pesquisa e ensino de pessoas cegas, com deficiência e sem deficiência. O primeiro foi o post “trilhas e meandros da luz na escuridão”.

Percebo, nos dias de hoje, que muitas das pessoas que contribuíram para minha exclusão no mestrado a partir de crenças pré-construída de modo preconceituoso, egoísta e discriminatório, continuam a pôr em prática as mesmas atitudes. Atitudes essas, que são reatualizadas com novas concepções expressas em frases como: “você é cega mais é inteligente”. “Você nem parece ter deficiência, tem certeza que é cega mesma”? “É incrível o que você faz, é claro que você é uma exceção”!

Frases desse tipo são corriqueiras no meu cotidiano e, a meu ver, mostram preconceitos construídos historicamente, os quais, as pessoas evitam tornar públicos de modo explícito, mas que sempre o fazem camuflados com expressões de dor e sentimentalismos exacerbados. São efetivados por meio de crenças pré-construídas que podem ocasionar atitudes de intolerância e violência física e simbólica com pessoas ou grupos de pessoas numa determinada sociedade.

Moreno (2005) afirma que a exclusão é um conceito que tenta definir teoricamente a realidade social que enfrentamos na prática do viver cotidiano e isto, supõe uma aceitação evidente de uma divisão entre dois setores muito distintos de uma sociedade.

No meu caso, a experiência de exclusão que vivenciei na pós-graduação não foi novidade alguma, pois, vivo situações semelhantes diariamente, desde a infância. Muitas ocorrem em decorrência de ser oriunda de uma região com precária situação econômica, pela falta de estrutura familiar, pela ausência de educação escola. Outras situações de exclusão que vivenciei ocorreram em razão do meu gênero, da cor e da minha deficiência.

Portanto, desde minha infância percebo que sempre vivi num mundo social dividido. Mesmo quando participo de um determinado grupo, como por exemplo, uma turma de pós-graduação numa universidade federal. “A exclusão por si mesma não pressupõe necessariamente desigualdade, mas somente quando, como em nosso caso, a exclusão se exerce sobre condições de vida humana” (MORENO, 2005, p. 96).

Em razão de inúmeras atitudes de exclusão, expressas sobretudo pela ausência de acessibilidade atitudinal e comunicacional, estudei dois semestres isolada socialmente e sem acesso a maior parte dos conteúdos trabalhados em sala de aula. A maioria das referências não estavam disponíveis em formato acessível. Os slides, filmes e vídeos quando eram projetados em sala não tinham audiodescrição.

Durante uma dessas aulas sem nenhuma acessibilidade atitudinal, comunicacional e social, na qual eu era simplesmente invisível aos olhos dos que enxergam, falei em tom irônico e enfático: “só resistindo como uma mulher cega” para sobreviver aqui! Percebi que esta frase “chocou” algumas pessoas e, principalmente, a professora. Após esse episódio passei falar com mais frequência. No segundo semestre de 2018, quase às vésperas das eleições presidenciais, quando estavam sendo organizadas diversas mobilizações políticas e sociais em São Luís, fiz duas camisetas com a frase: resista como uma mulher cega! Passei vestir na universidade, durante diversas mobilizações, apresentações de trabalhos e eventos dos quais participei nessa época.
No próximo post falarei sobre o “nascimento” do resista como uma mulher cega.

Descrição da imagem : imagem com fundo preto e letras brancas com a frase: cuidado! Você pode ficar cego de tanto ver!

Referência bibliográfica

MORENO, Alejandro. Superar a exclusão, conquistar a equidade: reformas, políticas e capacidades no âmbito social. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales. Buenos Aires, 2005.

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Metodologia cega

TRILHAS E MEANDROS DA LUZ NA ESCURIDÃO

Este será o primeiro de cinco post que falarei sobre “uma proposta metodológica inclusiva” que desenvolvi ao longo de algumas trilhas da minha trajetória acadêmica e profissional.

Quando ingressei no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas na UFMA, estava num processo de perda de visão agressivo e dolorido. Sentia fortes dores e inflamações nos olhos, enxaqueca, dores de ouvido e a minha mobilidade estava extremamente comprometida.

Diariamente, meu esposo me levava para assistir aula. Chegávamos cedo, para que ele pudesse me ensinar andar sozinha no prédio em que estudava. O objetivo disso, era melhorar minha mobilidade no curso e na universidade. Durante as aulas, minhas dificuldades eram imensas, não conseguia acompanhar as leituras e nem as discussões em sala. Os recursos que facilitavam meus estudos, que eu tinha em casa, eram insuficientes. Em razão disso, busquei outras estratégias. Primeiramente, pedi um vídeo ampliador na coordenação do curso, o que foi me concedido cerca de dois meses depois. Meu direito de uso desse equipamento era somente nas dependências do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas.

Assim, eu tinha apenas um turno para usar o vídeo ampliador, porque, em outro turno eu estava em sala de aula. O resultado é que eu nunca conseguia fazer todas as leituras necessárias. Pedi aos professores e professoras que disponibilizassem a ementa da disciplina com antecedência, mas, muitos esqueciam e não me enviavam. Passei a pedir na coordenação mas, na maioria das vezes não me enviavam, ou enviavam um documento em formato de imagem, no qual eu não conseguia ler. Comecei a gravar as aulas, mas, nessa época, a sensibilidade da minha audição prejudicava o entendimento de alguns sons, principalmente, da voz humana.

Percebi que todas as estratégias que havia criado para facilitar meus estudos e garantir minha permanência no curso fracassaram ao ponto de pensar que a única solução racional e viável seria o trancamento ou abandono. Porém, resisti buscando permanecer no curso.

Percebi que seria necessário criar estratégias que me adequassem ao jogo social realizado na universidade. Estava explícito que eu era a figura “aversa” em relação aos agentes que estavam inseridos nesse jogo. Meu processo de produção científica era extremamente diferente dos deles. Além disso, existiam enormes barreiras físicas e emocionais pelo fato de eu não enxergar. O fato de procurar estratégias para me inserir nesse jogo, não significa que eu decidi seguir todas as regras ou participar das mesmas disputas que os demais participantes, pois, no meu caso, isto seria impossível, porque, “naturalmente”, eu já estava numa condição de extrema desigualdade de condição. Porém, procurei em alguns momentos fazer o jogo duplo, agindo de acordo com meus interesses ao mesmo tempo que mantinha as aparências de obediência às regras. Bourdieu (2004, p. 81) chama “jogo duplo”, a estratégia que permite produzir uma infinidade de lances possibilitados pelo jogo.

Decidi falar sobre minhas limitações e sobre minha deficiência. No momento em que falava, algumas pessoas demonstravam compaixão e me auxiliavam principalmente, na mobilidade, só que este auxílio ocorria somente no momento em que havia terminado de falar das minhas limitações. Diariamente, ouvia falas e vivenciava atitudes que intensificavam minha exclusão no curso e na própria universidade.

Posteriormente, várias pessoas que estudaram comigo no mestrado me falaram que no decorrer do curso evitaram se aproximar de mim com medo de se tornarem minhas guias. Outras me relataram que não sabiam como falar comigo, porque tinham medo e pena de mim, imaginavam que no meu dia a dia eu dependeria totalmente de uma pessoa vidente, etc.

No post seguinte falarei sobre exclusão no ambiente acadêmico e como consegui agir para vencer inúmeras barreiras atitudinais, sociais e comunicacionais.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989.

BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo. Brasiliense, 2004.

BOURDIEU, Pierre.Meditações Pascalianas. Rio de Janeiro. Bertand, 2007.

BOURDIEU, Pierre. PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Covilhã, Lusofia, 2009.

CORDEIRO, Zeneide Pereira. Os awá e o mundo dos karaiw. (Dissertação de mestrado). Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas – UFMA, São Luís, 2019.

CUNHA, Olívia Maria Gomes da. Tempo imperfeito: uma etnografia do arquivo. MANA 10(2):287-322, 2004.

GOMES, Mércio Pereira. Os índios e o Brasil: passado, presente e futuro. São Paulo: Contexto, 2012.

HERNANDO, Almudena et al. História recente e situação atual dos Awá-Guajá. In. HERNANDO, Almudena; COELHO, M. E. B. (Org.). Estudos sobre os Awá caçadores-coletores em transição. EDUFMA. São Luís, 2013.

MONSERRAT, Ruth Maria Fonini. Línguas indígenas no Brasil contemporâneo. In: GRUPIONE, Luís Donisete Benzi (org.). Índios no Brasil. Brasília, ministério da Educação e Desporto, 1994.

MORENO, Alejandro. Superar a exclusão, conquistar a equidade: reformas, políticas e capacidades no âmbito social. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales. Buenos Aires, 2005.

OLIVEIRA, João Pacheco de. Uma etnologia dos “índios misturados”? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. MANA 4(1):47-77, 1998.


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Política

A MORTE DOS XAMÃS

Em tempos de retrocessos da política indigenista, ambiental e dos direitos humanos no Brasil as palavras de Kopenawa presentes no livro a queda do céu: palavras de um xamã yanomami são um alerta para nós refletirmos sobre aspectos políticos, econômicos e sociais presentes nos Estados capitalistas modernos em que as forças de produção são monopolizadas por grandes empresas, ao mesmo tempo que inúmeros grupos de pessoas e povos se tornam cada vez mais dependentes economicamente.

Kopenawa nos faz refletir que nos dias atuais as mercadorias estão conduzindo todas as relações humanas. O “homem branco” precisa entender que a terra não é uma colônia de exploração, a terra não é propriedade particular. A terra é um presente que foi dado para usufruto de todos; seres humanos, seres “celestiais”, seres e elementos da natureza.

O “povo da mercadoria” acredita que a natureza, as relações sociais e o conhecimento são “coisas” que existem naturalmente e que lhes foi dado o direito de posse “naturalmente” para que pudessem destruir nações e culturas, para que delineassem novas fronteiras e impusessem sistemas e leis que lhes garantissem a continuidade da sua dominação.

Os yanomami desde os primeiros contatos com os não indígenas entre as décadas de 1910 a 1940, mediados pelo Serviço de Proteção ao Índio – SPI tem sofrido inúmeros tipos de violências: mortes por epidemias e assassinatos, executados por extrativistas, por soldados da Comissão de Limites para demarcar fronteiras brasileiras, por garimpeiros, por brasileiros que participavam de projetos de colonização agrícola e por missionários.

Essa violência vivenciada pelos yanomami intensou-se desde o período da ditadura militar quando o governo brasileiro criou e executou diversos projetos de desenvolvimento econômico em territórios ocupados tradicionalmente por povos indígenas em todas as regiões do Brasil.

De modo geral, o contato entre os yanomami e os não indígenas provocou uma série de epidemias e desastres ecológico e isto afetou diretamente o mundo espiritual que depende da floresta para sobreviver.

Na cultura yanomami os xapiri – espíritos são seres puros que habitam o plano imaterial que se situa na floresta, no céu, no subterrâneo, quando querem ficar perto dos humanos, caminham pela floresta por um caminho espelhado que eles mesmos projetam e criam, nunca tocando o chão. Eles se comunicam com o xamã quando está em estado de fantasma após beber o pó da yãkoana, os espíritos os ensinam, pelo canto e dança, a caçar, curar doenças, a celebrar a vida.

Atualmente, devido ao aumento do desmatamento a vida dos yanomami está ameaçada por doenças. Para esse povo as doenças são causadas quando um espírito yarori ataca. São os xapiri que intervém e curam. Mas, hoje com as epidemias dos brancos os xapiri pouco podem fazer para ajudar, porque não conhecem essas doenças. A doença física resultante do contato com o não indígena significa doença no plano espiritual dos xapiri.

Kopenawa fala que quando os garimpeiros começaram a invadir a floresta os xamãs tentaram rechaçar suas fumaças de epidemia. Infelizmente, foram os seres canibais da epidemia que, enfurecidos por seus ataques, acabaram por devorar os xamãs. É por isso que os velhos xamãs, antes tão numerosos, são hoje tão raros.

Hoje os xapiri maléficos dos xamãs mortos tornam-se cada vez mais numerosos, furiosos por ver as casas dos espíritos de seus pais destruídas pela ignorância dos brancos. É por isso que os xapiri maléficos irados derrubam árvores em cima dos garimpeiros, enchem as águas dos rios para afogá-los e provocam deslizamentos de terra para sepultá-los. Inclusive derrubam seus aviões na floresta. Se o povo da mercadoria continuar explorando a natureza irão matar os poucos xamãs que restam.

Sem xamãs, a floresta é frágil e não consegue ficar de pé sozinha. As águas do mundo subterrâneo amolecem seu solo e sempre ameaçam irromper e rasgá-lo. Seu centro, firmado pelo peso das montanhas, é estável. Mas suas bordas não param de balançar com estrondo no vazio, sacudidas por grandes vendavais. (KOPENAWA,; ALBERT, 2005).

Maxitari, o ser da terra, Ruëri, o do tempo encoberto, e Titiri, o da noite, ficarão furiosos. Chorarão a morte dos xamãs e a floresta vai virar outra. O céu ficará coberto de nuvens escuras e não haverá mais dia. Choverá sem parar. Um vento de furacão vai começar a soprar sem jamais parar. Não vai mais haver silêncio na mata. A voz furiosa dos trovões ressoará nela sem trégua, enquanto os seres dos raios pousarão seus pés na terra a todo momento. Depois, o solo vai se rasgar aos poucos, e todas as árvores vão cair umas sobre as outras. (KOPENAWA,; ALBERT, 2005).

Nas cidades, os edifícios e os aviões também vão cair. Isso já aconteceu, mas os brancos nunca se perguntam por quê. Só querem saber de continuar escavando a terra em busca de minérios, até um dia encontrarem Xiwãripo, o ser do caos! Se conseguirem, aí não vai haver mais nenhum xamã para rechaçar os seres da noite. A mata vai ficar escura e fria, para sempre. (KOPENAWA,; ALBERT, 2005, p. 494).

Quando todos xamãs morrerem o homem branco irá ficar em sua terra devastada e invadida por multidões de seres maléficos que os devorarão. Por mais que os homens brancos sejam muitos e sabidos, seus médicos não poderão fazer nada. (KOPENAWA; ALBERT, 2005). Todos serão destruídos.

No entanto, enquanto existirem xamãs vivos, eles conseguirão conter a queda do céu. Se morrerem todos, ele vai desabar sem que nada possa ser feito.

REFERÊNCIA

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras. 2015.

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Combate a violência e a discriminação Crônica Educação democrática e inclusiva Gênero, classe, raça, deficiência e cegueira Pesssoas com deficiência poesia e crônicas Sobre nós

PORQUE O DIFERENTE DÁ MEDO?

Diariamente e desde quando eu era uma criança que adorava correr entre as árvores, de banhar no igarapé que passava no fundo da minha casa, que conversava com bem-te-vi e minha sobremesa preferida era a manga de fiapo roubada da vizinha… ouvia de meus familiares, de conhecidos e desconhecidos que sou “diferente”… afinal o que é ser diferente?

Na minha infância acreditei que ser diferente era um “dom”, todos se admiravam que menina sabida… nem parece que é tão diferente das outras… desconhecendo o era exclusão, cresci feliz e sem medo como a maioria das crianças da roça, correndo no meio de plantações e parando rapidinho para tirar gravetos que entravam em meus pés, me ferindo com ponta de anzol durante uma pescaria ruim, batendo a testa num pé de murici ou de caju…

Foi assim, vivendo livremente na roça, que aprendi a ter autonomia e mobilidade, que aprendi a reconhecer uma infinidade de sons a longa distância, que aprendi a criar mapas mentais a conhecer pessoas somente pelo movimento do corpo, que aprendi a sentir as pessoas, a conhecer sentimentos alheios, foi onde aprendi ser mágica!

Um dia recebi um conselho que ser diferente mais cedo ou mais tarde assusta e dá medo em algumas pessoas e que por elas terem medo mim iriam me machucar e muito. Confesso que nunca entendi, porque o diferente dá medo? Porque o “diferente” vive situações de exclusão, dependência e solidão?

Na verdade, nunca acreditei nisso. Afinal, sempre gostei de ser diferente! Hoje percebo, que esta crença minha é um recurso de autoproteção contra inúmeros preconceitos e exclusões que vivenciei e vivencio diariamente, mas, atualmente, este recurso anda tão fraquinho que tenho medo que ele não resista por muito tempo, me ajude a romper com o pensamento de que o mundo é somente para algumas pessoas, porque, pensar assim, é cruel, é acreditar que o preconceito é algo natural sendo que na verdade não é. Me ajude porque, não consigo vencer sozinha o preconceito e a exclusão!

Vamos pensar que nenhuma pessoa e nenhuma sociedade é racista, homofóbica, machista, violenta, intolerante, preconceituosa e excludente “naturalmente”. Essas são características adquiridas historicamente e socialmente, se aprendemos a ser excludentes e preconceituosos, podemos aprender a pensar de forma inclusiva, democrática e solidária e dessa forma podemos sim, criar uma nova concepção de sociedade onde, as pessoas não serão violentadas fisicamente e psicologicamente em razão da sua cor de pele, do seu gênero, da sua identidade sexual, da sua condição social, física e biológica.

Sonho ainda, viver um dia sem preconceito, sem exclusão, sem violência! Sonho correr livremente, tendo apenas, o cuidado de não entrar gravetos nos meus pés!

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Direitos humanos

Entenda logo, acessibilidade é um direito e não um favor!

Professora como a senhora avalia seus alunos? Professora como é a sua prova? Como a senhora coloca a nota de seus alunos? E etc. Etc. Etc. Etc. e… Essas são algumas das centenas de perguntas que fui obrigada a responder para todas as funcionárias da coordenação e gestão da escola que trabalho. Fazendo um grande esforço emocional e psicológico para ser gentil e não perder as estribeiras enquanto, ouvia pessoas vomitarem desconfiança e preconceito.

Ontem, quando estava ministrando a minha quinta aula do dia, alguém, bateu na porta da sala de aula, para me avisar que eu deveria comparecer na direção. Confesso, que fiquei curiosa, pensei que finalmente, as pessoas da gestão da escola teriam percebido que o ambiente escolar precisava se tornado minimamente acessível para eu realizar meu trabalho com autonomia e segurança.

Não, tudo foi apenas engano meu. Tolice de uma profissional cega que sonha com um mundo acessível para todas as pessoas…

Ouvi muito esta semana frases do tipo, estou fazendo isso somente para ajudar a senhora, porque, sei que a senhora precisa de ajuda… cerca de trinta minutos. Enquanto, sentia um reboliço no meu corpo todo, me indignei e pensei que aquilo teria que acabar, busquei forças para responder, tantas barbaridades, ao lembrar que quando chegasse em casa poderia chorar no ombro do meu companheiro e que a noite seria recebida com aplausos pelos deuses do teatro durante meu ensaio e que dormiria linda e leve, cheia de bênçãos dos céus.

Calmamente, respondi, desculpa, mas, não posso fazer uma coisa dessa. Esse não é um trabalho para alunos, quem faz isso, é o docente, mas, no meu caso, como sou cega, não tenho como corrigir uma prova impressa em papel, então, quem deve fazer é uma funcionária (o) da escola.

Meio desajeitada, senti que a senhora olhava na minha direção, sua voz mudou e com um tom meigo e sem noção, me disse: professora encontrei essa solução para ajudar a senhora, já tenho muito trabalho e, não posso assumir o compromisso de corrigir sua prova. Estou fazendo isso, porque é para a senhora, somente para a senhora, para lhe ajudar… porque gosto da senhora e, sei que tens muita dificuldade…

Respirei profundo, calma e segura do que iria falar, respondi, não, a senhora precisa entender, que o fato de uma pessoa corrigir minhas provas, porque, eu não enxergo e, portanto, não tenho condições, para fazer, não é um favor e nem uma caridade, isso é um direito, um direito inalienável para mim e para toda pessoa com deficiência. Acessibilidade é um dos principais direitos universais, a partir dele é garantido todos os outros direitos, inclusive, o direito à vida. Por isso, não abro mão de pelo menos um mínimo de acessibilidade no meu ambiente trabalho.

Por acaso, se a senhora não puder corrigir minhas provas, alguém vai ter que corrigir e, quem precisa resolver isso são vocês, as responsáveis pela gestão da escola, por se tratar de um direito básico, não existe nenhum acordo da minha parte para que ele não se efetive.

Bom, esta conversa não parou por aí, a senhora insistiu em me convencer que sua proposta era uma atitude solidária e que ela não podia assumir uma tarefa a mais. E como se não bastasse, ainda, precisei repetir meu discurso muitas outras vezes, porque, se há uma coisa que funciona na escola que trabalho é a falta de comunicação entre as pessoas. Infelizmente, essas trabalhadoras da área da educação, ainda, não compreenderam que, acessibilidade não é um favor e nem uma caridade é um direito.

Descrição: na foto, estou de sentada de perfil, trabalhando em casa, preparando provas bimestrais no meu notebook . Uso um vestido com estampas geométricas na cor azul, amarela e rosa, tenho cabelos curtos, pretos e lisos..
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Educação

A PROFESSORA É CEGA?

No dia 31 de agosto finalmente iniciei meu trabalho em sala de aula. Aproveitei para falar sobre formas de avaliação e a didática das aulas. Demonstrei todo meu respeito e sinceridade diante da turma, pedi a colaboração de tod@s, para que a nossa experiência em sala de aula fosse produtiva e feliz.

Respondi perguntas sobre minha vida pessoal, alguns estudantes, tinham curiosidade de ver meus olhos e, é claro que eu mostrei, falei também, da minha formação acadêmica, do lugar em que nasci. O mais interessante de tudo neste momento foi que nós combinamos formas de diálogo durante as aulas, frequência e tipos de atividades.

No primeiro dia de aula, solicitei em cada turma, que fosse criado um grupo de Whatsapp, pois, é através dele, que faço a lista de frequência e mantenho o controle de atividades e pontuação de cada estudante. Aproveito todos os momentos para falar sobre a importância da acessibilidade para que eu consiga ministrar as aulas.

Até o momento, em todas as turmas que estou trabalhando, estou recebendo muita colaboração e já conheço muitos dos meus alunos e alunas pela voz ou pelos movimentos corporais.

Todos tem demostrado compreenderem a importância do silencio, no momento em que eu falo ou quando um colega fala. Todos percebem o quanto é importante a organização da turma para que eu possa me localizar no espaço e conhecer as pessoas.

Durante nossas aulas, acontecem situações extremamente engraçadas e assustadoras para os alunos, por exemplo, numa das minhas turmas de sexta feira, enquanto, eu estava explicando o conteúdo da aula, havia uma aluna, no final da sala ouvindo música com um fone. Aí, dei uma pausa na aula e identifiquei o local em que ela estava sentada e olhando na direção dela disse com um tom de voz calmo e gentil: você pode ouvir esta música em outro momento, o som está muito alto e está prejudicando meu raciocínio. A aluna tirou o fone do ouvido e ficou em silêncio, fez diversos gestos horrorizada, tentando entender como eu sabia que ela estava com fone no ouvido. Geralmente, meus alunos e minhas alunas, ficam assustados, mas, demonstram gostarem, quando eu passo por eles num dos corredores da escola e falo seu nome. Em diversos momentos ouço sussurros de estudantes falando, é incrível como ela conhece a gente, como será que ela faz isso?

Ainda não sei quais são as percepções e compreensões dos meus alunos e alunas sobre mim e também, ainda não sei quais são minhas percepções e compreensões sobre eles e sobre todas as pessoas que trabalham nessa escola. O que sei é que esta experiência de trabalho está sendo muito produtiva, sincera e feliz!.

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Educação

Não sou todo mundo!

Olá! Esse post é um desabafo de frases preconceituosas que ouço diariamente no meu trabalho. Esta semana, decidi falar para várias pessoas o quanto as frases delas são preconceituosas e doentias, mas, de nada adiantou. As mais corriqueiras são:

–  Ah professora! Todo mundo tem que entregar impresso.

– Só que eu não sou todo mundo.

– A senhora tá usando o livro? Tem que usar.

– Não, não uso nenhum recurso de papel. Ah! Também não uso lápis, caneta, quadro, pincel, borracha, etc.

­­– Como a senhora controla os alunos?

– Não estou aqui para controlar alunos, mas, sim para ministrar aulas, é para isso que o estado me paga.

– Esse é o padrão das aulas!

– Minhas aulas não seguem este padrão, porque, eu não sou uma professora padrão.

– Essa é a regra de todas as escolas!

– Uma regra totalmente inacessível que precisa ser adaptada

– Olhe professora é assim que eu faço é assim o correto!

– Ok. Legal sua forma de trabalhar.

– Se a senhora quiser posso lhe dar umas dicas!

– Obrigada.

– Professora a senhora quer que eu vá nas salas para pedir que os alunos se comportem?

– Como? Essa proposta foi a mais inusitada que recebi.

– Quem está ficando na sala com a senhora professora?

– Os alunos e as alunas.

– Quais são os limites que a senhora impôs para a turma?

– Desculpe, não trabalho com essa categoria.

– Os alunos perguntam sobre seu problema?

– Não, meus alunos não sabem quais são meus problemas.

– A senhora já entregou seu planejamento mensal?

– Enviei por E-mail.

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Educação Educação democrática e inclusiva

Essa é a professora? E ela é cega?

No final de junho deste ano fui aprovada num seletivo para ministrar aulas de Arte na rede pública de ensino do Maranhão.

Quando decidi que queria ser professora do ensino médio, sabia que enfrentaria diversos tipos de situações boas e ruins. Por isso, planejei cada passo do meu trabalho, inclusive, prevendo situações que poderiam ocorrer sem estarem previstas. Criei uma metodologia específica para ensinar Arte e tracei estratégias de convivência social.

No meu primeiro dia na escola fui muito bem recebida pela gestora e por todos os profissionais. Imediatamente, percebi olhares e cochichos curiosos. Algumas pessoas pareciam estarem anestesiadas, talvez, por uma multiplicidade de sentimentos, medo, admiração, preconceitos, carinho…  Afinal, não é todo dia que se ver uma professora cega!

Ouvi a voz de uma aluna perguntando para uma senhora se eu era a nova professora de Arte. Ela respondeu que sim e completou a frase dizendo que era “especial”, que eu era cega.  Alguns estudantes, se esforçavam para me olharem por trás da parede de uma janela de vidro que separa o local em que estava sentada de onde eles estavam.

– Essa é a professora de arte? E ela é cega?

– Tem certeza?  Como será a aula dela?

A curiosidade a meu respeito em alguns minutos se espalhou pela escola, tornei-me, o assunto do momento. Todos, principalmente, os profissionais da escola me perguntavam sobre minhas aulas, como faço avaliação? Como faço chamada? Etc. Algumas curiosidades, eram extremamente preconceituosas e muitas têm frases como “desculpe é que nunca conheci ninguém assim”… a situação mais terrível que vivencio é quando alguém fala comigo me infantilizando… juro para você, que se pudesse daria um tabefe bem no meio do nariz dessas pessoas, mas, lembro que não podemos fazer tudo o que temos vontade porque, podemos ter sérias consequências.

O fato de eu ser uma professora de Arte cega, desde que fui contratada pelo estado, tenho vivenciado situações em que sou colocada como um tipo de aberração, uma espécie de novidade a ser contemplada e temida, minhas capacidades profissionais e intelectuais foram posta em dúvida, todos queriam saber sobre minha formação acadêmica e se eu tinha experiência de trabalho, por outro lado, me identificaram como uma espécie de ser, que merecia ser admirada e compreendida como um exemplo de superação. _’

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Educação Educação democrática e inclusiva

Política de educação escolar e a pessoa com deficiência no Brasil

As políticas de educação brasileira são influenciadas pela globalização e pelas regras internacionais que formulam o funcionamento da economia nacional e mundial.. Porém, nem todas as pessoas são inseridas num sistema de ensino universal, como por exemplo, as pessoas com deficiência.

Na década de 1990 a educação especial foi inserida no sistema nacional de educação e o ministério da educação elaborou a Política Nacional de Educação Especial. A partir daí foram aprovadas uma série de legislação sobre educação especial, inclusive, a LDB nº. 9.39496 que define a educação especial como uma  modalidade de ensino destinada aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino. O termo “preferencialmente” abriu a possibilidade de o ensino continuar nas instituições especializadas e não somente na rede regular.

A oficialização da educação especial e da sua inserção ao sistema nacional de ensino, não foram suficientes para acabar com a exclusão de pessoas com deficiência no ambiente escolar. A legislação brasileira dá brechas para a continuação de diversos processos de exclusão, atualmente, ainda existem, centros especializados que atendem pessoas com deficiência. Esses centros contribuem para a exclusão de pessoas com deficiência, porque não permite que essas pessoas mantenham relações com a sociedade de modo direto e contínuo, não há a valorização da pessoa com deficiência enquanto agente autônomo individual. Por outro lado, mesmo sendo garantido por lei a pessoa com deficiência o direito de estudarem escolas de ensino regular, não há nenhuma política pública no Brasil efetiva que valorize as especificidades das pessoas com diferentes tipos de deficiência.

Para mim, só é possível existir uma educação especial de forma efetiva se na sua execução for levada em consideração as especificidades de cada tipo de deficiência, por exemplo, a escolarização de pessoas cegas, tem que ser diferente da escolarização de pessoas surdas. Nesse sentido, penso que o Brasil está andando em passos lentos em direção de uma educação inclusiva e democrática.

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Artes e Culturas poesia e crônicas

Que tipo de pessoa preconceituosa você é?

Logo que me viu, me abraçou, segurou minha mão, ao mesmo tempo que falava que havia lido vários textos e algumas crônicas no meu site. Em êxtase falou, como pode você escrever e falar sobre tantos assuntos diferentes sendo cega?

 Essa foi a vez em que ouvi um trilhão de palavras extremamente preconceituosas de uma única pessoa num mesmo instante. Fiquei sem palavras e atitude ao perceber que essa pessoa não tinha consciência do quanto ela estava sendo preconceituosa comigo.

Em alguns instantes, lembrei e refleti sobre inúmeras situações de preconceito que sofri, desde minha infância. Em razão dos seus efeitos, violências, dores, exclusão, humilhação e medos pensei que ele destruiria minha vida. Felizmente, o destino provou que o preconceito não me destruiria.

Nesse dia, vivenciei um preconceito diferente, feito por uma pessoa que era tão preconceituosa, mais, tão preconceituosa, que não sabia que era preconceituosa. E essa pessoa, era tão inconsciente de si e do seu preconceito, que acreditava que não era preconceituosa e, que lutava contra o preconceito. O que descobri é que não importam as características do preconceito, de todas as formas, ele maltrata e mata o corpo e a alma e que todos nós, seres humanos, temos nossos preconceitos, costumamos julgar, condenar e excluir as pessoas que não nos agradam, aquelas que não se encaixam em nossos rótulos.

O preconceito não é inato ao ser humanos, nós aprendemos a ser preconceituosos e muitas vezes, aprendemos como nossos sofrimentos.

Fiquei com o coração geladinho de tristeza, minhas mãos e minha voz tremiam, senti o desejo de chorar, não porque, estava sofrendo preconceito, mas por estar ao lado de uma pessoa que não conhecia a si mesma, que não percebia suas atitudes boas e ruins, que desconhecia o seu próprio EU.

Têm pessoas que dizem, sou preconceituosa mesmo e pronto. As que dizem, não me importo com isso ou aquilo, não tenho nada contra, desde, que não chegue perto de mim. Ou as que falam, que bacana, você é um exemplo de superação, mas, deus me livre de acontecer isso na minha família ou comigo, isso seria um castigo, cruz credo!

Existem algumas pessoas, que são conscientes do que o preconceito faz e por isso se esforçam para se curarem. Eu me incluo nesse grupo. É o que penso, porque talvez, posso ter tanto preconceito que ainda não consegui identificar o tipo de preconceituosa que sou.

Mas, como penso e acredito que já identifiquei o tipo de preconceituosa que sou, estou buscando me curar e você, já identificou o tipo de pessoa preconceituosa você é?

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Combate a violência e a discriminação Direitos humanos

AGORA É CRIME!

No dia 13 de junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal, votou no projeto de lei 672-19, do senador Weverton Rocha PDT-MA, que altera a Lei de Racismo, passando incluir o preconceito contra orientação sexual e identidade de gênero. Além desse, está em trâmite o projeto de lei 191/17, do senador Jorge Viana PT-AC, que altera a Lei Maria da Penha para inserir mulheres transexuais.

Agora no Brasil, a homofobia e a transfobia são crimes, com pena de até cinco anos de prisão. Ao contrário do que disse o líder do atual governo semana passada, que a decisão do STF foi equivocada em criminalizar casos de preconceitos, discriminação e agressão contra lésbicas, gays, bissexuais e travestis.

Acredito que já estava, mais do que no tempo do STF cumprir com uma das suas principais obrigações que é trabalhar para defesa e proteção de grupos sociais que historicamente são mais vulneráveis a violências, discriminação e exclusão social como os idosos, pessoas com deficiência, mulheres, a população negra, crianças, povos indígenas e a população LGBT.

Até a semana passada, nunca havia sido aprovado nenhum projeto de lei que criminalizasse a homofobia e a transfobia no Brasil. Segundo dados da ONU, o Brasil, é o país do mundo, mais violento e o que mais mata pessoas LGBT e nem sequer, existem dados oficiais que mostrem o alto índice de violência contra essas pessoas. Não é aceitável, que em nosso país pessoas morram, sejam agredidas, estupradas e excluídas da sociedade em razão da sua identidade de gênero.

A criminalização da homofobia é importante e necessária, mas, para que os números de violências contra a população LGBT caiam é necessário que sejam criadas políticas públicas específicas, programas de saúde, educação, trabalho e lazer pautado em princípios de respeito ao ser humano e na valorização da vida.

É o atual governo que está equivocado ao dizer que uma empresa vai pensar duas vezes em contratar um homossexual porque, qualquer besteirinha que aconteça será crime, e ainda, que a criminalização da homofobia fere a liberdade religiosa porque, parte dos cristãos condenam a homossexualidade. A ignorância e o preconceito do líder do governo são uma praxe, desde o início da sua campanha ficou claro que ele desconhece qualquer princípio de direitos humanos, de classe e muito menos princípios cristão.

Infelizmente, grande parte de jornais nacionais e inclusive alguns de esquerda, estão compactuando com o pensamento do atual governo ao considerarem que a criminalização da homofobia fere o direito à liberdade de pensamento e a livre expressão e esta lei é somente para punir a esquerda e a população pobre do Brasil.

Para mim, o direito de liberdade de pensamento e a livre expressão de uma pessoa não são direitos para serem usados para violar, discriminar, excluir e agredir outras pessoas. Essas atitudes são criminosas e quem as comete devem ser presos julgados e condenados. Não é à esquerda e nem as pessoas pobres que serão punidas, mas, sim, aquelas pessoas que por algum motivo agredirem, discriminarem, ofenderem, xingarem, etc., outras pessoas em razão da sua identidade de gênero ou orientação de sexual.

Espero que o líder do atual governo deixe de usar o cristianismo para disseminar sua ignorância, preconceito e violência e conheça os principais princípios que Jesus Cristo nos ensinou e deixou para nós, que, foi o amor, a união e o perdão. Princípios esses, que deveriam ser a base de um governo que diz cristão e que deveria conduzir sua gestão tendo como objetivo difundir o respeito a diversidade, a democracia e os direitos humanos.

Descrição: imagem com as cores e os significados da bandeira LGBT. A cor rosa significa a sexualidade, vermelho: a via, laranja: a cura, amarelo: a luz do sol, verde: a natureza, azul: a serenidade e a harmonia, violeta: o espírito.
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SIM. AGORA SOU CEGA!

Depois de ouvir alguns tutoriais sobre mobilidade de pessoas cegas, decidi sair do meu apartamento sozinha, desci as escadas devagar e passei um tempinho na porta do meu bloco, muitas pessoas subiam e desciam as escadas, e, eu dava bom dia para todas, com a intenção de localizá-las e perceber diferenças de vozes, num determinado momento, minha vizinha falou comigo, puxou conversa, aproveitei para falar que estava cega, depois, chegou outra vizinha e eu contei que estava cega, ela perguntou como foi que fiquei cega, a quanto tempo estava cega, etc, etc, etc.

Todas as pessoas que passavam próximo do bloco em que moro, minhas vizinhas falavam, tu acredita que ela está cega agora? Eu respondia, sim, agora sou cega e, é irreversível e continuava respondendo perguntas e sempre concluindo com a frase sim, agora sou cega, se por acaso você me ver por aí fale comigo porque não posso ver você, porque agora sou cega.

Enquanto falava para as pessoas que estava cega, percebi que a cegueira não me incomodava mais, pelo contrário, me sentia bem, bonita, feliz e orgulhosa por ser cega, me sentia diferente da maioria das pessoas e essa sensação me deu muito prazer.

Nesse dia, com a ajuda de um tutorial, preparei um almoço romântico, meu esposo ficou encantado quando olhou a comida e a organização da mesa, e, nós comemoramos porque, não havia me machucado, não me cortei e nem quebrei nenhuma louça.

Nós estávamos felizes, e decidimos ir ao cinema pela primeira vez depois que fiquei cega. Demorei cerca de três horas para me arrumar, lavei e hidratei meus cabelos, esfoliei minha pele, coloquei uma roupa no meu corpo que fazia eu me sentir bonita e confortável. Fiquei na frente do espelho tentando me maquiar, mas, não consegui e mesmo assim, me sentia bonita e empoderada, e estava descobrindo minha história e minha identidade de mulher cega.

Desde esse dia, todos os meus dias são desafiadores, cheios de novidades, de aprendizados, às vezes, tem uns que são mais difíceis do que os outros, mas, o certo é que todos os dias encontro pessoas preconceituosas, ignorantes, simpáticas, alegres, sensíveis, generosas e humanas. Todos os dias aprendo algo e descubro um mundo novo.

Hoje, sempre me apresento como uma mulher cega, não tenho mais medo do escuro, tenho uma boa mobilidade, os sons não me incomodam tanto, aprendi a cozinhar e me maquiar, aprendi a digitar, “tão rápido quanto a velocidade da luz”, aprendi até acessar Netiflix na TV, minhas plantas estão verdes e saudáveis, voltei a ser professora de Arte. Imagine você com uma PROFESSORA DE ARTE CEGA!

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CONVERSAR É LIBERTADOR

Um dia de manhã cedinho, descobri que precisava de ajuda, estava sofrendo e não queria ficar sozinha, por isso, liguei para uma colega de turma do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da UFMA, eu fazia mestrado e ela doutorado, havíamos saído poucas vezes juntas com colegas da turma e depois que eu tinha ficado cega não havia conversado com a Berenice, a Bere, mas, como todo mundo a chama de Bere eu a chamo de Berezinha, eu nem gosto de diminutivos, só a chamo assim, para me diferenciar das demais pessoas.

Falei para ela que havia perdido a visão, falei sobre muitas coisas e sem pausas, se por acaso nós nunca mais nos falássemos, eu já tinha falado tudo o que tinha para dizer. Depois de eu falar muito, ela me disse: vou combinar com as meninas para nós irmos te visitar. Além disso, ela falou que poderia me acompanhar quando eu quisesse sair.

Logo, que desliguei o telefone, fui fazer a poda das minhas plantas, enquanto pensava que havia descoberto o quanto é libertador falar sobre nossas dores, medos e experiências.

Em seguida, tive a ideia de pesquisar sobre mulheres cegas na internet, encontrei vários vídeos no youtube, alguns ensinavam pessoas cegas a cozinharem, a cuidar da casa, a se maquiarem, a falarem, etc. Encontrei até aulas de mobilidade. Fazer pesquisas na internet foi a primeira coisa que aprendi depois que fiquei cega.

Depois, da primeira conversa que tive com Bere, ficamos nos falando por mensagens de WhatsApp. Na semana seguinte, recebi a visita dela e de mais duas amigas de turma a Ivana e a Ângela. Nosso encontro foi incrível, sorrimos e conversamos muito. Depois desse dia, retornei para minhas aulas no mestrado e me envolvi em muitas atividades.

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ESTOU CEGA OU SOU CEGA?

Quando descobri que minha cegueira era irreversível, nenhum sentimento me envolveu. Pensei em ir almoçar numa churrascaria e beber uma cerveja bem gelada. Falei do meu desejo para meu esposo e ele disse: você acabou de ficar cega, como pode pensar em comida e bebida numa hora dessas?

Fiquei em silêncio e pensei que pessoas “normais” diante de uma situação semelhante à que eu estava passando ficariam triste. Mas, sempre ouvi meus familiares dizerem que eu não sou e nem nunca fui normal. Porque seria agora? Eu, naquele momento não estava triste, mas, evitava pensar como seria minha vida sem enxergar.

Um dia, depois de chegar em casa do hospital, andei em direção ao banheiro e a minha cabeça bateu no canto da porta, senti que escorria sangue na minha testa. Parei em frente um espelho, certifiquei-me tocando-o com as duas mãos para saber se o espelho estava na direção do meu rosto. Fiz esforço para enxergar o machucado da minha cabeça, mas, não consegui. Foi aí que chorei pela primeira vez por não conseguir enxergar.

Depois, desse acontecido tudo ficou triste e difícil para mim e pensei que não sobreviveria sem enxergar. Sentia medo do escuro, por isso, sempre estava com todas as lâmpadas acesas e como precaução, em caso faltasse energia, acendia muitas velas em cada cômodo do meu apartamento. Tinha dificuldades para me vestir, para comer, para falar com as pessoas, porque eu nunca sabia onde elas estavam e nunca entendia o som das palavras que elas pronunciavam, não conseguia andar sozinha e sentia muita dor de ouvido, com isso, passei evitar sair de casa. Cada dia que passava me afastava mais do meu esposo, nunca atendia ligações, não respondia E-mails e nem mensagens de WhatsApp. Eu, apenas chorava e quando não chorava era porque estava pensando que, “não, não sou cega”, apenas, “estou cega”, é um problema de saúde, mas, irei ficar boa…

Um dia de manhã cedinho, fiquei em frente um espelho por muito tempo. Era uma sexta feira. Sempre amei as sextas feiras, sabe: encontro com amigas, sorrisos, festas, barzinhos, músicas ao vivo, cervejas… mas, aquela sexta amanheceu triste, sem brilho e sem entusiasmo, me sentia sozinha, assustada e feia.

Fui na minha varanda e percebi que minhas plantas estavam morrendo, imaginei que se eu continuasse na situação em que estava, seria eu, quem acabaria morrendo. Nesse momento, descobri que precisava de ajuda. Busquei alguém, para que pudesse falar da minha vida e encontrei, vocês não imaginam o quanto essa conversa mudou minha vida!

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Sobre o que você faria se um dia acordasse cego (a)?

Olá!  Essas últimas semanas foram corridas, houveram muitas mudanças na minha vida, saiu o resultado de um concurso público que fiz no início do ano e de um seletivo e adivinhem, fui aprovada nos dois, e já estou trabalhando!

Tenho escutado alguns profissionais da educação dizerem que, provavelmente, EU SOU a única PROFESSORA DE ARTE CEGA NO MARANHÂO. Antes, do meu primeiro dia de trabalho mergulhei no meio de um montão de livros, textos, filmes, músicas e poesias para planejar minhas aulas de Arte.  Além disso, estou construindo uma metodologia própria e específica, pautada na oralidade, no diálogo entre alunas (os) e a professora para eu ministrar minhas aulas. Por isso, não pude escrever nas últimas semanas a continuação do post “o que você faria se um dia acordasse cego (a)?”

No primeiro post da série o “o que você faria se um dia acordasse cego (a)?” Contei para vocês como foi o dia em que acordei cega. Lembram? Quando falei que quando cheguei em casa depois de descobrir no hospital que minha cegueira era irreversível, passei um tempo pensando que eu era uma outra pessoa, “aquela mulher cega não era eu”. Nos próximos posts contarei como foi meu processo de adaptação e aceitação depois que fiquei cega. Leiam e deixem seu comentário!

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Curiosidades e entretenimento

O QUE VOCÊ FARIA SE UM DIA ACORDASSE CEGO (A)?

Hoje vou falar para você o que eu fiz quando fiquei cega, aliás, primeiro vou lhe contar como fiquei cega. Mas, antes de começar a contar, quero lhe dizer que ficar cega foi a coisa mais importante, desafiante e incrível que aconteceu na minha vida!

Na manhã de um 17 de abril qualquer, acordei bem cedinho sem conseguir ver, passei alguns segundos em frente ao espelho, tentando abrir meus olhos com as duas mãos, mesmo assim não conseguia ver, deitada, passei vários minutos abrindo e fechando os olhos, pensando que esse exercício faria eu voltar a ver. Cerca de dez minutos abrindo e fechando os olhos, senti, como se houvesse saído um tampão dos meus ouvidos, de repente, ouvia muitos barulhos, sons cheguei a ouvir até sussurros do meu vizinho que mora no apartamento num andar depois do meu, as orações da manhã da vizinha do lado, ouvia o som de todos os meus órgãos, o chão parecia distante e meu corpo, desiquilibrado.

Murmurei baixinho: estou cega… fiz uma breve retrospectiva da minha vida, colocando todos meus sonhos e gostos no passado, porque pensei que minha vida havia acabado. Lembrei que recentemente havia completado trinta anos e estava cursando um dos cursos de pós-graduação mais concorridos do país, havia passado por algumas graduações na Universidade Federal do Maranhão, havia passado em um concurso, mas, como não gostei da experiência, resolvi pedir exoneração para me dedicar aos estudos, amava sair com amigas, amava viajar, cultivava alimentos orgânicos, gostava de assistir óperas, ir ao cinema, desenhar e fazer xilogravuras, além, de declamar poemas em voz alta, quando não tinha ninguém para conversar. Lembrei ainda, que vivia um casamento feliz.

Parei de pensar e chamei meu esposo e disse de uma maneira calma: “estou cega”. Ele pensou que se tratava de uma brincadeira boba. Chegou perto de mim, com a intenção de me repreender, mas, ficou estático ao me olhar sentada na cama, pegou no meu rosto e disse que meus olhos estavam muito vermelhos. Ouvi sua voz trêmula, suas mãos tremiam e estavam frias e suadas. Olhei para ele, mas, não conseguia mais enxergar as expressões do seu rosto.

Ficamos cerca de três minutos em silêncio, até que eu o chamei de lindo. Não sei o porquê, mas, naquele dia, meu esposo parecia mais lindo, mesmo eu não podendo ver seu rosto, eu podia sentir sua pele e seu coração como nunca havia sentido. Ele não conseguia se mover, ficou parado e pensativo. Eu levantei e fui preparar nosso café da manhã. Em seguida fomos para o hospital, o diagnóstico saiu depois de muitos exames, enfim, a cegueira, era irreversível.

Ao ouvir o diagnóstico meu esposo ficou desapontado e desesperado, perguntou ao médico se era possível um transplante que ele poderia me doar um olho… reclamou… chorou e depois ficou em silêncio profundo. Percebi o quanto ele estava frágil naquele momento e escolhi ser forte e resistir por nós dois.

No dia em que fiquei cega, não chorei e nem gritei, apenas, senti saudades da minha infância, da vida na roça e dos meus irmãos. Pensei nesses momentos felizes da minha vida, para não pensar que naquele momento estava só eu e a cegueira, era, eu e ela.

Passei um determinado tempo para descobrir que minha cegueira não é a “OUTRA”, ou era “OUTRA” ou “ELA”, demorei entender, que a cegueira é uma determinante da minha identidade, que expressa o que sou e é uma das razões para minhas lutas coletivas e individuais, mas, isso é assunto para o próximo post.

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Descrição da imagem: minha foto. Estou com o rosto frontal, sorrindo, usando uma camiseta do projeto Resista como uma mulher cega na cor amarela, estou segurando minha bengala de alumínio na mão esquerda e uso óculos escuros. Fim da descrição.

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Educação democrática e inclusiva

Educação escolar de surdocegos no Brasil

A Educação Surdocegos nasceu nos EUA. No Brasil a educação escolar de pessoas surdocegas teve início na década de 1960, após a ativista social surdocega Helen Keller vir ao Brasil. Keller, considerada nos tempos atuais a mais surpreendente Surdacega de todos os tempos. Sua visita motivou a educadora Nice Tonhozi Saraiva, que trabalhava no processo de escolarização de pessoas cegas no Instituto de Cegos Padre Cícero em São Paulo a trabalhar na educação escolar de surdocegos a partir de 1992.

Foi Nice saraiva que fundou o primeiro centro educacional para pessoas surdocegas no Brasil a SEADAV – Serviço de Atendimento ao Deficiente Audiovisual.

Saraiva, já trabalhando na Educação de cegos no Instituto de Cegos “Padre Chico” em São Paulo dedicou-se também a Educação de Surdocegos a partir de 1962 quando tão logo voltou dos EUA.

Em 1963, por intervenção do estado a SEADAV foi transferida de São Paulo para São Bernardo do Campo.

Em 1968, a SEADAV passou a se chamar ERDAV – Escola Residencial para Deficientes Audiovisuais.

Em 1977, para garantir maior autonomia da escola, foi novamente alterada e passa a ser chamada de FUMAS – Fundação Municipal Anne Sullivan, que ficou sendo a mantenedora da Escola de Educação Especial Anne Sullivan, que funciona até os dias de hoje.

No entanto, a educação escolar de surdocegos no Brasil só passou a ser impulsionada na década de 1990, devido o apoio de instituições estrangeiras, como a Sense Internacional Latino América e a Perkins School, pela promoção de cursos de capacitação na área de surdocegueira, promoção de eventos e produção de impressos informativos.

De acordo com Farias (2015) pesquisas sobre Surdocegueira e educação escolar de surdocegos no Brasil estão dando seus primeiros passos, iniciados no limiar do século XXI, a partir da publicação pelo Ministério de Educação do “Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental: Deficiência Múltipla” pela Secretaria de Educação Especial em 2000.

A entrada no século XXI é demarcada pelo compromisso ético e político de garantir a universalização da educação básica e a qualidade da educação e de promover o respeito à diversidade humana. De forma transversal a estes aspectos, e como condição para universalizar a educação básica, emerge o debate sobre a organização e a função da Educação Inclusiva como uma ação política, cultural, social e pedagógica, desencadeada em defesa do direito de todos os alunos de estarem juntos, aprendendo e participando, sem nenhum tipo de discriminação. A educação inclusiva constitui um paradigma educacional fundamentado na concepção de direitos humanos, que conjuga igualdade e diferença como valores indissociáveis, e que avança em relação à ideia de equidade formal ao contextualizar as circunstâncias históricas da produção da exclusão dentro e fora da escola.

Nesse contexto foi criada as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, aprovada em 03 de julho de 2001. O art. 8º, VIII, que destaca a flexibilidade temporal do ano letivo, assim determinando: 

Temporalidade flexível do ano letivo para atender as necessidades educacionais especiais de alunos com deficiência mental ou com graves deficiências múltiplas, de forma que possam concluir em tempo maior o currículo previsto para a série/etapa escolar, principalmente nos anos finais do ensino fundamental, conforme estabelecido por normas dos sistemas de ensino, procurando-se evitar grandes defasagens idade/série.

Esta diretriz tem como fundamentação legal a Constituição de 1988, a Lei 10.172/01 – Plano Nacional de Educação, Lei de Integração 7.853/89, Lei 8.069/90 – ECA, Lei 9.394/96 – LDBEN, Portaria/MEC 1.679/99 – Educação superior e a Declaração de Salamanca de 1994. A declaração de Salamanca de 1994 é o documento que mais destaca surdocegueira e os surdocegos em seu artigo 21 destaca às Políticas educacionais de surdos e de Surdocegos.

O art. 10 das Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica destaca que: 

Os alunos que apresentam necessidades educacionais especiais e requeiram atenção individualizada nas atividades da vida autônoma e social, ajudas e apoios intensos e contínuos, bem como adaptações curriculares tão significativas que a escola comum não consiga promover, podem ser atendidos, em caráter extraordinário, em escolas especiais, públicas ou privadas, atendimento esse complementado, sempre que necessário e de maneira articulada por serviços de saúde, trabalho e assistência social.

Assim, é garantido ao aluno surdocego uma educação escolar individualizada em que o trabalho é desenvolvido entre um professor para cada educando. Esse processo é praticamente impossível do ponto de vista prático-metodológico o contrário.  O art. 12, inciso 2º descreve que:

Deve-se assegurada, no processo educativo de alunos que apresentam dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais educandos, a acessibilidade aos conteúdos curriculares, mediante a utilização de linguagens e códigos aplicáveis, como o sistema braille e a língua de sinais, sem prejuízo do aprendizado da língua portuguesa, facultando-lhes e as suas famílias a opção pela abordagem pedagógica que julgarem adequada, ouvidos os profissionais especializados em cada caso.

Atualmente, existem algunas instituições empenhadas em promover a inclusão social de quem possui surdocegueira. Entre elas encontram-se: Associação Brasileira de Pais e Amigos dos Surdocegos e Múltiplos Deficientes Sensoriais (Abrapascem), Associação Brasileira de Surdocegueira (Abrasc), Associação para Deficientes da Áudio Visão (Adefav – dirigida pela primeira educadora de surdocegos no Brasil, Ana Maria de Barros Silva), Ahimsa – Associação Educacional para Múltipla Deficiência, Escola Anne Sullivan, Instituto Benjamin Constant, Centro de Treinamento e Reabilitação da Audição (Centrau) e Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e ao Múltiplo Deficiente Sensorial (congrega profissionais, instituições, pais e surdocegos), Centro de Integração Vítor Eduardo (Cive), entre outras.

No Maranhão não existe nenhum centro, instituto ou escola que seja específico para  a educação de surdocegos.

REFERÊNCIAS

Educadores discutem desafios da inclusão das pessoas surdocegas. Matéria do jornal Comércio, publicada em: 13 Novembro 2017 14:40:30. Disponível em:www.adjorisc.com.br/jornais/jornaldocomercio/educação/educadores-discutem-desafios-da-inclusão-das-pessoas-surdocegas-1.2000734. Acesso em: 18.05.2019. 10:h34.

GARCIA, Alex. Surdocegueira: empírica e científica. Disponível em: http://www.agapasm.com.br/surdocegueiraempiricaecientifica/Surdocegueira%20Empírica%20e%20Científica.pdf. Acesso em: 17.05.2019. 07h06.

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Educação democrática e inclusiva

Técnicas e recursos que podem ser utilizados no processo de escolarização de surdocegos

Este post tem como referência o livro Surdocegueira: empírica e científica de Alex Garcia

Braille, Língua de Sinais, alfabeto digital, língua de sinais adaptada, Braille tátil, escritas na mão, guia-intérprete compreendido como recurso comunicativo, são exemplos de recursos que podem ser utilizados no processo de escolarização de pessoas surdocegas.

A Surdocegueira possui um potencial poder retaliativo da estrutura e desenvolvimento humano. Estas características podem ser em parte transformadas, à medida que, a acessibilidade, em seus diversos campos de atuação for colocada em prática.

A Acessibilidade, enquanto mecanismos de atuação e promoção da pessoa surdocega, deve possibilitar o acesso a comunicabilidade, através de meios, respeitando e considerando suas dificuldades e características plurais e ao mesmo tempo, individuais.

O Direito à Comunicabilidade garante o direito a à Livre Expressão, que para pessoas surdocegas, é um direito constantemente negado.

Algumas sugestões para a comunicação na educação escolar de surdocegos:

Manter a luz na direção de quem fala;

 Manter-se na linha de visão;

 Não se mover muito, e ao usar gestos, manter as mãos à altura do rosto se ainda faz LOF e ao nível do peito se não o faz;

Separe com cuidado as palavras, tente evitar as letras em script, pois é difícil para a pessoa com US ler o contorno das letras;

Usar um “pontador” para direcionar os olhos do estudante;

Manter os sinais dentro do campo de visão do aluno;

Manter o mínimo de alfabeto manual;

Usar sinais falando normalmente; – manter claros os sinais e sentenças;

Mantenha uma distância confortável 4 a 5 pés é razoável;

 Busque conhecer e desenvolver formas aumentativas de comunicação, como o alfabeto manual dactilológico, a escrita na mão international Standard Manual Alphabet;

Princípios norteadores da educação escolar de surdocegos

a) Atitude do Educador b) Ambiente de Educação/aprendizagem c) Relações com o Surdocego

Comportamentos comuns de crianças Surdocegas na escola

Demonstração de que não deseja interagir com nada;

Ela pode não ser capaz de olhar e sorrir a outros. Poderá ser complexo no início dizer se a criança é ou está feliz ou não;

As interações terão que incluir mais abraços e movimentos;

A criança surdocega pode não alcançar as destrezas e habilidades motoras para sentar, parar, rolar e caminhar na mesma idade que uma criança que não é surdocega;

A criança pode parecer assustada de se mover fora de seu espaço corporal;

A criança poderá ficar sempre ou muito tempo de cabeça abaixada, podendo tocar os olhos de forma constante ou mover suas mãos e dedos para obter estimulação;

Em um primeiro momento a criança pode não querer ser tocada ou tocar as pessoas e os objetos;

Poderá, com frequência, ter as noites e os dias confundidos;

 Pode não querer usar aparelhos de audição e/ou óculos;

Pode nunca aprender a falar (dependendo do grau de sua perda auditiva), porém pode aprender a se comunicar de alguma maneira. Tão somente será uma maneira diferente da fala;

A criança poderá comunicar-se tendo como forma condutas inapropriadas e/ou inadequadas;

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Pesssoas com deficiência

Surdocegueira

Este post tem como referência o livro Surdocegueira: empírica e científica de Alex Garcia

Definição

O termo surdocegueira, foi adotada na 1° Conferência Mundial Hellen Keller, que aconteceu no dia 16 de setembro de 1977, em Nova York., a qual conceitua surdocegos como: indivíduos que têm uma perda substancial de audição e visão, de tal modo que a combinação das suas deficiências causa extrema dificuldade na conquista de habilidades educacionais, vocacionais, de lazer e sociais.

Pessoas surdocegas segundo a legislação nacional e internacional são consideradas pessoas com deficiência múltipla.

Classificação

Surdocegueira pré-simbólica: pessoas que são congenitamente Surdocegos ou aqueles que adquiriram a surdocegueira antes da estruturação da linguagem. A pré-linguagem é a característica fundamental nesta classificação, mas, isso não significa que, ao nascer, um indivíduo Surdocego não apresente resíduo audiovisual, mesmo que rudimentares.

Surdocegueira pós- simbólica: São pessoas com surdocegueira adquirida, após a estruturação da linguagem; surdez congênita com posterior cegueira; cegueira congênita com posterior surdez em indivíduos que apresentam perdas substanciais de audição e visão.  Há relativamente poucas pessoas que são totalmente Surdacegas e, destas, somente uma pequena fração não possui audição e visão desde o nascimento.

Legislação que garante o direito da pessoa Surdocega

Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948; A Declaração dos Direitos das Pessoas com Deficiência de 1975; A Promulgação Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as pessoas com deficiência de 2001; A declaração de Salamanca de 1994; Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, aprovada em 03 de julho de 2001; As Normas Uniformes das Nações Unidas para a Participação e Igualdade das Pessoas com Deficiência de 1993.

O que são normas uniformes:

São um conjunto de vinte e duas disposições favoráveis que contemplam praticamente toda a vida de uma pessoa com deficiência. Foram aprovadas pela Assembleia Geral das Nações Unidas em sua 48º sessão, mediante resolução 48/93 de 20 de dezembro de 1993.

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Educação democrática e inclusiva

Recursos utilizados por pessoas surdocegas para leitura

Este post tem como referência o livro Surdocegueira: empírica e científica de Alex Garcia

A técnica Braille consiste em pontos em relevo que combinados formam letras. Para escrevê-los usamos uma chapa, também chamada de “reglete”, e uma punção. Usamos também uma brailler – máquina de escrever constituída de seis teclas. Uma característica importante da técnica braille é que ela independe de materiais físicos como o reglete, a punção ou a brailler para ser comunicativa. Apenas devemos entender que a técnica braille constitui-se de “seis pontos não obrigatoriamente em relevo” para estabelecer uma comunicação, ou seja, onde houver a possibilidade de trabalharmos “seis pontos” a técnica braille estará sendo usada e bem aceita.

Tellethouch: Este aparelho tem teclado de uma máquina Braille e um teclado normal. O teclado Braille, assim como o teclado normal levantam na parte de trás do aparelho uma pequena chapa de metal, a cela braille, uma letra de cada vez. A Tellethouch constitui-se, apesar de sua idade de criação, um dos principais meios de interação do surdocego com outras pessoas. Ao interlocutor do surdocego basta saber ler. Sabendo ler, pressionará as teclas normais da tellethouch como se estivesse redigindo um texto escrito qualquer.

Tablitas: Fabricadas em plástico sólido, representam em relevo as letras e os números ordinários, assim como caracteres do sistema braille. As letras e os números estão superpostos aos caracteres braille. O dedo da pessoa surdocega é levado de uma letra/número a outra (o) ou de um caractere a outro, estabelecendo desta forma a comunicação.

Diálogos: inclui uma máquina braille/aparelho de escrita, uma máquina de escrever eletrônica, um gravador e uma conexão telefônica. A pessoa surdocega escreve na máquina braille. O texto é impresso no papel da máquina de escrever para a pessoa vidente ler e vice-versa. As conversas podem ser estocadas na memória do aparelho se assim for desejado. A pessoa que receber a conexão de telefone precisa do “diálogo”, um tele-texto, uma impressora equipada com modem de um computador.

Alfabeto Dactilológico: Cada uma das letras do alfabeto corresponde a uma determinada posição dos dedos da mão. Trata-se do alfabeto manual utilizado pelas pessoas surdas. Apenas que neste caso está adaptada à versão tátil.

Letras de Forma: um método verdadeiramente simples. A única condição necessária para que funcione é que nosso interlocutor conheça as letras maiúsculas do alfabeto: As letras são feitas na palma da mão, ou em qualquer outra parte do corpo do surdocego, uma sobre a outra. O próprio dedo indicador do interlocutor ou o dedo do surdocego é usado como caneta.

Tadoma: Quando falamos em tadoma, estamos nos referindo ao método de vibração do ensino da fala. A criança que está sendo ensinada no tadoma tem que colocar uma e inicialmente as duas mãos na face da pessoa que está falando. Com bastante treino e prática, a possibilidade de se comunicar através deste método tende a ser grande.

Sistema Pictográfico: Os símbolos de comunicação pictóricos – Picture Communication Symbols (PCS) fazem parte de um Sistema de Comunicação Aumentativa (CAA) que se referem ao recurso, estratégias e técnicas que complementam modos de comunicação existentes ou substituem as habilidades de comunicação existentes. Em síntese, o sistema pictográfico consiste de símbolos, figuras, etc, que significam ações, objetos, atividades que entre outras características podem servir como símbolos comunicativos, tanto receptivamente quanto expressivamente.

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Pesssoas com deficiência

Legislação nacional para pessoas com deficiência por ordem cronológica

Este post é uma adaptação do texto sobre legislação e documentos que embasam a Política de Educação Inclusiva no Brasil do site “Acessibilidade já!”

1988 – Constituição da República Federativa do Brasil

Estabelece “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (art.3º inciso IV). Define, ainda, no artigo 205, a educação como um direito de todos, garantindo o pleno desenvolvimento da pessoa, o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho. No artigo 206, inciso I, estabelece a “igualdade de condições de acesso e permanência na escola” como um dos princípios para o ensino e garante, como dever do Estado, a oferta do atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino (art. 208).

1989 – Lei nº 7.853/89

Dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência e sua integração social. Define como crime recusar, suspender, adiar, cancelar ou extinguir a matrícula de um estudante por causa de sua deficiência, em qualquer curso ou nível de ensino, seja ele público ou privado. A pena para o infrator pode variar de um a quatro anos de prisão, mais multa.

1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº. 8.069/90

O artigo 55 reforça os dispositivos legais supracitados ao determinar que “os pais ou responsáveis têm a obrigação de matricular seus filhos ou pupilos na rede regular de ensino”.

1990 – Declaração Mundial de Educação para Todos

Documentos internacionais passam a influenciar a formulação das políticas públicas da educação inclusiva.

1994 – Declaração de Salamanca

Dispõe sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educacionais especiais.

1994 – Política Nacional de Educação Especial

Em movimento contrário ao da inclusão, demarca retrocesso das políticas pública ao orientar o processo de “integração instrucional” que condiciona o acesso às classes comuns do ensino regular àqueles que “(…) possuem condições de acompanhar e desenvolver as atividades curriculares programadas do ensino comum, no mesmo ritmo que os alunos ditos normais”.

1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei nº 9.394/9

No artigo 59, preconiza que os sistemas de ensino devem assegurar aos alunos currículo, métodos, recursos e organização específicos para atender às suas necessidades; assegura a terminalidade específica àqueles que não atingiram o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental em virtude de suas deficiências e; a aceleração de estudos aos superdotados para conclusão do programa escolar. Também define, dentre as normas para a organização da educação básica, a “possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado” (art. 24, inciso V) e “(…) oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames” (art. 37). Em seu trecho mais controverso (art. 58 e seguintes), diz que “o atendimento educacional especializado será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns do ensino regular”.

1999 – Decreto nº 3.298 que regulamenta a Lei nº 7.853/89

Dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, define a educação especial como uma modalidade transversal a todos os níveis e modalidades de ensino, enfatizando a atuação complementar da educação especial ao ensino regular.

2001 – Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (Resolução CNE/CEB nº 2/2001)

Determinam que os sistemas de ensino devem matricular todos os alunos, cabendo às escolas organizarem-se para o atendimento aos educandos com necessidades educacionais especiais (art. 2º), o que contempla, portanto, o atendimento educacional especializado complementar ou suplementar à escolarização. Porém, ao admitir a possibilidade de substituir o ensino regular, acaba por não potencializar a educação inclusiva prevista no seu artigo 2º.

2001 – Plano Nacional de Educação – PNE, Lei nº 10.172/2001

Destaca que “o grande avanço que a década da educação deveria produzir seria a construção de uma escola inclusiva que garanta o atendimento à diversidade humana”.

2001 – Convenção da Guatemala (1999), promulgada no Brasil pelo Decreto nº 3.956/2001

Afirma que as pessoas com deficiência têm os mesmos direitos humanos e liberdades fundamentais que as demais pessoas, definindo como discriminação com base na deficiência toda diferenciação ou exclusão que possa impedir ou anular o exercício dos direitos humanos e de suas liberdades fundamentais.

2002 – Resolução CNE/CP nº1/2002

Estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, define que as instituições de ensino superior devem prever em sua organização curricular formação docente voltada para a atenção à diversidade e que contemple conhecimentos sobre as especificidades dos alunos com necessidades educacionais especiais

2002 – Lei nº 10.436/02

Reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão, determinando que sejam garantidas formas institucionalizadas de apoiar seu uso e difusão, bem como a inclusão da disciplina de Libras como parte integrante do currículo nos cursos de formação de professores e de fonoaudiologia.

2003 – Portaria nº 2.678/02

Aprova diretriz e normas para o uso, o ensino, a produção e a difusão do Sistema Braille em todas as modalidades de ensino, compreendendo o projeto da Grafia Braile para a Língua Portuguesa e a recomendação para o seu uso em todo o território nacional.

2004 – Cartilha – O Acesso de Alunos com Deficiência às Escolas e Classes Comuns da Rede Regular

O Ministério Público Federal divulga o documento com o objetivo de disseminar os conceitos e diretrizes mundiais para a inclusão.

2004 – Decreto nº 5.296/04

Regulamenta as leis nº 10.048/00 e nº 10.098/00, estabelecendo normas e critérios para a promoção da acessibilidade às pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida (implementação do Programa Brasil Acessível).

2005 – Decreto nº 5.626/05

Regulamenta a Lei nº 10.436/02, visando à inclusão dos alunos surdos, dispõe sobre a inclusão da Libras como disciplina curricular, a formação e a certificação de professor, instrutor e tradutor/intérprete de Libras, o ensino da Língua Portuguesa como segunda língua para alunos surdos e a organização da educação bilíngue no ensino regular.

2006 – Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos

Lançado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, pelo Ministério da Educação, pelo Ministério da Justiça e pela UNESCO. Objetiva, dentre as suas ações, fomentar, no currículo da educação básica, as temáticas relativas às pessoas com deficiência e desenvolver ações afirmativas que possibilitem inclusão, acesso e permanência na educação superior.

2007 – Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE

Traz como eixos a acessibilidade arquitetônica dos prédios escolares, a implantação de salas de recursos multifuncionais e a formação docente para o atendimento educacional especializado.

2007 – Decreto nº 6.094/07

Estabelece dentre as diretrizes do Compromisso Todos pela Educação a garantia do acesso e permanência no ensino regular e o atendimento às necessidades educacionais especiais dos alunos, fortalecendo a inclusão educacional nas escolas públicas.

Estabelece dentre as diretrizes do Compromisso Todos pela Educação a garantia do acesso e permanência no ensino regular e o atendimento às necessidades educacionais especiais dos alunos, fortalecendo a inclusão educacional nas escolas públicas.

2008 – Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva

Traz as diretrizes que fundamentam uma política pública voltada à inclusão escolar, consolidando o movimento histórico brasileiro.

2009 – Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência

Aprovada pela ONU e da qual o Brasil é signatário. Estabelece que os Estados Parte devem assegurar um sistema de educação inclusiva em todos os níveis de ensino. Determina que as pessoas com deficiência não sejam excluídas do sistema educacional geral e que as crianças com deficiência não sejam excluídas do ensino fundamental gratuito e compulsório; e que elas tenham acesso ao ensino fundamental inclusivo, de qualidade e gratuito, em igualdade de condições com as demais pessoas na comunidade em que vivem (Art.24).

2008 – Decreto nº 6.571

Dá diretrizes para o estabelecimento do atendimento educacional especializado no sistema regular de ensino (escolas públicas ou privadas).

2009 – Decreto nº 6.949

Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Esse decreto dá ao texto da Convenção caráter de norma constitucional brasileira.

2009 – Resolução No. 4 CNE/CEB

Institui diretrizes operacionais para o atendimento educacional especializado na Educação Básica, que deve ser oferecido no turno inverso da escolarização, prioritariamente nas salas de recursos multifuncionais da própria escola ou em outra escola de ensino regular. O AEE pode ser realizado também em centros de atendimento educacional especializado públicos e em instituições de caráter comunitário, confessional ou filantrópico sem fins lucrativos conveniados com a Secretaria de Educação (art.5º).

2011 – Plano Nacional de Educação (PNE)

Projeto de lei ainda em tramitação. A Meta 4 pretende “Universalizar, para a população de 4 a 17 anos, o atendimento escolar aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na rede regular de ensino.”. Dentre as estratégias, está garantir repasses duplos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB) a estudantes incluídos; implantar mais salas de recursos multifuncionais; fomentar a formação de professores de AEE; ampliar a oferta do AEE; manter e aprofundar o programa nacional de acessibilidade nas escolas públicas; promover a articulação entre o ensino regular e o AEE; acompanhar e monitorar o acesso à escola de quem recebe o benefício de prestação continuada.

2012 – Lei nº 12.764

Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista; e altera o § 3º do art. 98 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990.

Por tipo de documentos:

LEIS

Constituição Federal de 1988 – Educação Especial

Lei nº 9394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBN

Lei nº 9394/96 – LDBN – Educação Especial

Lei nº 8069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente – Educação Especial

Lei nº 8069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente

Lei nº 10.098/94 – Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências

Lei nº 10.436/02 – Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências

Lei nº 7.853/89 – CORDE – Apoio às pessoas portadoras de deficiência

Lei Nº 8.859/94 – Modifica dispositivos da Lei nº 6.494, de 7 de dezembro de 1977, estendendo aos alunos de ensino especial o direito à participação em atividades de estágio

Lei nº 12.764 – Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista; e altera o § 3º do art. 98 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990.

DECRETOS

Decreto Nº 186/08 – Aprova o texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e de seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova Iorque, em 30 de março de 2007

Decreto nº 6.949 – Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007

Decreto Nº 6.094/07 – Dispõe sobre a implementação do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação

Decreto Nº 6.215/07 – Institui o Comitê Gestor de Políticas de Inclusão das Pessoas com Deficiência – CGPD

Decreto Nº 6.214/07 – Regulamenta o benefício de prestação continuada da assistência social devido à pessoa com deficiência

Decreto Nº 6.571/08 – Dispõe sobre o atendimento educacional especializado

Decreto nº 5.626/05 – Regulamenta a Lei 10.436 que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS

Decreto nº 2.208/97 – Regulamenta Lei 9.394 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional

Decreto nº 3.298/99 – Regulamenta a Lei no 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências

Decreto nº 914/93 – Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência

Decreto nº 2.264/97 – Regulamenta a Lei nº 9.424/96

Decreto nº 3.076/99 – Cria o CONADE

Decreto nº 3.691/00 – Regulamenta a Lei nº 8.899/96

Decreto nº 3.952/01 – Conselho Nacional de Combate à Discriminação

Decreto nº 5.296/04 – Regulamenta as Leis n° 10.048 e 10.098 com ênfase na Promoção de Acessibilidade

Decreto nº 3.956/01 – (Convenção da Guatemala) Promulga a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência.

PORTARIAS

Portaria nº 976/06 – Critérios de acessibilidade os eventos do MEC

Portaria nº 1.793/94 – Dispõe sobre a necessidade de complementar os currículos de formação de docentes e outros profissionais que interagem com portadores de necessidades especiais e dá outras providências

Portaria nº 3.284/03 – Dispõe sobre requisitos de acessibilidade de pessoas portadoras de deficiências, para instruir os processos de autorização e de reconhecimento de cursos, e de credenciamento de instituições

Portaria nº 319/99 – Institui no Ministério da Educação, vinculada à Secretaria de Educação Especial/SEESP a Comissão Brasileira do Braille, de caráter permanente Portaria nº 554/00 – Aprova o Regulamento Interno da Comissão Brasileira do Braille

Portaria nº 8/01 – Estágios

RESOLUÇÕES

Resolução nº4 CNE/CEB

Resolução CNE/CP nº 1/02 – Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores

Resolução CNE/CEB nº 2/01 – Normal 0 21 Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica

Resolução CNE/CP nº 2/02 – Institui a duração e a carga horária de cursos

Resolução nº 02/81 – Prazo de conclusão do curso de graduação

Resolução nº 05/87 – Altera a redação do Art. 1º da Resolução nº 2/81

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Pesssoas com deficiência

O que diz a Constituição Federal de 1988 sobre a pessoa com deficiência?

TÍTULO II – Dos Direitos e Garantias Fundamentais

CAPÍTULO I – Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos 

Art. 3º. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

(…) IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes 

CAPÍTULO II – Dos Direitos Sociais

(…)

Art. 7º. São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

(…) XXXI- proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência.       

TÍTULO III – Da Organização do Estado

APÍTULO II – DA UNIÃO

(…)

Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:

(…) II – cuidar da saúde e assistência pública, da proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência;

Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre:

(…) XIV – proteção e integração social das pessoas portadoras de deficiência. 

CAPÍTULO VII – Da administração Pública

SEÇÃO I – Disposições Gerais

Art. 37. A administração pública direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e, também, ao seguinte:

(…) VIII – a lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão.

TÍTULO VIII – Da Ordem Social 

CAPÍTULO II – Da Seguridade Social

SEÇÃO IV – Da assistência Social 

Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos:

(…) IV – a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária;

V – a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei.

CAPÍTULO III – Da Educação, da Cultura e do Desporto

SEÇÃO I – Da Educação

(…)

Art. 208. O dever do estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

(…) III – atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;

IV – acesso aos níveis mais elevados de ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um. 

CAPÍTULO VII – Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso

(…)

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

 §1º- O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da criança e do adolescente, admitida a participação de entidades não governamentais e obedecendo os seguintes preceitos:

(…) II – criação de programas de prevenção e atendimento especializado para os portadores de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de preconceitos e obstáculos arquitetônicos.

(…) §2º- A lei disporá sobre normas de construção de logradouros e edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, a fim de garantir o acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência. 

TÍTULO IX – Das Disposições Constitucionais Gerais

(…)

Art. 244. A lei disporá sobre a adaptação dos logradouros, dos edifícios de uso público e dos veículos de transporte coletivo atualmente existentes a fim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência, conforme o disposto no art. 227, 2º.

a Constituição de 1988 inaugurou um princípio de proteção. Avançou bastante com a questão da acessibilidade, por exemplo. Isso possibilitou à legislação infraconstitucional a tutela da acessibilidade, que afeta tanto idosos quanto pessoas com deficiência. Além disso, a CF-88 legou ao Ministério Público o papel de defensor dessas parcelas da população, quando deu ao MP um importante papel na defesa dos interesses individuais e coletivos. A partir da nova Constituição, surgiu a Lei 7.853/89, sobre os direitos das pessoas com deficiência; mais tarde, criou-se a Política Nacional do Idoso e, depois, o Estatuto do Idoso.

Na área da pessoa com deficiência, possibilitou a elaboração da Lei Brasileira de Inclusão. A Constituição de 1988 assimilou inteiramente, com status constitucional, a Convenção Internacional da Pessoa com Deficiência, que se harmoniza perfeitamente com a Constituição, a partir da qual foi possível elaborar mecanismos legais mais efetivos na defesa dos direitos dessas pessoas.

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resista como uma mulher cega!

OBRIGADA PELA SUA GENTIL E IMPORTANTE COLABORAÇÃO!

O projeto social Resista como uma mulher cega, que desenvolve trabalhos e atividades em defesa de direitos sociais individuais e coletivos por meio de palestras, oficinas e formações, em comunidades, associações, movimentos sociais, etc., de modo gratuito, agradece a empresa Vina Moda Confecções, localizada na rua Santa Quitéria, Jardim Eldorado, São Luís-MA, pela doação de vinte camisetas. Esta foi muito importante para o trabalho que estamos realizando nesse semestre que é disponibilizar informação e conhecimento de maneira acessível para pessoas com deficiência visual e auditiva em nosso site. Agradecemos-lhe pelo gesto nobre.

Seja você também um colaborador do nosso projeto! Siga nossa página no Twitter, no facebook, no Tumblr ou no Instagram ou entre em contato conosco pelo E-mail: resistacomoumamulhercega@gmail.com

Lembrem-se, para que nosso país seja próspero e inclusivo depende da participação de todos.

Divulgação das camiseta numa Palestra realizada no dia 13.05.2019 sobre violência sexual contra criança e adolescente com deficiência.

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Pesssoas com deficiência

CONCEITO DE PESSOA COM DEFICIÊNCIA

No início do século XX, após as duas grandes guerras e do avanço da industrialização e dos meios de comunicação de massa o termo utilizado era os incapacitados, traduzido como indivíduos sem capacidade, posteriormente, as “pessoas incapacitadas” passaram a serem identificadas pelo termo capacidade residual.

Mas, os termos não param por aí, com o passar dos anos, pessoas com algum tipo de deficiência passaram a ser chamados de inválidos, minorados, impedidos, descapacitados, excepcionais.

Em 1962, teve início nos Estados Unidos um movimento pelos direitos das pessoas com deficiência, o que resultou na criação do primeiro Centro de Vida Independente do todo o mundo. Essa mobilização alcançou o Brasil e resultou a inserção na Constituição brasileira de 1967, a partir da Emenda Constitucional No 1/1969, o uso do termo “deficiente”, que garantia acesso aos espaços públicos e proibia preconceitos e discriminações.

Em 1988, com a promulgação da Constituição Brasileira o termo deficiente mudou, passando a ser chamado de pessoa portadora de deficiência.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência destaca em seu preâmbulo que, “a deficiência resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras atitudinais e ambientais que impedem sua plena e efetiva participação na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas”.

Portanto, uma pessoa não é portadora de uma deficiência, mas, esta resulta das barreiras do ambiente físico e social. Com esta concepção se denominou o termo “pessoa com deficiência”.

O termo oficial atual é o definido pela Lei No 13.146, de 6 de julho de 2015, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, que considera pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.

Representação visual de pessoas com deficiência
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Pesssoas com deficiência

CLASSIFICAÇÃO E FORMAS DE DEFICIÊNCIA

A Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde –CIF, é adotada como norma internacional para descrever e avaliar a saúde e as deficiências das pessoas.

No Brasil, as diferentes formas de deficiência estão consideradas no Decreto No 5.296/2004:

Deficiência física: “alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções”.

Deficiência auditiva: “perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz”.

Deficiência visual: “cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores”.

Deficiência intelectual: “funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas, tais como: 1. comunicação; 2. cuidado pessoal; 3. habilidades sociais; 4. utilização dos recursos da comunidade; 5. saúde e segurança; 6. habilidades acadêmicas; 7. lazer; e 8. trabalho”.

Deficiência múltipla: associação de duas ou mais deficiências.

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Pesssoas com deficiência

FIQUE SABENDO!

Pessoa com Deficiência: é aquela que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas.

Barreiras: são obstáculos visíveis ou invisíveis, no ambiente ou na atitude, que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. Qualquer entrave que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento, a circulação com segurança e a possibilidade de as pessoas se comunicarem ou terem acesso à informação.

Acessibilidade: condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida.

A imagem a cima mostra a logomarca da acessibilidade, criada pelo Departamento de Informações Públicas da Organização das Nações Unidas – ONU. Descrição da imagem: uma figura simétrica conectada por quatro pontos a um círculo, azul, representando a harmonia entre o ser humano e a sociedade, e com os braços abertos, simbolizando a inclusão de pessoas com todas as habilidades, em todos os lugares.

Adaptação razoável: são modificações e os ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional ou indevido, quando requeridos em cada caso, a fim de assegurar que as pessoas com deficiência possam gozar ou exercer, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, todos os direitos humanos e liberdades fundamentais.

Tecnologias assistivas: são produtos, instrumentos, equipamentos ou tecnologia adaptados ou especialmente projetados para melhorar a funcionalidade da pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida, favorecendo a autonomia pessoal, total ou assistida. Também são denominadas como ajudas técnicas. Incluem também os cães-guia.

Desenho Universal: é a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados, na maior medida possível, por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico. O Desenho Universal não exclui as ajudas técnicas para grupos específicos de pessoas com deficiência, quando necessárias.

Discriminação por motivo de deficiência: é qualquer diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, com o propósito ou efeito de impedir ou impossibilitar o reconhecimento, o desfrute ou o exercício, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais nos âmbitos político, econômico, social, cultural, civil ou qualquer outro. Abrange todas as formas de discriminação, inclusive a recusa de adaptação razoável.

Pessoa com mobilidade reduzida: é aquela que, não se enquadrando no conceito de pessoa com deficiência, tenha, por qualquer motivo, dificuldade de movimentar-se, permanente ou temporariamente, gerando redução efetiva da mobilidade, flexibilidade, coordenação motora e percepção. São pessoas com idade igual ou superior a sessenta anos, gestantes, lactantes e pessoas com criança de colo, entre outras.

Rota acessível: trajeto contínuo, desobstruído e sinalizado, que conecta os ambientes externos ou internos de espaços e edificações, e que possa ser utilizado de forma autônoma e segura por todas as pessoas, inclusive aquelas com deficiência. A rota acessível externa pode incorporar estacionamentos, calçadas rebaixadas, faixas de travessia de pedestres, rampas. A rota acessível interna pode incorporar corredores, pisos, rampas, escadas, elevadores.

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Combate a violência e a discriminação Política

Ué se o governo cortou verbas das instituições de ensino federais para investir na educação básica, porque cortou verbas da educação básica?

O ministro da educação Abraham Weintraub falou esta semana durante uma audiência na Comissão de Educação no Senado que o foco do governo Bolsonaro será a educação básica, uma educação técnica, baseada em entrega de resultados e reconhecimento por mérito.

Como o governo vai centrar seu foco na educação básica se o MEC bloqueou R$ 914 milhões em políticas específicas para seu desenvolvimento. Somente do programa de apoio à infraestrutura de escolas do ensino básico, foram congelados R$ 273,3 milhões, cerca de 30% do total destinado, as creches e pré-escolas tiveram cortes de R$ 15 milhões. A alfabetização de jovens e adultos tiveram cortes de R$ 14 milhões dos R$ 34 milhões previstos no orçamento e a educação profissionalizante tão defendida pelo governo sofreu cortes de 25% do total de R$ 40 milhões. Os institutos federais sofreram cortes de R$ 860,4 milhões dos cerca de R$ 2,6 bilhões de orçamento discricionário? Esses valores foram levantados pela Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados e estão disponíveis no site da câmara e do senado federal.

Esses dados mostram que a justificativa que o ministro da educação utiliza para defender os cortes nas instituições de ensino federais são falsas.

Recentemente, o MEC bloqueou 30% do orçamento da UFBA, UFF e da UNB, os motivos apresentados pelo ministro da educação foi que essas universidades utilizavam as verbas para balbúrdia. Após, críticas, o MEC alterou a medida bloqueando 30% das verbas em todas as instituições de ensino federais e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que financia programas de pós-graduação, perdeu R$ 819,3 milhões do total de R$ 4,1 bilhões da verba.

Portanto, o principal motivo para o corte de verbas é o caráter político-ideológico do atual governo, que é avesso a todo e qualquer princípio democrático. Esse caráter, antidemocrático, discriminatório e excludente constituí as principais metas do governo Bolsonaro, no que se refere a educação, como por exemplo, Gestão técnica orientada à entrega de resultados, Construção de um sistema educacional nacional orientado pelo mérito e para o mérito, Fixação de incentivos para a adoção das melhores práticas nacionais e internacionais em gestão da educação, Disciplina, ordem, respeito a todos no espaço da educação público e privados, Investimento em capital humano para aumentar a competitividade da economia brasileira.

Vale lembra que, o Fies e o Prouni, programas nacionais de educação que constitui a política de expansão do ensino superior, proporcionaram a milhares de pessoas que historicamente sempre estiveram em condições de desigualdades sociais e econômicas, a oportunidade de concluírem um curso superior e com isso, conseguirem melhores empregos, realizarem pesquisas, participarem de forma plena na sociedade, contribuindo para a redução das desigualdades.

As diretrizes da educação brasileira apresentada pelo governo terão princípios autoritários nunca visto no país. Será proibido pensar e agir democraticamente e uma educação em poucas pessoas terão acesso.

Fonte: ANDES – UFC

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Educação democrática e inclusiva Política

O QUE A REFORMA DA PREVIDÊNCIA TEM A VER COM OS CORTES NA EDUCAÇÃO?

No dia 07 deste mês o ministro da educação Abraham Weintraub afirmou durante uma audiência na Comissão de Educação no Senado que não haverá corte no orçamento das universidades e instituições de ensino federais, mas, sim um contingenciamento e assim, que for aprovada a reforma da previdência e a economia do  país voltar a crescer o recurso para a educação voltará.

A afirmação do ministro reforça as pressões  e ameaças do governo em convencer os brasileiros sobre a necessidade da reforma da previdência. Sendo que, a justificativa de que existe um déficit da previdência é contestada a muito tempo pela Associação Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal, advogados previdenciários, pesquisadores e pelo relatório do senado que afirma não existir um déficit na previdência. Esse relatório afirma que, o que há de fato é um superávit e grandes devedores que não são cobrados pela Procuradoria da Fazenda Nacional. Leia o relatório do senado completo no link abaixo.

http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/539169/Relatório%20Final_CPIPREV.pdf?sequence=1

Não é de hoje que há inúmeras pesquisas que mostram que a reforma da previdência defendida pelo governo, beneficia somente banqueiros, empresários e ruralistas, que além de terem dívidas gigantescas perdoadas são os principais agentes responsáveis pelo aumento da desigualdade social no país.

Os defensores da reforma da previdência e apoiadores do governo Bolsonaro atacam a educação pública, principalmente, universidades e institutos federais, porque a educação é a principal ferramenta contra o autoritarismo, a intolerância e a favor da democracia e ao combate às desigualdades sociais.

Uma sociedade que tem acesso à educação é uma sociedade crítica, contestadora e defensora dos direitos sociais, da tolerância, da paz e preocupada em combater as desigualdades. É uma sociedade que dialoga, produz e divulga conhecimento. São essas as características que o atual governo quer impedir que a sociedade brasileira alcance.

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Educação democrática e inclusiva Política

PARA QUÊ EDUCAÇÃO? O IMPORTANTE É TER UMA ARMA DE FOGO!

A educação gratuita é um direito que deve ser garantido a todas as pessoas, é uma das principais ferramentas para o combate da desigualdade social e uma das principais características de um governo verdadeiramente democrático.

A Declaração Universal dos direitos humanos em seu artigo 26 determina que o direito à educação deve se vincular a três objetivos específicos: (1) pleno desenvolvimento da personalidade humana e fortalecimento do respeito aos direitos do ser humano e às liberdades fundamentais; (2) promoção da compreensão, da tolerância e da amizade entre todas as nações e a todos os grupos raciais e religiosos; (3) incentivo às atividades da ONU para a manutenção da paz.

Portanto, a educação é um direito social inalienável. Desde que Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil a educação tem sido um dos principais alvos de desmonte, recursos financeiros congelados, universidades, docentes, discentes, pesquisadores (as), reitores e profissionais da educação e todas as pessoas que defendem uma educação democrática, crítica, igualitária e para todos têm sidos perseguidos e ameaçados.

A atual gestão, foi construída a partir de um discurso de ódio, intolerância e discriminação, semelhante aos que Alexandr Pavlov, um dos idealizadores da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirmou ser um dos principais fatores para o desenvolvimento do fascismo e do nazismo.

As ações do atual governo são todas voltadas para a destruição de direitos sociais básicos como a saúde, a educação e o direito à terra. Por outro lado, o governo, cria medidas que garantam a posse de armas inclusive para menores de idade.

Vale lembrar que, o Brasil é um dos países do mundo mais violento para as mulheres, povo negro, indígenas, ativistas ambientais, trabalhadores rurais, quilombolas, população LGBT, etc. Os militares do Brasil, são os que mais matam no mundo segundo pesquisas da OAB (2019). O Brasil é o país do mundo que mais mata com armas de fogo segundo pesquisas da Associação Americana de Medicina (2019).

Portanto, a política do atual governo brasileiro, quer garantir que todo brasileiro não tenha acesso à educação, não pense criticamente, não participe de tomadas de decisões, que seja, ignorante, intolerante, mas, que tenham até quatro ARMAS de FOGO.

Assim, o objetivo principal dessa política é garantir que a população dê continuidade à política de dizimação social que está sendo posta em prática, essencialmente, pelos militares, desde que Bolsonaro assumiu a presidência.

Fonte: Portal – CTB
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Educação democrática e inclusiva

SOU UNIVERSIDADE PÚBLICA: MINHA HISTÓRIA

Pessoas como eu, que são chamadas de minorias sociais, por estarem em condições de desigualdade com uma parcela da sociedade, é provável, que nunca conseguissem concluir um curso de graduação e pós-graduação se não existisse universidade públicas e os programas de permanência na universidade criados pelo governo federal.

Nasci, num povoado de Maranhãozinho, um lugar de difícil acesso, não havia posto médico e existia apenas uma escola multiseriada, onde estudavam crianças, jovens e adultos, todos na mesma sala, meus pais eram lavradores, em razão da minha deficiência, eu quase nunca saía de casa, e, para passar o tempo, meus pais e meus familiares me davam livros, muitos, já estavam envelhecidos e frágeis,  na minha casa não tinha televisão e nem uma radiola, a única diversão que eu tinha era ler esses livros com uma lupa, que também, já estava muito gasta devido ao tempo de uso. Outras vezes, meus familiares faziam leituras para mim, com o tempo aprendi a escrever, mesmo sem poder enxergar bem, aprendi a desenhar e a recitar poesias.

O sonho do meu pai era um dia me ver na universidade, apesar, de saber que minhas chances seriam poucas, afinal, além da nossa situação econômica ruim e da distância do lugar que nós morávamos eu não enxergava.

O sonho dos meus pais, minha esperança e fé de viver dias melhores e muito, mais muito estudo, consegui ingressar na Universidade Federal do Maranhão, devido minha situação econômica, só pude concluir o curso de graduação que escolhi, porque recebi bolsas.

Na graduação morei na casa de estudante da UFMA, não paguei aluguel, água, luz e gás de cozinha. Ganhei bolsa alimentação (refeições gratuitas no RU). Fui bolsista estagiária no Campus. Fui bolsista em grupo de pesquisa. Quando terminei a graduação, ingressei na Pós-Graduação, fui bolsista da Capes. Desenvolvi pesquisas, participei de eventos e como parte do meu compromisso social, engajei-me em lutas sociais.

Na universidade aprendi a pensar e agir como um ser humano crítico e consciente, pautado no respeito a diversidade e pluralidade de ideias, condições e princípios. Conheci e assume, meu lugar no mundo com uma responsabilidade social e humana.

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Combate a violência e a discriminação

POR UMA INFÂNCIA SEM VIOLÊNCIA!

Em meus trinta e uns anos de idade, já vivenciei e ouvi inúmeros relatos de violência. Mas, nunca ouvi falar num evento realizado no Brasil que abordasse essa temática e que tivesse como objetivo criar políticas públicas, programas e campanhas de prevenção e combate à violência sexual contra crianças com deficiência.

Violência sexual contra crianças com deficiência são crimes corriqueiros no Brasil e acontecem predominantemente no âmbito familiar e doméstico. Esses crimes estão associados a fatores de risco decorrentes do aumento da desigualdade social, da pobreza extrema, desigualdade de gênero, doenças, etc.

Raramente os agressores são punidos e em todos os casos, as vítimas se tornam pessoas adultas sem compreender o que é sexualidade, relações sexuais, sem conhecer seu próprio corpo e com uma série de problemas psicológicos.

O combate à violência contra crianças com deficiência exige do Estado a obrigação de criar políticas públicas que amenizem as desigualdades econômicas, sociais, e de gênero e que ofereça educação de qualidade, específica, diferenciada e inclusiva, que ofereça assistência à saúde e reabilitação, arte e cultura, etc., para que as crianças com deficiência possam ter uma vida sem violência.

É sempre bom lembrar que é indispensável a participação de todos os brasileiros no trabalho de prevenção e combate à violência contra a criança com deficiência. Afinal, a Constituição de 1988, o ECA e o Estatuto da Pessoa com Deficiência dizem que a obrigação de cuidar e proteger das pessoas com deficiência é da família, do Estado e da sociedade civil.

Portanto, arregace a manga da sua camisa e levante a bandeira do combate à violência contra criança com deficiência!

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Combate a violência e a discriminação

POR UMA INFÂNCIA SEM ESTUPRO!!!

Um estudo realizado pelo Fórum Africano de Políticas para Crianças sobre violência contra crianças com deficiência mostra que crianças com deficiência têm quatro vezes mais possibilidade de sofrerem violência sexual e as meninas são as mais vulneráveis. Infelizmente, não encontrei dados oficiais e confiáveis sobre violência sexual contra crianças com deficiência no Brasil.

Penso que, violência sexual contra crianças com deficiência, é um tema ignorado por pesquisadores, gestores e pela sociedade civil. Decidi fazer uma pequena pesquisa de campo, nessa semana, somente para ter uma ideia do quanto a violência sexual contra crianças com deficiência é corriqueira e o agressor é impune.

Perguntei para sete pessoas com deficiência se já haviam sofrido violência sexual na infância. Todas me responderam que sim. Todas me afirmaram que não denunciaram. Todas me afirmaram que ainda tem contato com o agressor. Dessas sete pessoas, cinco são mulheres, relataram-me que familiares ou sabiam ou suspeitavam dos abusos, mas, preferiram ficar em silêncio.

Muitos casos de violência sexual contra crianças com deficiência não são denunciados, porque, o agressor é um familiar ou educadores, colegas, vizinhos, familiares, prestadores de serviços, membros de igrejas, etc. Essas violências assumem muitas formas, bullying, castigo físico, tratamentos violentos, como por exemplo, amarrar a criança numa cadeira ou na cama, trancar a criança num ambiente escuro, isolamento social, má alimentação, etc. No caso das meninas, a principal violência é o estupro, assédio e esterilização forçada.

As crianças com deficiência vítimas de violência, em específico, de violência sexual, raramente são percebidas socialmente.

Mudanças no comportamento de crianças com deficiência tendem a serem vistas por familiares e pela sociedade em geral, como decorrentes da deficiência. Por exemplo, quando crianças surdas, não participam de brincadeiras, trabalhos, jogos, etc., na escola, professores e educadores julgam que tal comportamento é decorrente da dificuldade de comunicação da criança surda com as crianças ouvintes. Situação semelhante, acontece com crianças cegas, que muitas vezes, são vistas como dependentes, sempre precisando de ajuda. Situação mais grave, são as crianças com deficiência mental, a sociedade tende a julgar todo seu comportamento em razão da sua deficiência.

Crianças com deficiência são antes de tudo, crianças, e, como toda criança gostam de brincar, sorrir e viver em sociedade. O isolamento social, crises de choro, medo, comportamento agressivos, timidez excessiva, são sinais de que a criança com deficiência pode estar sofrendo violência sexual.

Lembre-se a obrigação de cuidar e proteger das crianças com deficiência é sua também! Afinal, a Constituição de 1988, o ECA e o Estatuto da Pessoa com Deficiência dizem que a obrigação de cuidar e proteger as pessoas com deficiência, a criança e o adolescente é da família, do Estado e da sociedade civil.

Fique atento! Arregace a manga da camisa e levante a bandeira do combate à violência sexual contra criança com deficiência!

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Descrição da imagem: Simbolo da infância, consiste numa imagem com fundo branco e o desenho estilizado de uma menina e um menino na frente de sol amarelo.
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Combate a violência e a discriminação resista como uma mulher cega!

ESTUPRO DE MULHERES COM DEFICIÊNCIA? QUEM SE IMPORTA?

Inúmeros estudos apontam que as pessoas com deficiência em específico, as mulheres são mais vulneráveis a sofrerem violências, seja por meio do isolamento social, agressões físicas e psicológicas.

Segundo o Atlas da violência (2018), dos 22.918 casos de estupro denunciados em 2016, 10,3% das vítimas tinham alguma deficiência. 31,1% tinham deficiência mental e 29,6% possuíam transtorno mental e entre os casos de estupro coletivo, 12,2% das vítimas têm algum tipo de deficiência.

O Atlas toma como referência dados disponibilizados pelos órgãos de saúde. Assim, os números de casos de estupro contra mulher com deficiência são maiores, dos que estão registrados, na maioria dos casos, o agressor não é denunciado, além disso, os abusos e violências ocorrem mais de uma vez.

O estupro de mulher com deficiência, ocorre, predominante no âmbito doméstico e familiar em que o agressor mora com a vítima, outras vezes, o agressor é um vizinho, colega, cuidador, educadores e lideranças religiosas. Há casos de estupro, em que a vítima, em razão do grau da sua deficiência não consegue denunciar, como ocorre, especialmente, com mulheres com deficiência mental, em que o abuso só é descoberto na gravidez. O Atlas mostra que dos 649, pessoas com deficiência mental estupradas, 275 foram violentadas mais de uma vez.

As reincidências de estupro de mulheres com deficiência ocorrem pelo fato do agressor acreditar veementemente que não será punido, que ninguém irá acreditar na palavra da vítima ou que ela, não terá capacidade de denunciá-lo. Os agressores julgam que a mulher surda, não conseguirá se comunicar para fazer a denúncia e relatar o que aconteceu, que a mulher cega não poderá identificar e descrever o agressor, que a que tem deficiência física não conseguirá chegar a um local para fazer a denúncia, que a mulher com deficiência mental ao relatar um abuso, não vai passar de uma crise.

Em meio a tabus, preconceitos e exclusão mulheres com deficiência continuam sendo estupradas e vítima de todo tipo de violência, principalmente, no âmbito doméstico e familiar. Por estarem numa situação de grande invisibilidade, gestores públicos e a sociedade civil não demonstram interesse em defender essa causa.

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Combate a violência e a discriminação

VAMOS FALAR SOBRE ASSÉDIO CONTRA MULHER COM DEFICIÊNCIA?

O ciclo de assédio e violência contra mulheres cegas e com outros tipos de deficiência se inicia na infância. Agressores se aproximam da vítima de modo gentil, oferecem ajuda… isso ocorre em lugares públicos, supermercados, shows, igrejas, escola, etc. Mas, ocorrem principalmente, no seio da família. Com pessoas conhecidas, amigáveis. Muitos agressores são extremamente religiosos, pregam a valorização da família, são sociáveis. Alguns são autoridades, professores, oficiais, pessoas escolarizadas, intelectuais… e sempre se identificam como heterossexuais…

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resista como uma mulher cega!

11 DIAS DEPOIS DO “VOCÊ NÃO TEM COMO PROVAR PORQUE VOCÊ NÃO VIU”

Você não tem como provar porque você não viu! Essa é a frase que dá segurança e a certeza de impunidade para agressores sexuais e morais de mulheres cegas. Hoje faz 11 dias da última vez que ouvi esta frase. Até agora nada foi apurado, não fui ouvida de modo oficial, nenhuma providência foi tomada. Talvez eu tenha já ficado próximo do meu agressor, tenha andado lado a lado com ele e quem sabe sorrido Afinal não consigo enxergar!

Já vivenciei inúmeras situações de violência e assédio executados por homens, brancos, negros, alto, baixo, ricos, pobres, idosos, parentes, conhecidos, vizinhos, estudantes, escolarizados, politizados, intelectuais, com deficiência e sem deficiência…

Acreditem. Homens com deficiências constantemente são mais violentos com mulheres com deficiência do que muitos homens sem deficiência. Quando eles cometem a violência corriqueiramente e por inúmeras razões saem impunes.

O ciclo de assédio e violência contra mulheres cegas e com outros tipos de deficiência se iniciam na infância. Aconteceu comigo. Em muitos momentos meus agressores chegaram até mim, me oferecendo ajuda e sendo simpático. Depois, vem as frases… toque… isto já ocorreu em supermercados, shows, igrejas, escola, etc., etc. Em todos os casos eu gritei, chorei e denunciei. Fiz queixas em delegacias e em defensorias. Fui obrigada a ficar diante de meu agressor e ouvir ele dizer que eu tinha entendido tudo errado, tudo não passou de um mal entendido, que eu preciso de tratamento psicológico por pensar mal das pessoas.

Por diversas razões, os lugares em que fiz denuncia me senti mais violentada. Precisei narrar a mesma história várias vezes, já ouvi, de funcionários de delegacias e defensorias, que se a pessoa não me agrediu, se eu não tenho marcas e nem testemunha, como vou provar o que estou dizendo? Assim, nunca conheci a justiça. Nunca foi feito nada e meus agressores continuam agredindo e violentando outras mulheres.

Um dia me disseram que fui assediada porque tenho riso fácil e falo muito, na minha adolescência me disseram que os meninos tomaram gosto comigo porque minhas pernas eram muito grossas e eu usava vestidos curtos. Teve uma época que fiquei tão triste e depressiva com isso, que cheguei até pensar que meus agressores estavam corretos. A culpada era Eu.

Hoje sei que não sou culpada. Assédio a culpa nunca é da vítima. É isso o que todos os agressores tentam fazer quando são denunciados. Culpam a vítima, isto aconteceu comigo.

Decidi pesquisar sobre violência contra mulher cega, infelizmente, não existem dados confiáveis, primeiro porque, muitas mulheres não denunciam, segundo porque, muitas fazem como eu fiz, para de denunciar, terceiro porque, ninguém quer pesquisar. Tenho falado na mídia, em escolas, universidades, hospitais, igreja, movimentos sociais, partido político e em blocos de carnaval, que mulheres cegas são estupradas, assediadas e violentadas diariamente e que isto este ciclo de violência se inicia na infância. Sei disso, com convicção, porque vivenciei e vivencio, porque ouço diariamente de pessoas com deficiência e de mães de crianças com deficiência e porque pesquiso.

 Com isso, pretendo contribuir para que mulheres cegas e com deficiência tenham um mínimo de segurança na sociedade, que possam entrar numa sala de estudo da sua universidade para estudar e dentro não tenha um homem assistindo filme pornô com um volume alto, e ele, lhe dizer que aquilo não é assédio, ele andar na sua direção e dizer você não pode provar nada, você não enxerga.

Descrição da imagem representação do feminino, imagem com fundo azul, no centro tem uma mancha na cor amarela um círculo com uma cruz embaixo e é o símbolo astrológico do planeta Vênus. Fonte azmina, 2020.
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“VOCÊ CONSEGUE”

Tem gente que acredita que no Brasil não existe racismo, homofobia e nenhum tipo de preconceito. Essa semana, uma pessoa que pensa assim, me falou que cotas raciais e para pessoas com deficiência é um privilégio, porque tanto o negro, quanto o índio e os deficientes podem conseguir o que quiser é só se esforçar.

Eu acredito nessa gente. Claro que acredito! Essas pessoas nunca entraram numa escola pública, nunca foram atendidos num hospital público, não sabem o significado da fome, o que é andar descalço quando não tem um chinelo, mesmo que seja emendado com prego, nunca andaram léguas em busca de água e para ir estudar numa escola multiseriada…  

Pessoas assim, tem pele branca e geralmente, são muito religiosas… Pensam que drogas e violência existem por causa de pessoas pobres, pretas e nordestinas, que quiseram deixaram o trabalho na roça para cidade e como se não bastassem queriam que os filhos estudassem e fossem doutores.

Pessoas que não acreditam que existe preconceito no Brasil, ocupam cargos importantes no governo e muitas pregam isto até nas instituições de ensino superior pública. Desconhecem, que seus descedentes mataram, escravizaram e expropriaram, inúmeras nações no Brasil… Destruíram terras e territórios, culturas e crenças…

Elas tem frases de efeito, iguais às que escuto constantemente, “se esforce que você consegue”…  Essas pessoas não compreendem porque simplesmente se negam compreender que no Brasil as oportunidades são para poucos e que a criação de políticas públicas de ações afirmativas só servem para amenizar a situação de desigualdade de condições entre pessoas que historicamente estiveram em situações desiguais, não é um privilégio, mas, sim, a garantia de um direito humano, a garantia do direito à vida e a participação social.

Agora, estou em dúvida, se vale a pena falar algo para esses crentes. Afinal já estão convertidos na crença da inexistência de preconceito há muito tempo.

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O CEGO QUE MAIS ENXERGOU O SERTÃO E O NORDESTE DO BRASIL

Aderaldo Ferreira de Araújo, Cego Aderaldo, nasceu em 24 de junho de 1878, na cidade de Crato no Ceará, logo após seu nascimento mudou-se para Quixadá no mesmo estado, sozinho aos cinco anos Aderaldo começou a trabalhar e tomou conta de seus pais doentes.

Cego Aderaldo. Fonte: Claudio Portela, 2013;
Quixadá. Fonte: Museu de Quixadá.

No ano de 1896 seu pai faleceu e 15 dias depois em 25 de março de 1896, quando tinha 18 anos e trabalhava como maquinista na estrada de ferro de Baturité, depois de uma forte dor nos olhos Aderaldo ficou cego.

Estrada de ferro de Baturité. Fonte: Claudio Portela, 2013.

Certa vez, Aderaldo teve um sonho em verso, ocasião em que descobriu seu dom para cantar e improvisar. Cego Aderaldo ganhou uma viola na qual aprendeu a tocar depois aprendeu a tocar rebeca, quando tudo parecia estar ficando bem, a mãe de Aderaldo morre.

Cego Aderaldo sozinho começo a andar pelo sertão, cantando e recebendo por isso, percorreu todo o estado do Ceará, parte do Piauí e Pernambuco, além de outras regiões do Nordeste como o Maranhão.

Cego Aderaldo durante uma cantoria. Fonte: Claudio Portela, 2013.

Em 1914, Cego Aderaldo travou a famosa peleja com Zé Pretinho, maior cantador do Piauí. Depois, retornou a Quixadá, mas com a seca de 1915, decidiu aventura a sorte no Pará, mas, retornou em 1920 para Quixadá e saiu de lá em 1923, para ir conhecer o padre Cicero em Juazeiro. Padre Cicero foi pessoalmente conhecer o trovador que já era famoso na região.

Cego Aderaldo e Zé Pretinho. Fonte: Claudio Portela, 2013

Depois de conhecer padre Cícero Cego Aderaldo cantou para Lampião e fez um pedido em verso, que era ganhar um revolver de Lampião.

Em 1931, comprou um gramofone e alguns discos e começou a fazer festas no sertão, divertia o povo apresentado o que era novidade mesmo na capital. Em 1933, começou apresentar vídeos.

Em 1942, Cego Aderaldo resolveu morar em Fortaleza e abriu uma bodega na rua da Bomba no número 02, não foi muito bem, nesse negócio e a bodega acabou fechando com prejuízo.

Em 1945, depois de já ter rodado todo o sertão inúmeras vezes, de ter pelejado com inúmeros cantadores, de ter participando da inauguração da primeira TV do Brasil, parou de aceitar desafios de cantoria.

Cego Aderaldo na inauguração da primeira TV do Brasil. Fonte Claudio Portela, 2013.

Cego Aderaldo nunca se casou, mas, se definia como um chefe de família, porque adotou mais de 20 crianças. Aos 89 anos no dia 29 de junho de 1967 em Fortaleza morre Cego Aderaldo. Um cego que tinha uma visão extraordinária dos problemas sociais no Brasil e no Nordeste.

Cego Aderaldo e seus filhos.
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PERSONAGENS CEGOS

Quantos personagens cegos você já viu na TV, no cinema, no teatro, em propagandas, outdoors, jornais, revistas e animações?

Talvez você não lembre de nenhum agora… Também, isso não é uma coisa importante para alguém prestar atenção né? A maioria dos personagens cegos são interpretados por artistas videntes, mas, há, personagens cegos interpretados por artistas cegos. Veja meus personagens cegos favoritos!

Dorinha é uma personagem que foi criada em 2004, para integrar a Turma da Mônica, uma revista infanto-juvenil brasileira, seu nome é uma homenagem a Dorina Nowil, uma mulher que perdeu a visão quando era criança e fundou uma instituição com seu nome para atender pessoas cegas. Dorinha é uma menina cega, inteligente, meiga e esperta. Adora moda e estar junto de seus amigos, usa óculos escuros e anda de modo charmoso com sua bengala e com o Radar, seu cão guia. Dorinha é a primeira personagem de revista infanto-juvenil cega do Brasil. Me identifico muito com esta personagem, por isso, a escolhi para colocar na logo do projeto Resista como uma mulher cega!

Dorinha é uma personagem que foi criada em 2004, para integrar a Turma da Mônica, uma revista infanto-juvenil brasileira, seu nome é uma homenagem a Dorina Nowil, uma mulher que perdeu a visão quando era criança e fundou uma instituição com seu nome para atender pessoas cegas. Dorinha é uma menina cega, inteligente, meiga e esperta. Adora moda e estar junto de seus amigos, usa óculos escuros e anda de modo charmoso com sua bengala e com o Radar, seu cão guia. Dorinha é a primeira personagem de revista infanto-juvenil cega do Brasil.
Logo do projeto. #para todos verem: imagem com fundo amarelo, com a frase: RESISTA COMO UMA MULHER CEGA!, escrita com letras pretas, do lado direito tem a imagem da Dorinha, com óculos escuros e bengala em preto e branco.

Anita personagem da novela Caras e Bocas da rede globo em 2009, interpretado por Danieli Haloten, a primeira atriz cega a ter um papel em novela brasileira.

Maester Aemon, um sábio que integra a patrulha da noite, grupo que protege a muralha e vive afastado da sociedade é integrante do clã dos Targarven, é interpretado por Peter Vaughan em Game of Thrones. O ator quando começou a gravação da série tinha baixa visão é provável que tenha ficado cego total na segunda temporada.

Jim Dunbar, personagem que perde a visão e que continua trabalhando na polícia como detetive na série Blind Justice.

Mathew Murdock, um dos mais icônicos personagens dos quadrinhos da Marvel Comics, fica cego ainda criança ao ser atingido por um caminhão com uma carga radioativa, mas isso, caba melhorando seus outros sentidos, originando o super-herói Demolidor, atualmente Charlie Cox interpreta o personagem na série de mesmo nome da Netiflix.

Leonardo, personagem interpretado por Guilherme Lobo é um adolescente com deficiência visual, que busca independência e viver um amor no filme Hoje eu quero voltar sozinho.

Ventura, um jovem racista e preconceituoso  que ficou cego quando criança. Se apaixonou por Bertoleza. Mas, no final da série se mostrou uma pessoa melhor. Interpretado por Vitor Thiré, na minissérie liberdade, liberdade da rede globo o

Frank, interpretado por AL Pacino no filme perfume de mulher. Frank resolve fazer uma última viagem antes de morrer na companhia de seu acompanhante Charlie papel de Chris O’Donnel.

Val Kilmer interpreta um cego que vive um grande amor, por insistência da amada acaba fazendo uma operação para recuperar a visão, mudando toda a sua vida e rotina. No filme primeira vista lançado em 1999. Esse filme mostra o quanto é dolorido viver com pessoas que não respeitam nossa deficiência.

Quando criança eu costumava contar histórias com personagens cegos, na verdade eles não eram cegos, mas, eu os tornava cegos… Me contaram que ela tinha a pele da cor da minha, cabelos longos e lisos iguais ao meu, vivia no fundo dos rios.

Às vezes a mãe d’ água brincava na beira dos igarapés e se por acaso alguma criança que ainda não fosse batizada ficasse sozinha na boquinha da noite perto de algum igarapé a mãe d’ água levava para morar no fundo do rio. A criança se tornava um encantado que apareceria apenas nas festas de tambor quando fosse chamado.  A mãe d’água precisava ser cega para me representar, por morar nas águas, ser poderosa e transformar uma pessoa comum num ser mágico.

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PRIMEIRA E SEGUNDA PESSOA

Tem pessoas que querem mostrar que pensam que são superiores a outras pessoas…. As vezes por razões bestas… A outra pessoa prefere não se importar e deixa essa outra pessoa pensar que pode se mostrar… Isso acontece entre aquelas duas pessoas alí. Veja!

A primeira pessoa acredita que é um gênio, afinal, nasceu e foi educada para ser um gênio! Nasceu em berço de ouro, perfeitinho! No seio de uma família tradicional. Estudou nas melhores escolas da capital. Aprendeu história, matemática, gramática. Hoje é doutora em economia, história, matemática e agronomia. Me contou que tem um QI maior que 100% e sabe explicar em segundos as principais características sociais, econômicas políticas e geográficas de todos os país do mundo.

A segunda pessoa, nasceu numa esteira de fibra de buriti, numa casinha de taipa no meio da roça. Aprendeu a lutar desde pequenina por terra para plantar e escola para estudar. Estudou história, política, religião, arte, direitos humanos e lutas sociais com poetas popular… Matemática nunca aprendeu… afinal pra quê contar? Quando se nasce com o dom para falar! Não nasceu perfeitinha… Tinha aparência de gente fraquinha… Nunca soube o quer dizer berço de ouro, não conhece vinhos importados e nem quitutes sofisticados… Hoje é artista e faz espetáculos diariamente no palco da vida, mas, também, faz pesquisa, tem uns cinco diploma da universidade, só não sei se é de doutorado…

A primeira pessoa contou-me quais eram seus doces favoritos. Fiquei entediada em ouvir tantos nomes estranhos que não lembro o nome para escrevê-los aqui. Desabafou dizendo que era infeliz, que já foi obesa e violenta.

A segunda pessoa contou-me que seu doce favorito é de abobora e mamão verde. Relatou-me que um dia ficou presa num arame farpado quando fugia depois de roubar manga do quintal da vizinha.

Um dia desses, a primeira e a segunda pessoa se encontraram numa aula sobre história do Brasil.

A primeira pessoa falou sobre colonização do Maranhão…  E veio os projetos de colonização… pessoas da floresta, das águas, da roça… Falou que estudou grandes pesquisas e que já publicou muitos trabalhos, artigos, resenhas…

A segunda pessoa disse que viveu histórias de colonos, pessoas da floresta, das águas, da roça…Viajou em lombo de jegue, de carroça e pau de arara em muitas estradas do Maranhão e do Nordeste. Ouviu, sentiu, viu, e viveu muitas histórias…

A primeira pessoa é ateia.

A segunda pessoa acredita em Deus, Deuses e Seres Celestes.

A primeira pessoa até fala de democracia mas desconhece os principais princípios democráticos, considera o Estado e povo a mesma coisa e odeia o que é público

A segunda pessoa diz que o Estado não deveria existir e odeia o que é privado.

Não sei por qual motivo… Mas, um dia a primeira e a segunda pessoa se encontraram.

A segunda pessoa discordou da primeira pessoa, citou até Celso Furtado, Florestan Fernandes e Caio Prado Jr para justificar sua opinião teoricamente.

A primeira pessoa decidiu impedir a primeira pessoa de falar ou seja de discordar…

No meio da fala da primeira pessoa a segunda pessoa citou um trecho da cantoria de Cego Aderaldo e o índio Azuplim… como de esperado, não houve debate algum… Afinal, o quem tem haver Celso Furtado, Florestan Fernandes e Caio Prado Jr com Cego Aderaldo e o índio Azuplim?

A primeira pessoa falou que é uma intelectual e a segunda pessoa consciente de sua sabedoria e generosa com a arrogância da primeira pessoa escolheu ficar em silêncio.

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SOBRE PESSOAS

Pessoas são seres estranhos, diversos, misteriosos, solitários, sem tamanhos e formas definidas.

Tem pessoas de todos os tamanhos, formas, tons…

Tem pessoas que transbordam amor, paixão, solidão, ódio e perdão…

Tem pessoas que são extremamente felizes, outras solitárias e outras nem uma coisa nem outra.

Tem pessoas que gostam de festa e futebol, comem carne, feijoada, mocotó, doces, salgados e cerveja tudo uma vez só.

Tem pessoas que só vão em festas e comem guloseimas somente aos finais de semana, outras que são vegetarianas, ambientalistas.

Tem pessoas que tem uma única religião, outras que tem muitas religiões e outras que não tem nenhuma.

Tem pessoas egoístas, despachadas, destrambelhadas, inteligentes, desligadas, espertas, espiritualizadas, honestas, zangadas, ciumentas, preguiçosas…

Tem pessoas que enxergam, ouvem, sentem e tocam o mundo de inúmeras maneiras diferentes…

Tem pessoas que conversam com a chuva, com o vento, com espíritos e até com o próprio tempo…

Tem pessoas como eu, que são um tiquinho de cada coisa que existem em todas as pessoas…

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TÁ DECRETADO O DIREITO DE SER RIDÍCULA QUANDO QUISER!

Hoje uma pessoa me perguntou se eu não tenho vergonha de ser tão ridícula ao ponto de fazer piada com minha própria cegueira. O correto seria eu viver triste e sempre em oração para que Deus tivesse misericórdia de mim e me curasse.

Tentando manter a calma, comecei a explicar que não é apenas com os olhos que podemos enxergar. Minha explicação fracassou e fez com que a pessoa pensasse que eu podia estar com algum espírito ruim nos “couro”. Aí ela me disse: “ quero te ajudar a entender que a pior coisa do mundo é ser cega, se eu ficasse cega morreria. Como você pode ser cega e ainda fazer piada da sua própria cegueira”.

Muitas pessoas já me falaram que não suportariam viver no escuro e se por acaso ficassem cegas se matariam. Mas, dessa vez, foi diferente, porque esta pessoa queria me fazer entender que é um castigo ser cega.

Sorrindo, falei que a cegueira não é um problema para mim, e que não tenho vergonha de ser ridícula e de tão ridícula que sou já até esqueci as ofensas que ela acabou de me fazer.

Sou ridícula ao ponto de gostar de cinema, desenho animado, pinturas e fotografias, mesmo sem enxergar e desconhecendo formas. Ah! Gosto de assistir televisão deitada no chão de pernas para cima, tentando acertar pipoca na boca e me divirto tentando encontrar as pipocas que caem no chão.

De tão ridícula que sou, transformo meus fracassos e tropeços em choro e gargalhadas, tudo ao mesmo tempo. Acredito em papai Noel, coelhinho da páscoa, em alienígenas, em heróis e heroínas, em mágicos e celestes, inclusive suspeito que sou um que está vivendo nesse mundo disfarçada de mulher cega!  Acredito também na mãe d ‘água, no saci e em alma penada.

Sou tão ridícula que acredito no poder de simpatias e pequenas mandigas: para visita desagradável coloco a vassoura detrás da porta, para espantar olho gordo, coloco vaso de pimenta malagueta em cima da mesa. Para garantir paz e prosperidade no lar, salpico aroma de hortelã e chá de capim santo em toda a casa.

Sou tão, mais tão ridícula que faço declarações de amor, algumas sedutoras, outras, meigas, outras amigas e carentes e outras com tudo isso junto.

Então, pessoa, não se acanhe, aproveite que hoje é o dia decretado para ser ridícula ou ridículo sempre que quiser e viva intensamente sem medo de ser feliz.

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Política

ESTOPIM CONTRA A DEMOCRACIA

Nasci numa data que expressava a esperança de muitos trabalhadores rurais de que seus direitos sociais seriam respeitados e a reforma agrária efetivada. Um ano marcado pelo fim da ditadura e pela efervescência cultural e política que exigia o início de um Estado democrático de direito, com participação popular plena e liberdade de expressão, tais, reivindicações foram garantidas com a promulgação da Constituição de 988, a chamada Constituição Cidadã pelo deputado Ulysses Guimarães, expressa um marco aos direitos dos brasileiros, porque, lhes garante liberdade civis e deveres do Estado.

Mobilização Diretas Já em Brasília. Fonte: Agência Brasil.

A participação popular é um dos principais elementos de todo governo democrático, no qual o povo participa do processo de tomada de decisões e sobre quais políticas públicas devem ser adotadas para melhorar a vida das pessoas.

O atual presidente do Brasil tem se mostrado cada vez mais avesso a democracia e o estopim contra a participação popular ocorreu no dia 11 de abril, quando assinou o Decreto 9.759/19, que coloca fim em 35 conselhos sociais do governo federal,  que integram a Política Nacional de Participação Social – PNPS, foram extintos. Entre eles estão o Conselho Nacional de Política Indigenista – CNPI e a Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena – CNEEI, que acompanhava a execução de políticas públicas para quase 3 mil escolas indígenas no país. Em relação a violência, negação de direitos e repreensão aos povos indígenas, a meu ver, não é novidade na gestão de Bolsonaro, porque, desde o início da sua campanha política demonstrou total desconhecimento e desrespeito sobre os povos indígenas do Brasil.

Mensagem das lideranças reunidas na aldeia Panorama, na Terra Indígena Karipuna. Foto Fernanda Ligabue Greenpeace

O que me causou espanto, foi a extinção do conselho dos direitos da pessoa com deficiência, após quatro meses a primeira dama fazer seu discurso no dia da posse do seu marido na língua de sinais e a menos de três meses de el ter dado uma entrevista num canal de televisão dizendo que carrega e defende a bandeira de luta das pessoas com deficiência. Enquanto, seu esposo, o presidente Bolsonaro, gravou vídeos que circulam nas redes sociais, recebendo pessoas com deficiência e falou que seu governo será um governo INCLUSIVO.

A gestão do atual presidente, mal começou, mas, é notória que suas medidas visam extinguir os instrumentos democráticos de participação social, responsáveis pela criação de políticas públicas e controle social. Outro exemplo antidemocrático é a nomeação do torturador João Freitas como presidente da anistia é um crime contra os direitos humanos e uma ameaça a vida de todas as pessoas que vivem no Brasil, é estimular o ódio e a violência contra mulheres, a população, LGBTTQI, aos povos indígenas, pessoas com deficiência e contra toda pessoa que pense de forma democrática.

Não podemos nos CALAR, o governo tem que respeitar uma política de Estado, conquistada e garantida a partir de luta e militância popular. Os conselhos são políticas de Estado e o atual governo não pode negar direitos constitucionais e dos tratados internacionais de direitos humanos.

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Curiosidades e entretenimento

LHE PROMETO UMA VIDA SEM TÉDIO

Quando casei não prometi ao meu companheiro que o faria feliz todos os dias, que viveríamos juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, ou até que a morte nos separe e mais aqueles turbilhões de promessas que as pessoas fazem e falam antes de casar e que nunca cumprem. LHE PROMETI , apenas, UMA VIDA SEM TÉDIO. Hoje descobri que na verdade não faço com que seus dias não sejam um tédio, mas, acredito que meus dias não são entediantes .

Penso que pelo simples fato de eu não enxergar as coisas na minha vida ganham maior dinamismo, emoção e tudo se torna uma aventura, até mesmo, quando vou contar um sonho que tive, se torna uma narrativa extraordinária. As vezes sonho que estou enxergando, aí, levanto da cama em disparada, mas, logo percebo que não enxergo. Essa narrativa, é sempre motivo de risos, piadas e histórias na minha casa.

Não sei por qual motivo, mas, diariamente esqueço que sou cega ou esqueço que a maioria das pessoas enxergam, inclusive que meu esposo enxerga. Por isso, tenho o hábito de falar tudo por meio de descrição. Tal situação, gera uma dinâmica específica no nosso lar, as vezes alegres e outras nem tanto.

Todos os dias aprendo alguma coisa. Você acredita que num mesmo dia aprendi a fazer peixe assado e acessar a Netiflix. Bom, para você pode não ser muita coisa, mas, para uma pessoa cega acessar Netiflix sem leitor de tela é um grande feito! E esse grande feito precisar ser narrado para alguém e adivinha quem é a primeira pessoa da lista?

Nem tudo na vida é só alegria né?

Tem dias que vivo inúmeras situações de violência, preconceito e exclusão, as vezes, finjo que não percebi, outras, brigo, outras sou educada e converso, outras choro e grito. Advinha quem sempre vai me ouvir em casa?

Meus dias, assim como os seus, nunca são iguais, mas, pelo fato de eu ser cega, tudo o que acontece no meu dia é extremamente diferente do seu. Ir ao supermercado, por exemplo, é uma tarefa simples no dia a dia da maioria das pessoas, mas, para mim não é. Fazer compras ao supermercado é uma ventura que exige a criação de inúmeras táticas de sobrevivência… Em São Luís não existe nenhum supermercado com piso tátil, nenhuma sinalização que ajude pessoas cegas a fazerem suas compras com autonomia, as pessoas não respeitam a fila preferencial, etc. Além disso, já vivi diversas situações em supermercados de desrespeito e assédio.

Por falar em tática de sobrevivência eu e meu esposo criamos centenas que estão em uso contínuo e em fase de aprimoramento para todos os dias do ano. Temos táticas específicas para cada situação cotidiana, todas acompanhadas de um sistema secreto de códigos que apenas nós dois sabemos. Temos também, algumas especiais que são aquelas de datas específicas, como o carnaval, natal, páscoa, para festas de rock, para estádio de futebol, para barzinhos e etc.

Aprendi executar essas táticas e a ler seus códigos com cabeça erguida e barriga para dentro. Quero que você fique sabendo que isso também é um grande feito! Não é fácil uma pessoa cega andar de cabeça erguida, barriga para dentro, segurando na mão do seu companheiro e sem usar bengala.

Talvez nunca tenha vivido em tédio, ou talvez sempre vivi em tédio a ponto de não perceber a diferença e pensar que o tédio não existe. Talvez minha vida não seja tão dinâmica como a sua, mas, é que eu vivo tudo tão intensamente e apaixonante que tudo parece mais leve e menos entediante.

Descrição da imagem: estou do lado esquerdo, vestida com uma blusa branca e um short verde, do lado direito meu esposo está vestido com uma camiseta branca, um calção azul e um boné preto. Estamos nos beijando em cima de uma pedra na beira do mar em Parnaíba – Piauí.


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Política Povos indígenas e povos tradicionais

CAPITALISMO E POVOS INDÍGENAS NO BRASIL

Todos os povos indígenas do Brasil possuem um modo específico de se relacionarem socialmente e territorialmente , de modo que não é pautado em divisão de forças de produção, coerção e destruição, tal, como ocorre no modo de vida dos povos que estão inseridos no sistema capitalista ocidental. O problema atual que cerca os povos indígenas no Brasil e em específico, os povos isolados, resulta do contato intercultural forçado que retirou inúmeros povos indígenas de seu território original para inseri-los num novo modo de vida, baseado em padrões ocidentais, pautados essencialmente, em interesse econômico de âmbito nacional e global e que entende, o modo de vida dos povos indígenas como atrasados e enfadonhos. Foi por meio de contatos forçados, entre “índios e brancos” que as fronteiras do Brasil se delinearam e colocaram as diversas nações indígenas numa situação de estrangeiros na sua própria terra. Esta situação é oficializada, no artigo 231 da Constituição brasileira de 1988, quando garante aos povos indígenas somente a posse e o usufruto das terras que ocupam, enquanto, a União é dona do território. Há mais de 500 anos os povos indígenas lutam diariamente e incansavelmente pela posse, garantia e proteção de seu território. Essa luta, nunca parou, pelo contrário, hoje mais do que nunca, os povos indígenas têm se organizado para lutarem por um direito essencial que é a terra, porque, é a partir da conquista deste direito, que os povos indígenas lutam pela garantia de outros direitos básicos como saúde e educação. Afinal, como um povo indígena pode lutar pela implantação de uma escola em seu território se, esse povo não tem território demarcado?

Povo Guarani em protesto na Ponte Ayrton Senna, no último dia 25 de março. Crédito da foto. Paulina Martines. Fonte: CIMI – MA

Em apenas, quatro meses de governo, o atual presidente do Brasil fez com que os direitos dos povos indígenas retrocedessem mais de trinta anos. Incluindo, uma política de repressão e autoritarismo contra as mobilizações indígenas. Um exemplo disso, foi o que ocorreu no dia 25 de março deste ano com o povo Guarani que vivem no Paraná. Os Guarani foram impedidos de realizar uma manifestação em vias públicas no oeste do estado do Paraná. A interdição previa o recolhimento de crianças e jovens, mais, o pagamento de uma multa no valor de cinco mil reais por hora, além disso, poderiam ser presos em flagrante por crime de desobediência. Ora, esta ação não só é autoritária, como fere os direitos constitucionais de organização, mobilização, participação e livre expressão, etc., conquistados e garantidos aos povos indígenas na Constituição brasileira em vigor. Além do aumento da repressão contra os povos indígenas, o governo atual, tem criado uma série de medidas, excludentes, racistas, discriminatórias, que visam a negação e o desconhecimento e a expropriação dos direitos indígenas de seu território para serem ocupados por não indígenas e implantados projetos econômicos que não irão favorecer e nem melhorar a vida de nenhum povo.

Eu e o povo indígena  Awá no  anfiteatro do Centro de Criatividade Odylo Costa Filho em São Luís – MA no dia 19. 04. 2018. Fonte: arquivo pessoal.
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Direitos humanos Povos indígenas e povos tradicionais

POVOS “ISOLADOS”: OS KORUBO E OS MATIS SOBRE ATAQUE

No final do mês de março de 2019, a Fundação Nacional do Índio – Funai organizou a maior expedição dos últimos 20 anos para contatar um grupo indígena “isolado” na Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas. De acordo com informações da Funai e, de organizações indigenistas como ISA e de matérias veiculadas na imprensa nacional e internacional, o principal objetivo desta expedição da Funai foi evitar conflitos entre os Korubo do Coari e os Matis.

Os Matis foram contatados na década de 1970. Desde os primeiros contatos esse povo foi acometido por diversas epidemias que dizimou grupos inteiros e os sobreviventes se dispersaram na floresta. Devido inúmeras ameaças, violências e doenças que estavam sofrendo, deixaram-se contatar novamente pelos funcionários do posto da Funai localizado às margens do rio Ituí.

Os Matis foram contatados na década de 1970. Desde os primeiros contatos esse povo foi acometido por diversas epidemias que dizimou grupos inteiros e os sobreviventes se dispersaram na floresta. Devido inúmeras ameaças, violências e doenças que estavam sofrendo, deixaram-se contatar novamente pelos funcionários do posto da Funai localizado às margens do rio Ituí.

Os Korubo foram contatados pela Funai na década de 1990 e atualmente, há mais de 200 pessoas vivendo de modo isolado movimentando-se entre os rios Ituí, Coari e Branco.

Um grupo Korubo na Terra Indígena Vale do Javari. Fonte: ISA, 2019

Segundo a Funai a causa para o conflito entre os Korubo e os Matis diz respeito ao território. Os Korubo que vivem de modo isolado entendem que os Matis que vivem em torno do posto indígena da Funai são invasores de seu território.

Todo brasileiro que frequentou uma escola já deve ter ouvido falar, que guerras interétnicas sempre existiram no Brasil e em diversos países do mundo. Elas ocorrem por inúmeros fatores: cultura, crença, território, etc. No Brasil, essas guerras nunca causaram genocídio, e etnocídio de grupos inteiros.

Historicamente, povos indígenas isolados foram contatados quando o governos, empresários, ruralistas, banqueiros, etc., tinham interesse em ocupar o território desses povos. No caso do território habitado pelo povo Korubo, pelo povo Matis, mais os Kanamari, Tsohom Marubo, Matsés, Djapá, está localizado numa região em que governo atual, desde, o período de campanha tem incentivado, empresários e ruralistas a implantarem projetos econômicos e explorarem recursos naturais.

Nos primeiros meses de governo, o atual presidente, líder, de uma elite que desconhece a história do Brasil e da diversidade de povos com cultura, língua, modos de se organizarem e se relacionarem com a terra e entre si de modo específico e diferenciado. Entregou a proteção ao meio ambiente e o direito à terra dos povos indígenas e as organizações ambientais nas mãos de ruralistas e empresários. Tem enfraquecido as agências governamentais que supervisionam a proteção da Amazônia e dos povos indígenas. Em razão disso, as ameaças a vida dos povos indígenas tem se intensificado.

Quero lembrar que no Brasil nenhum povo indígena é dono de nenhuma terra que ocupa, são lhes assegurado apenas o direito a posse e usufruto. O dono de todas as Terras Indígenas no Brasil é o Estado brasileiro.

Assim, os Korubo, os Matis e outros povos indígenas que estão vivendo de modo isolado, estão diretamente ameaçados pela política etnocida do atual governo brasileiro. Que afirma descaradamente na mídia que no Brasil não existem povos indígenas.  Insiste em executar uma política de unificação de mais de 300 nações indígenas que falam cerca de 274 línguas, numa única cultura. Isto é sem dúvida, um retrocesso para história do Brasil e dos direitos conquistados com muita luta dos povos indígenas desde a época a época da colônia.

Se você fizer uma pesquisa rápida no google sobre Terras Indígenas no Brasil irá descobrir que são as únicas regiões do Estado brasileiro menos desmatada e exploradas. As pesquisas afirmam que os povos indígenas são guardiões da terra e de tudo que nela habita. Para os povos indígenas e principalmente, para grupos indígenas que vivem de modo isolado a terra é o principal elemento que garanti sua sobrevivência física e cultural.

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Descrição da imagem: Primeiro contato dos Korubo com a Funai. A foto mostra Sidney Possuelo ex-sertanista da Funai e um guia matis que serviu de intérprete no primeiro contato pacífico com os Korubo. Fonte: ISA, 2020.
Descrição da imagem: Um homem Matiscom zarabatana. Terra Indígena Vale do Javari. Amazonas, 1985. Fonte ISA, 2020.